Aos 32 anos, Tomás Amaral aceitou o desafio de se tornar diretor-desportivo do Spartak Moscovo, o clube com mais adeptos na Rússia, mas que só venceu um campeonato nos últimos 20 anos e precisava de uma reestruturação profunda.

Para trás ficaram quatro anos e meio no scouting do Benfica, departamento liderado até ao verão passado por Pedro Ferreira (hoje head of recruitment do Nottingham Forest de NES, atual terceiro classificado da Premier League) e do qual foi um dos primeiros membros integrantes após uma profunda reestruturação em 2019.

Esses anos e, antes, outros cinco durante os quais esteve ao serviço de três clubes espanhóis, também na área do scouting, deram-lhe a bagagem de que precisava para se sentir preparado para assumir um dos cargos mais complexos e desafiantes do futebol profissionais.

Nesta segunda parte de uma longa entrevista ao Maisfutebol, Tomás Amaral recorda a chegada ao Benfica, os anos vividos no clube e reflete sobre a importância de um scout ver num jogador mais do que aquilo que está à vista de todos para reduzir ao máximo a margem de erro.

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Maisfutebol - Chega ao Benfica em 2019. Como surgiu essa oportunidade?

Tomás Amaral - O departamento de scouting estava a ser reformulado pelo Pedro Ferreira e com a supervisão do Tiago Pinto e do agora presidente Rui Costa. Sou contactado pelo Pedro, que me perguntou se eu tinha interesse em integrar essa reformulação. Eu estava a adorar a experiência no Valladolid, mas era impossível recusar, por tudo aquilo que o Benfica representava não só no futebol, mas também no scouting. Era eu, o Mauro Mouralinho – que já estava com o Pedro – o Gonçalo Bexiga, o Joaquim Pinto e o André Oliveira. Foram anos fantásticos, porque criámos um grupo muito forte. Diferentes personalidades, mas sabíamos todos respeitar a forma de estar de cada um e tínhamos imensas discussões sobre a área. Acima de tudo, éramos e somos todos muito apaixonados pela área e isso uniu-nos e fez-nos crescer enquanto equipa.

E o projeto que o Pedro Ferreira lhe apresentou?

Fez-me todo o sentido. Ele tem um mérito incrível pela máquina que criou no departamento de scouting do Benfica. Não que o departamento não fosse bom, porque já era e há provas disso, mas a forma como foi reestruturado, como tudo estava organizado e como era todo o processo, é uma máquina que o Pedro constrói e todo o mérito é dele e do Tiago Pinto e do Rui Costa.

O departamento de scouting do Benfica funcionava de forma muito diferente dos outros que integrou anteriormente?

Para mim, funcionava. Porque a partir do momento em que fui para o Benfica, passei a estar diariamente no Seixal. E isso abriu muito mais discussão, mais debate…

E acredito que deixou de ter aquele trabalho mais solitário, até porque nos clubes espanhóis estava a viver em Portugal.

E que muitas vezes não é positivo. Se calhar, dois ou três anos é OK, mas depois disso estar dois ou três anos fechado em casa e a trabalhar muito tempo sozinho pode levar a alguma estagnação. Porque não existe troca de ideias e debate.

Sentia falta disso?

Muita falta. E o scouting tem muito isso. Essa troca de ideias, essa discussão saudável de eu gostar mais deste e do meu colega gostar mais de outro. O porquê, o ir ver todos juntos e o que cada um está a ver, muitas vezes até sobre o mesmo jogador. É nesses detalhes, de ver com a ajuda de alguém uma coisa que nos estava a escapar, que muitas vezes crescemos. E esses detalhes não têm só a ver com a parte futebolística em si.

Como assim?

Traços de personalidade, por exemplo. Cada vez mais acredito que a personalidade marca a diferença entre o jogador bom que chega ao nível alto e o jogador bom que nunca chega a esse patamar.

O trabalho de scouting é mais do que ver simplesmente se um jogador tem ou não qualidade e se há transfer disso para a ideia de jogo de uma equipa? O scout tem, cada vez mais, de fazer uma avaliação de tudo o rodeia, como o ambiente familiar e a estabilidade emocional?

Tem de ser e agora que tive a experiência de ser diretor-desportivo valorizo ainda mais isso. Quando se é scout há vários anos e já se viu muitos jogos e jogadores, é fácil identificar-se quem são os bons e os maus. Depois, a diferença é o reconhecimento dos traços de personalidade que vão permitir que os jogadores cheguem ao mais alto nível e tenham rendimento e dos traços de personalidade daqueles que, apesar de todo o talento que têm, não vão conseguir chegar a esse alto nível. Posso dar um exemplo…

Força.

Num mercado como o brasileiro – só para citar um mercado com muitos jogadores – todos os anos aparecem quatro ou cinco miúdos por posição que têm todos um talento incrível, mas nem todos chegam lá acima. E, muitas vezes, o que diferencia o que mostra o potencial que tinha é a personalidade. E, além da personalidade, há o contexto. O enquadramento do jogador no clube para onde vai, o enquadramento com o treinador e dentro do balneário marca muito o jogador. O facto de ter sucesso ou insucesso num clube, não quer dizer que não tenha sucesso noutro.

Essa capacidade de conseguir analisar um jogador de uma forma mais, diria, holística é o que distingue o bom scout de um excelente scout?

Sim. E perceber o enquadramento do jogador. Ele pode ser muito bom, mas não se enquadrar no contexto do clube onde trabalhamos. Seja pela ideia ou pela dimensão do clube. Por exemplo, quando eu estava no Eibar o treinador da equipa era o José Luis Mendilibar, que queria pressão alta a campo inteiro e muitas vezes com pressão homem a homem. Os centrais tinham de ser, além de fortes fisicamente para ganharem os duelos individuais, rápidos para recuperar 40 ou 50 metros que tinham nas costas. Eu podia ver um central que fosse muito bom e que tivesse muita qualidade, mas que depois não tinha essa velocidade para recuperar. Poderia ser muito bom em várias vertentes, ter um nível ou um potencial muito alto, mas não se encaixava ali. Não seria um bom scout estar a indicar esse jogador para o Eibar, sabendo do perfil de jogador pretendido e do modelo de jogo da equipa.

É mais difícil ser-se infalível quanto há tanta coisa, que não tem a ver com a qualidade técnica, que influencia o rendimento de um jogador…

É muito mais do que a vertente técnica, de entendimento do jogo ou a questão física. É algo muito global. E a personalidade – como é que ele se vai encaixar num plantel com personalidades de um determinado tipo – conta muito.

Como é que fazia para conhecer esse outro lado de um jogador?

Há traços de personalidade que se consegue notar. Num aquecimento, na interação com os colegas, adversários, árbitros e treinadores. E, depois, há informações, sejam elas retiradas de redes sociais, de notícias – para perceber alguma entrevista que um jogador possa ter dado, o que disse e não disse – e depois há as informações que recolhemos a partir do momento em que criamos uma rede de contactos com pessoas que conhecem o jogador, como ex-treinadores ou um ex-analista que trabalhou naquele clube quando estava lá aquele jogador em concreto. É muito importante ter esse conhecimento. A margem de erro existe sempre, até pelo momento do jogador. A própria personalidade do jogador pode evoluir ao longo do tempo ou ele pode tido experiências de vida que o moldaram e nós estamos sujeitos a isso.

Como assim?

Podemos encontrar um jogador que é um homem de família, com filhos e que parece o protótipo perfeito da pessoa estável. Contratamos o jogador e passado um mês ele chateia-se com a mulher divorcia-se e há uma guerra pela guarda dos filhos. Isso pode mudar a cabeça de um jogador. Nós podemos até ter feito todo o nosso trabalho de forma perfeita, mas passado um mês acontece algo que lhe retira o foco e muda as perspetivas de vida.

Como funcionava o departamento de scouting do Benfica ao nível de abrangência de mercado? Uns elementos eram responsáveis por mercados específicos?

Sim. Tínhamos mercados pelos quais cada um de nós era responsável individualmente pela identificação dos jogadores que tinham nível para jogar no Benfica, mas também pelos que não tinham nível, para estarmos preparados para dar uma resposta rápida à direção quando assim era necessário.

Quando aparecia, por exemplo, algum agente a oferecer um jogador?

Algum agente ou o próprio treinador a pedir e nós mostrávamos que já conhecíamos bem o jogador. Depois, existia algo que era essencial e o Pedro sempre tocou muito nesta tecla e nós identificávamo-nos com isso: o trabalho era coletivo. Nunca houve ‘o Tomás descobriu o jogador A que foi para o Benfica e que era bom ou mau.’

Até porque haveria relatórios de diferentes scouts sobre o mesmo jogador.

Exatamente. Se houvesse um jogador que eu identificasse no mercado pelo qual eu era responsável e deixasse uma nota para contratar, imediatamente ou o Pedro via, ou o Gonçalo via, ou o Joaquim via, o Mauro via ou víamos todos em conjunto. Vinha uma segunda opinião, uma terceira e apenas quando muitos de nós estávamos seguros de que o jogador era para contratar, é que ele entrava na equipa sombra para ser apresentado à direção e ao treinador.

Qual era o mercado pelo qual o Tomás era responsável?

Tive vários, até porque em todas as épocas nós mudávamos os mercados. E isso era muito positivo, porque permitia-nos ter um conhecimento mais global daquilo que é o mercado. E esse conhecimento permitia-nos comparar um jogador que era da primeira liga espanhola com outro da primeira liga belga e perceber qual dos dois faria mais sentido contratar para um clube como o Benfica, quer pela qualidade, quer pela relação qualidade/preço.

Sentia-se particularmente à vontade com algum mercado em concreto? O espanhol, por exemplo, pela ligação de várias épocas a clubes espanhóis?

Sentia-me muito à vontade com esse mercado. E é um mercado que me fascina.

E sentia outro tipo de responsabilidade nos casos de jogadores que eram identificados em Espanha, pelo conhecimento mais abrangente que tinha desse mercado?

Não. Sentia responsabilidade em tudo o que era o meu trabalho e a minha responsabilidade. Acho que é importante que qualquer scout, que tenha responsabilidade sobre determinados mercados, sinta essa pressão. Como eu disse antes, a nossa responsabilidade não é só pelo jogador que se contrata, mas também pelo que não se deve contratar e a necessidade de darmos uma resposta rápida. Eu podia não gostar de um jogador, mas, pela experiência que eu já tinha, acreditava que ele tinha perfil ou características para que mais cedo ou mais tarde fosse oferecido. Ou porque já estava a ser muito falado ou porque tinha características muito valorizadas no futebol. Mas eu tinha de conhecer muito bem esse jogador e perceber se ele e o alarido à volta dele faziam sentido ou se, por outro lado, não fazia sentido. Às vezes há muita pressão mediática para a contratação de um jogador, mas ele não tem valor e temos de ser frios nessa análise e conhecê-lo bem para dizer a quem está acima, seja o chief-scout, o diretor-desportivo ou o presidente, que ele não faz sentido apesar dessa pressão mediática.

Existe essa tendência de os clubes irem atrás dessa pressão mediática e avançarem por um jogador que talvez até nem queiram tanto?

Sinceramente, não senti isso em nenhum clube pelo qual eu tenha passado. Mas, obviamente, quando há um jogador a ser falado para um rival, é normal que se pergunte quem é ele. Mas é nosso trabalho, enquanto departamento de scouting, conhecer o jogador e dizer: ‘Sim senhor, este jogador é bom e está na nossa equipa sombra’, ou dizer ‘não, eles estão a cometer um erro e nós não vamos andar atrás desse erro.’ E acontecem casos desses.

Falou há pouco de «equipa sombra». Defina equipa sombra, por favor.

É algo que nós criávamos enquanto equipa de scouting, sendo o Pedro o decisor final enquanto chefe. É composta por jogadores que identificamos com nível para o Benfica. Mas a equipa sombra era muito heterogénea. Ou seja, podíamos ter na posição 9, sete jogadores sem que eles tivessem de ser enquadrados no mesmo perfil. Eram jogadores aos quais reconhecíamos nível. Depois, dependendo daquilo que o clube sente que precisa e da especificidade do treinador, que gostava mais do avançado que jogava em apoio ou do que estava constantemente a fazer movimentos de profundidade, nós debatíamos entre nós e dizíamos à direção ou ao treinador que um determinado jogador era mais adequado.

(…)

Nós tínhamos a equipa sombra, que era heterogénea, e depois um segundo documento, que era o filtro da equipa sombra, que tinha dois jogadores por posição e que eram aqueles que nós achávamos que faziam sentido naquele momento, tendo em conta o treinador que tínhamos, o tipo de investimento que queríamos fazer, o perfil e a idade que queríamos. Se queríamos alguém não tão preparado, mas de potencial para aparecer a um ou dois anos, ou se queríamos um jogador que chegasse e tivesse rendimento imediato.

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