Aos 26 anos, Tiago Silva fez as malas e rumou a Terras de Sua Majestade para a primeira aventura no estrangeiro.

Depois de um ano difícil no Feirense, o médio ofensivo impôs-se – até para surpresa do próprio – rapidamente como um dos jogadores mais importantes no Nottingham Forest, a equipa mais portuguesa do Championship e um histórico do futebol inglês.

Em conversa por videochamada com o Maisfutebol, recordou a passagem pela formação do Benfica, onde foi treinado por Bruno Lage, a admiração por Pablo Aimar, os anos no Belenenses (com histórias inusitadas de Sá Pinto), no Feirense e os primeiros tempos em Inglaterra, onde se sente acarinhado.

Tiago Silva está agora em Portugal, onde aguarda que a pandemia abrande, para poder voltar a contagiar-se por algo seguro e saudável: o futebol inglês vivido por dentro. Enquanto isso, procura manter-se em forma e faz compras para a família: «Sou uma espécie de uber eats», diz.

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Maisfutebol – Há quem diga que o Championship é o campeonato mais competitivo do Mundo. Tem sentido isso?

T.S. – É um campeonato super-competitivo! Conseguia perceber pela televisão que é muito físico e via também que tinha muitos resultados improváveis, mas nunca pensei que fosse assim. É mesmo muito físico: ali, o jogador que pensar mais rápido e que for mais inteligente é aquele que vai destacar-se mais. E a intensidade é tremenda: o jogo não tem paragens. É de mais, mas é muito bom! Quando saí do Feirense, tive algumas propostas de clubes portugueses, mas queria experimentar outro futebol. Em Portugal, e foi isso que também me cansou, o jogo está sempre parado: notei muitas diferenças em relação a isso. Eu sou um jogador que sofre algumas faltas, mas reconheço que também cavo algumas faltas.

MF – Em Inglaterra há mais contacto e menos faltas ao mesmo tempo?

T.S. – Exato. E em Portugal os treinadores diziam-me: ‘Tiago, acalma o jogo e pega na bola.’ Eu, manhoso, segurava a bola e caía para acalmar o jogo. Agora isso é impossível, não dá. Podem dizer-me para acalmar o jogo, mas com bola: nada de ficar em cima da bola, sofrer um toque e ser apitada falta. Isso não existe. Hoje até praticamente já nem vejo jogos de Portugal. Lembro-me que nós, portugueses, às vezes reuníamos em casa uns dos outros e comentávamos as diferenças. Em Portugal, o jogo está muito tempo parado e é muito mais tático e técnico. Lá, é muito físico e mais intenso.

MF – Como é que um jogador mais tecnicista e menos físico se adaptou tão bem ao futebol inglês?

T.S. – Também tive de trabalhar o físico. Não basta qualidade para nos destacarmos no Championship. É preciso também bater neles… Mas acho que me tenho destacado por conseguir pensar um bocadinho mais rápido do que os outros e executar também rápido e com qualidade. Mas qualidade com bola não basta, porque não há muito espaço. O nosso treinador-adjunto, que é português [Bruno Baltazar], também me ajudou. Foi-me dizendo: ‘Isto aqui é diferente de Portugal, os árbitros não marcam faltas, tens de pensar e executar rápido e de estar preparado para o combate físico.’ E a minha mentalidade mudou.

MF – Sente que teve de otimizar também algumas das suas características mais inatas?

T.S. – Sim, sem dúvida. No Feirense, por exemplo, quando as coisas não estavam a correr muito bem o treinador pedia-me para baixar. Eu baixava e tinha tempo: recebia a bola, conseguia ver onde estava o espaço e fazer facilmente um passe entrelinhas. Nos primeiros tempos em Inglaterra, se eu baixasse um bocadinho para pensar o jogo, os avançados vinham logo por trás de mim como tratores [risos]. Tanto que o meu treinador dizia que não queria que eu baixasse, mas agora já estou mais adaptado a esta realidade e sei por onde é que eles podem aparecer na pressão. Agora, quando não temos bola já me vai pedindo para vir atrás e organizar o jogo.

MF – Ficou surpreendido por ter conseguido assumir-se tão rapidamente na equipa? Vi que é o terceiro jogador da equipa com mais minutos jogados.

T.S. – Fiquei. Eu achei que ia para o Nottingham não para substituir, mas para me revezar com o João Carvalho, até porque ele foi a contratação mais cara da história do clube e tem uma qualidade impressionante. A ideia era ir conquistando o meu espaço devagarinho. Infelizmente, ele lesionou-se e eu acabei por começar a jogar e consegui mostrar que de desconhecido podia passar a ser uma boa alternativa ao João. As coisas foram-me correndo bem, mas não cheguei lá com a ideia de me impor rapidamente e de tirar o lugar a A ou a B.

MF – Sente que deu um salto na carreira apesar de ter transitado da Liga portuguesa para o segundo escalão de Inglaterra?

T.S. – Sem dúvida nenhuma. Com todo o respeito que tenho e que sempre terei pelo Feirense, o Nottingham é um clube que lutava facilmente por boas classificações em Portugal. Nem todas, mas seguramente o Nottingham e muitas outras equipas do Championship: West Brom, Leeds, Fulham, Brentford ou Preston são equipas que jogam muito bom futebol e que em Portugal se batiam com os grandes.

MF – E o ambiente nos estádios? Já tinha vivido algo assim em Portugal?

T.S. – Lembro-me de uma festa incrível no Dragão quando lá fui jogar pelo Feirense e o FC Porto já era campeão, porque o Benfica tinha empatado com o Sporting. E também fui jogar à Luz quando o Benfica arrasava com o Jorge Jesus. Ambientes fantásticos, mas nada a ver com o que se vive em Inglaterra. Eles também não são perfeitos, mas é raro ver-se os adeptos a assobiarem os jogadores. Vibram com um carrinho como se fosse um golo e deliram com coisas como um passe bem feito numa zona de pressão.

MF – E que sensações tem um jogador quando vê que as suas ações têm um impacto imediato na bancada?

T.S. – É brutal. E atenção que há muitos jogadores que vivem disso! Se a primeira ação no jogo correr mal, ficam o resto do jogo bloqueados. Lá isso não acontece: há reação no público, mas não é negativa. A seguir, o mesmo jogador faz uma coisa boa e vibram.

MF – Aconselhou-se com algum jogador antes de assinar pelo Nottingham?

T.S. – Eu já tinha falado com o Pelé, que tinha estado aqui no Nottingham. Fomos ao casamento de um amigo, estávamos a falar sobre isso e ele disse-me que o campeonato era brutal. Depois de assinar, falei com o Ivan [Cavaleiro] e com o Peter Etebo, que foi meu colega no Feirense e estava no Stoke City.

MF – Sente que os portugueses são acarinhados aí?

T.S. – Agora sim! Não sei ao certo com era antes de chegar, apenas que gostavam muito do João [Carvalho] e do Tobias [Figueiredo], mas parece que alguns outros portugueses que por aqui passaram não lhe caíram no goto. Quando vou ao barbeiro, por exemplo, dizem-me que os portugueses são a alma da equipa: ‘No ano passado não, mas vocês…’ E acho que viemos mudar um bocadinho a imagem que tinham dos portugueses. Eles dizem: ‘Tu és pequenino e mesmo assim andas ali a bater neles.’ Eles pedem raça.

MF – Por falar em portugueses, o Bruno Fernandes foi o último a chegar a Inglaterra e impôs-se com muita facilidade no Manchester United. Fala-se muito dele mesmo na vossa equipa?

T.S. – Por acaso, quando ele chegou alguns jogadores comentavam no nosso balneário que achavam que ele não era jogador para o United. Nós, portugueses, só dizíamos que eles iam surpreender-se quando o vissem jogar: é um super-craque e está a prová-lo.

MF – Tenho de lhe perguntar sobre aquela ‘virgula’ a um adversário num jogo com o Derby County. Recebeu mais mensagens por isso ou pelos golos que marcou?

T.S. – Recebi bem mais mensagens depois dessa ‘vírgula’ [risos]. Aquilo foi partilhado em todo o lado. Pelo Maisfutebol, por exemplo, e pela Eleven Sports. Lembro-me que nesse mesmo dia, depois do jogo, viajei para Portugal com o Tobias e o treinador-adjunto, o Baltazar. Entrámos no aeroporto de Heatrow e quando entrei no túnel para o avião o meu telemóvel começou a vibrar até perder a rede. Comentei que alguém me tinha identificado naquele lance. Ele avisou-me logo que ia tornar-se viral. Quando aterrámos em Portugal, liguei-me. Meu Deus: tudo a vibrar, 200 e tal notificações no Instagram, mensagens no Whatsapp, os meus amigos nos grupos a mandarem-me o vídeo. Tive noção do que fiz, porque os meus colegas comentaram comigo quando o jogo acabou, mas nunca pensei que fosse ter aquele impacto.

MF – O que é que já conhecia do Nottingham, um clube que quase do nada chegou a bicampeão europeu há 40 anos com Brian Clough, um treinador mítico?

T.S. – Na altura só sabia que tinha ganho duas Champions e que era um clube histórico, mas também porque pesquisei. Mas, agora sim, estou muito familiarizado com isso porque o clube também partilha muita informação sobre essa época.

MF – O Nottingham está neste momento num lugar de acesso ao play-off de subida à Premier League, onde já não compete há praticamente 20 anos. A subida é um objetivo declarado?

T.S. – Inicialmente não foi, porque a equipa teve muitas mudanças. Mas acabámos por nos surpreendermos a nós próprios. Fomos ganhando jogos e neste momento estamos numa boa posição. Mesmo que as pessoas não queiram assumir que é um objetivo, é um desejo. A oito ou nove jornadas do fim, e se for para o fim o término do campeonato, é legítimo ambicionarmos com isso.

MF – E acha que o campeonato vai ser reatado?

T.S. – Eu gostava que sim, porque estamos numa situação em que podemos aspirar subir à Premier ou ir ao play-off. Mas acima de tudo tem de estar a segurança dos jogadores.

MF – A Premier League é o sonho de uma vida?

T.S. – Sem dúvida! Não quero morrer sem experimentar a Premier League. Acho que é o auge da carreira de qualquer jogador, tirando naturalmente a Seleção A. Mas também tenho a ambição de um dia jogar em Espanha. Até tive a oportunidade de dizer isso numa entrevista há pouco tempo: o futebol espanhol muitas vezes é demasiado bem jogado que até aborrece. As pessoas veem o Barcelona jogar e dizem que já aborrece: aquele futebol curto... Mas é isso que me cativa: o futebol bem jogado. Não digo que não goste do futebol jogado em Inglaterra. Gosto! Mas é jogado mais com o coração do que com a cabeça. E Espanha não: é tudo muito pensado e bonito.

MF – Mas não sentiria falta da alta intensidade e da energia dentro e fora de campo que se vive em Inglaterra?

T.S. – Muito provavelmente! E já pensei nisso: adaptei-me bem e vai ser difícil viver com menos do que isto quando sair daqui. E quando digo ‘menos do que isto’, refiro-me à atmosfera. Mas eu tive a sorte de poder vir para o melhor país do Mundo para o futebol: porque tudo o que envolve o futebol em Inglaterra é do melhor. Se calhar até devia ter feito ao contrário: experimentar Espanha primeiro e, depois, se me cansasse do futebol bonito, Inglaterra para cansar o corpo [risos].

MF – E Portugal ainda cabe nesses padrões? Está nos planos voltar um dia?

T.S. – Está, claro. Um dos meus objetivos era conseguir jogar um dia num dos grandes.

MF – E a Seleção A? Foi a um Mundial sub-20 e aos Jogos Olímpicos em 2016…

T.S. – Realisticamente, sei que é muito difícil. Já tenho 26 anos e não é fácil para um jogador que passou por Belenenses, Feirense e Nottingham, com todo o respeito, de repente ir à Seleção Nacional. A não ser que subisse de divisão e depois fizesse uma época de sonho da Premier League: aí era legítimo. Mas não escondo que gostava muito. Provavelmente, nunca vai acontecer, mas tenho de definir essa meta no meu trabalho.

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