Sim, a história não se repete, mas os dois jogos entre Benfica e PSG começaram mais ou menos da mesma forma. Um lance simples da equipa portuguesa, golo. Lá foi Simão, de cabeça, a cruzamento de Nelson. Na Luz o passe foi de Nuno Gomes e o «capitão» fez chuaaa à saída de Landreau.

Fácil? Sim, dava essa ideia. O PSG aparecia com uma linha de quatro muito subida e foi precisamente entre os calcanhares dos últimos franceses e o guarda-redes que Simão entrou. Aos 11 minutos, o Benfica ganhava vantagem. Logo a seguir, no mesmo lance, os dois gregos experimentaram os postes. E um pouco mais tarde Petit fez 2-0. Um momento. Um golo daqueles não pode caber num parágrafo.

Agora está bem. Petit aproveitou uma aberta entre o meio-campo e a defesa dos franceses (e naquela altura havia algumas), deu meia dúzia de passos, pensou que era dia de fazer um grande golo e fez. Um chapéu espantoso, tão perfeito que a bola foi à trave de Landreau e decidiu entrar, como quem não quer faltar a um encontro.

Durou cinco minutos o encantamento, com a Luz a tremer de emoção e provavelmente alguns adeptos a fazerem contas ao próximo adversário. Mas um minutos depois da meia hora, Pauleta apareceu para responder a um excelente cruzamento de Rothen, mais cedo do que Anderson. Moretto, a surpresa que irritou os adeptos, podia ter feito muito mais. Eliminatória empatada, duas horas depois do primeiro apito, ainda em Paris.

Os últimos minutos antes do intervalo foram maus para o Benfica. E só por sorte não foram também trágicos. Moretto teve duas más saídas, Nelson encostou em Diané quando este, já na área, ia para a baliza. Enfim, o leitor ficará com uma ideia do ambiente se lhe disser que por essa altura alguns milhares gritavam «Moreira! Moreira!». Poucas vezes o apito para intervalo terá sido tão útil a uma equipa.

«Penalty» do céu

Na primeira parte o Benfica não teve grande capacidade de ter a bola, e o PSG, estranhamente, surgia mais solto e com capacidade explorar o pouco conhecimento entre os centrais e Moretto. Já se sabe que conseguiram assim um golo. Fernando Santos optou por trocar Karagounis por João Coimbra. E Moretto, numa atitude de coragem, entrou um minuto mais cedo do que os colegas. E foi aplaudido.

Na prática não mudou muita coisa. O Benfica recomeçou desligado, sem grande capacidade de pressão no meio, com os dois avançados muito distantes e, pior, com pouco Simão. O PSG não deslumbrava, mas parecia mais arrumado. Pauleta em bom nível, Rothen sempre uma referência no meio e Gallardo de vez em quando. Mais Luyindula, matreiro. No fundo, era como se o Benfica não tivesse previsto esta hipótese e desconfiasse de tudo. Por isso atacava com pouca gente, muito à base de passes longos.

O estádio tentava reagir, pois a equipa dava poucos sinais de o conseguir, enredada nas suas próprias dúvidas e receios, sem sombra da confiança dos primeiros 30 minutos. A passagem de Katsouranis para o lado esquerdo acabara de vez com a pouca ligação existente nos flancos, agravada pela pouca apetência de João Coimbra pelo ataque. Por esta altura o Benfica estava bloqueado. E precisava de fazer outro golo. Mas nada que se parecesse com uma oportunidade. A 20 minutos do fim. Fernando Santos trocou Miccoli por Derlei e passou a jogar em 4-3-3. E foi nesse sistema que se aproximou de algo parecido com oportunidades de golo.

Um jogo assim, tão perdido, só um acidente resolveria. Aconteceu a três minutos do final. Léo, por uma vez no ataque, ensaiou um drible, entrou na área e foi atropelado por Mulumbu. «Penalty». Simão. Golo. Pelo menos alguma coisa ainda fazia sentido. A eliminatória fora decidida pelo melhor de quantos jogadores pisaram os dois relvados. O Benfica estava nos quartos-de-final da Taça UEFA.