A jornada 31 pode valer o 30. É o primeiro «match-point» da Liga 2021/22, a primeira oportunidade de ficar matematicamente selado o campeão. Prerrogativa do FC Porto, que para isso precisa de fazer em Braga melhor do que o Sporting na visita ao Bessa. Se o título ficar fechado já neste 25 de abril, teremos o campeão mais precoce dos últimos 11 anos. Seria mais um dado a reforçar o incrível campeonato desta equipa de Sérgio Conceição, que já entrou na história do futebol português com o recorde de invencibilidade e ainda tem na mira vários outros máximos, desde logo a possibilidade de ser o campeão com mais pontos ou de conseguir a dobradinha, somando a Liga à Taça de Portugal.

É uma jornada de grande exigência para o FC Porto, que tem uma deslocação a um terreno difícil, mas também para o Sporting, depois da derrota com o Benfica para a Liga que levou Ruben Amorim a atirar a toalha ao chão, a que se seguiu a eliminação da Taça de Portugal frente ao FC Porto. Mas a conjugação de fatores necessária para o FC Porto selar desde já o título não seria inédita. Olhando apenas para os últimos 20 anos, houve várias ocasiões em que a consagração do campeão foi selada por um deslize do rival direto na mesma ronda. E Sérgio Conceição já festejou dois títulos depois de o Sporting vacilar, um como jogador e outro como treinador. Em ambos a festa foi no hotel.

Conceição: duas festas no hotel depois de deslizes do Sporting

Em 2003/04, a consagração do FC Porto campeão chegou precisamente com a equipa concentrada na véspera de receber o Alverca, e depois de um deslize do Sporting, que perdeu na deslocação a Leiria nessa 32ª jornada. Os jogadores celebraram o 20º campeonato portista com a multidão que acorreu ao hotel, enquanto José Mourinho prometia festa pela noite dentro.

Em 2017/18, o FC Porto foi campeão no primeiro ano de Sérgio Conceição como treinador e a equipa estava de novo no hotel, na véspera de defrontar o Feirense. Dessa vez, ambos os rivais vacilaram: o nulo no dérbi entre Sporting e Benfica, que partiam para a 33ª jornada ambos a cinco pontos da liderança, fechou a Liga. A festa fez-se de novo logo ali, rija e com um final atribulado, com um incêndio na casa das máquinas do hotel que levou a equipa a ter de mudar de alojamento.

«Em campo tem outro sabor»

O primeiro potencial «match-point» também será diferido, com o FC Porto a entrar primeiro em campo. Caso a hipótese continue em aberto depois do jogo em Braga, marcado para as 18h, o dragão terá de esperar pelo fim do Boavista-Sporting, que tem início às 20h30. Não estará propriamente sentado no sofá, mas também não festejará logo que o jogo termine. Tem o mesmo valor, claro, mas viver o momento da consagração logo que soa o apito final de um jogo sabe melhor, diz Jaime Pacheco, que como jogador foi campeão em campo com o FC Porto, em 1988, e como treinador festejou um título de campeão nacional ao cair do pano em 2001, no banco do Boavista. «Nós dizemos sempre que quando é para ganhar, antes ou depois é sempre importante. Mas naturalmente tem outro sabor ganhar dentro do campo. Acabar o jogo e sentir naquele último segundo, quando o árbitro apita, tem outro sabor», diz Jaime Pacheco ao Maisfutebol.

O que vale também, acrescenta, do ponto de vista do adepto. Não há nada como uma decisão simultânea em vários campos. «Era bom que os jogos fossem à mesma hora. Mesmo para quem acompanha o jogo tem outro impacto, a emoção é outra. Estar à espera que o jogo termine, comparar os resultados… Gostava que isso tivesse acontecido, até porque dá mais graça ao campeonato. É mais giro.»

Na análise aos dois jogos que poderão ser decisivos, Pacheco acha de resto mais provável que a decisão fique adiada nesta 31ª jornada. «Acho que o Porto, com mais ou menos dificuldade, acaba por ganhar em Braga. O Braga também está numa situação mais tranquila, também ficou um bocado abalado com a eliminatória com o Glasgow Rangers, não estou a ver alguma equipa que possa quebrar a invencibilidade do Porto», observa. Mas o ainda campeão Sporting, acredita, não vacilará no Bessa: «Uma equipa como o Sporting ressuscita rapidamente. O Sporting tem como objetivo salvar a época, garantir pelo menos o segundo lugar e o acesso à Champions, o que faz com que os jogadores apelem ao brio e à qualidade que têm. Acho que o Porto ganha em Braga e o Sporting vai ganhar no Bessa. São mais fortes, estão melhores, e têm objetivos ainda a definir.»

A história recente da Liga portuguesa tem reviravoltas de sobra para contar, mas os nove pontos de vantagem depois da derrota do Sporting no dérbi com o Benfica a quatro jornadas do fim legitimam toda a perceção de que é uma questão de tempo até o FC Porto celebrar o 30º título de campeão nacional. Resta saber se será o segundo mais precoce da história do clube, atrás apenas daquele que conseguiram Jesualdo Ferreira, em 2007/08, e André Villas-Boas, em 2010/11, ambos campeões a cinco jornadas do fim.

Mais dia menos dia, com tranquilidade

Seja quando for, chegará, acredita Jaime Pacheco. «Há uma série de valores na construção da equipa de futebol que se conjugam e depois uma sequência de jogos e resultados que embalaram o FC Porto de tal forma que a equipa está imparável, está na senda de títulos. E quando as coisas estão nesse caminho acaba por ter mais sorte, mais felicidade, os adversários contra o FC Porto têm mais azar… É uma dinâmica. É muito difícil parar agora uma equipa desta natureza. São 50 e tal jogos sem perder. Tudo isso conta no espirito dos jogadores do FC Porto pela positiva e tem sempre um pequeno senão de negativismo nos adversários», observa. E, acrescenta, será um campeão de corpo inteiro: «O FC Porto este ano joga bem, tem de facto muitas soluções, tem uma panóplia de esquemas táticos que o treinador com os mesmos jogadores pode alterar em função do jogo, do adversários, das ideias. É muito enriquecedor, muito positivo. Não foi o Sporting que perdeu o campeonato, foi o FC Porto que o ganhou.»

Não há lugar a intranquilidade numa equipa quando chega a esta altura da época com essa dinâmica e com a vantagem que este FC Porto tem. Nestas circunstâncias, a preparação para uma jornada decisiva não tem a mesma tensão de uma decisão do título na última jornada. Mas há sempre um trabalho a fazer na abordagem ao jogo seguinte, para manter a concentração, nota Pacheco. «É óbvio que o treinador do FC Porto vai estar atento às emoções dos jogadores, dar a perceber aos jogadores que nada está ganho. Nestes momentos de euforia, mais ainda depois de uma vitória sobre o Sporting que permite à equipa disputar a final da Taça de Portugal, não é tanto os treinos mas mais os aspetos emocionais que o treinador tem de gerir», observa o técnico: «Preparar emocionalmente os jogadores para irem com a motivação e a concentração ideal. Os jogadores também sabem, e isto também tem uma motivação especial, com a possibilidade de poderem ser campeões.»