O velho Estádio do Restelo aprumou-se este domingo para, ao final da tarde, voltar a ser palco de um jogo grande com a receção ao vizinho Estoril para a Taça de Portugal. Dois emblemas históricos do futebol português que têm passado por acentuados altos e baixos e que se cruzaram, nesta altura, separados por dois patamares de diferença, embora isso não tenha sido muito evidente neste duelo sobre o Tejo. Pelo contrário, os azuis estiveram muito perto de surpreender os canarinhos e a contenda só se resolveu com um golo já em tempo de compensação.
Um duelo que começou mais cedo, nas bancadas que, apesar de estarem longe de estarem preenchidas, contaram com dois grupos de adeptos bastantes entusiásticos no apoio às respetivas equipas. Foi a equipa da casa que deu o pontapé de saída e partiu desde logo para o ataque, colocando o vizinho primodivisionário em sentido.
Duas equipas que subiram ao relvado com sistemas táticos semelhantes, em espelho, com uma linha de três centrais e alas bem abertos sobre as alas. Depois da investida inicial dos azuis, os amarelos procuraram assumir as rédeas do jogo, mas sentiram sempre dificuldades nas transições do adversário. O Estoril tinha mais bola e procurava atacar de forma organizada, procurando brechas na defesa azul, mas sempre que perdia a bola tinha de recuar em toda a linha face aos ataques diretos e muito rápidos da equipa da casa.
O Belenenses fechava-se bem a defender, mas depois desdobrava-se facilmente para o ataque, chegando com muita gente à área canarinha, com especial destaque para as ações de Evandro, Bandarra e Morgado. André Lacximicant teve o golo nos pés, num lance individual, mas, logo a seguir, Fabrício e Sambú deixaram a defesa do Estoril em polvorosa. Começava a ser um jogo de parada e resposta, muito aberto, com as equipas a atacar à vez.
Foi neste equilíbrio muito ténue que André Lacximicant ganhou uma bola que Bandarra tinha tentado atrasar de cabeça, entrou na área e foi derrubado ostensivamente por Gonçalo Pinto. O árbitro não teve dúvidas em apontar para marca dos onze metros e Pizzi, com um pontapé colocado, abriu o marcador. Um golo que podia proporcionar maior tranquilidade aos visitantes, mas não foi isso que aconteceu.
O Belenenses continuou, com sangue na guelra, a atacar com muita gente e até ao intervalo esteve por várias vezes perto de empatar o jogo, com destaque para as oportunidades de Miguel Bandarra e Diogo Leitão. Os azuis foram para o intervalo claramente por cima do jogo e regressaram da mesma forma.
Com a chuva a aumentar de intensidade, os azuis conseguiram imprimir ainda mais velocidade e chegaram ao empate logo a abrir a etapa complementar, com Fabrício a amortecer uma bola sobre a esquerda para a finalização fácil de Eduardo Love. Delírio nas bancadas do Restelo.
A verdade é que era o Belenenses que mandava no jogo nesta altura e até esteve muito perto de virar o resultado, numa bomba de Tiago Morgado que proporcionou a defesa da tarde a Martin Turk. Ian Cathro não podia gostar do que estava a ver e, logo a seguir, promoveu três alterações de uma assentada.
Alterações que permitiram o Estoril serenar, recuperar o controlo do jogo e respirar melhor, apesar da chuva que caía cada vez com mais intensidade. O jogo passou por um período de ritmo mais baixo, com as equipas a recuperarem fôlego para os minutos finais. A verdade é que o Belenenses voltou a crescer e teve uma série de oportunidade para chegar novamente ao golo, com Wilson Eduardo, apesar dos seus 35 anos, a dar sangue novo aos azuis.
O Belenenses crescia a olhos vistos, com base na irreverência de Diogo Leitão, Tiago Morgado e Evandro Barros. Sucederam-se oportunidade atrás de oportunidades para a equipa da casa, os adeptos estavam também entusiasmados quando, já aos 94 minutos, uma bola longa de Begraoui permitiu a André Lacximant marcar com um remate forte à entrada da área.
O jogo acaba logo a seguir, com os de amarelo em festa e os azuis sem esconder uma enorme desilusão. A Taça é assim, feita de emoções fortes.
Figura do jogo: André Lacximicant
Foi dos poucos jogadores do Estoril que manteve, aos longos dos 90 minutos, o nível de Liga. Arrancou a grande penalidade que permitiu ao Estoril abrir o marcador e acabou por ser determinante, ao marcar o golo da vitória já em tempo de compensação. Pelo meio, André foi uma seta apontada à baliza do Belenenses. Com um jogo muito vertical, levou sempre a equipa para frente e não se cansou de o fazer até ao apito final.
Momento do jogo: golo nos descontos
Um golo para lá dos 90 que decide um jogo tem forçosamente de ser o momento do jogo. Até porque nessa altura, o Belenenses parecia mais próximo de chegar à vantagem. Era, aliás, o Belenenses que estava a atacar e permitiu a transição bem-sucedida dos canarinhos. Begraoui destacou André Lacximant que acabou por marcar o golo que vale o passaporte para a quarta eliminatória.
Positivo: a irreverência de Evandro e Diogo Leitão
Um Belenenses de tração à frente e com sangue na guelra, impulsionado por um misto de juventude e experiência. Evandro e o jovem Diogo Leitão estiveram em particular destaque nas transições dos azuis que fizeram muita mossa no Estoril.
Ficha do jogo
Estádio do Restelo, em Lisboa
Árbitro: Diogo Rosa
Assistentes: Pedro Mota e Rúben Silva
4.º árbitro: Filipe Mestre
BELENENSES (3x4x3): Gonçalo Pinto; Cesinha, Jorge Teixeira e Nuno Tomás; Miguel Bandarra, Diogo Paulo (João Machado, 90m), Tiago Morgado e Evandro (Afonso Afonso, 90m); Sambú (David Rebelo, 67m), Eduardo Love (João Paredes, 76m) e Diogo Leitão (Wilson Eduardo, 76m).
ESTORIL (3x4x3): Martin Turk; Tsoungui (Peixinho, 68m), Bacher e Ferro (Kévin Boma, 46m); Tiago Brito (Pedro Carvalho, 61m), Pizzi (Lominadze, 61m), Holsgrove e Gonçalo Costa; Fabricio (Begraoui, 61m), André Lacximicant e João Carvalho.
Ao intervalo: 0-1
Marcadores: Pizzi (27m, gp), Eduardo Love (50m) e André Lacximicant (90+4m)
Disciplina: cartão amarelo Eduardo (20m), Holsgrove (45m), Cesinha (45m) e Diogo Paulo (84m), Jorge Teixeira (89m) e Gonçalo Costa (90m).
Resultado final: 1-2