Vamos ao contexto. O Benfica enviava, anualmente, um olheiro à Copa de São Paulo, um torneio para jogadores jovens que se realizava no mês de janeiro, com equipas locais e estrangeiras. Em 1997 foi Toni, na altura diretor desportivo, a viajar para o Brasil e a assistir ao torneio.

«Lá vi o que todos viram. Um jogador que já tinha uma maturidade técnica e leitura de jogo que iriam fazer dele o grande jogador que foi mais tarde», explica, em conversa com o Maisfutebol.

O Benfica vivia um período de dificuldades financeiras e tentava descobrir talentos no Brasil. Toni lembra que antes de Deco, que veio com Caju, chegaram à Luz Lúcio Wagner e Marcos Alemão. O destino era o mesmo: Alverca.

«O Alverca deveria ter funcionado como espaço de evolução para os jogadores. Era essa a nossa ideia, mas quando íamos buscar alguém lá fora não era fácil convencê-lo a jogar num clube satélite. Viam isso como uma despromoção. A insatisfação do Deco começou aí», explica Toni.

Um aeroporto cheio à espera de...Paulo Nunes

Deco, de facto, nunca encarou bem a entrada direta no Alverca, quando pensava que vinha jogar para o Benfica. No seu livo, «O Preço da Glória», conta que quando saiu do aeroporto só via placas a indicar Alverca e percebeu logo o seu destino.

Toni conta, de resto, que Deco apanhou uma desilusão logo no aeroporto. «Estava lá muita gente mas era à espera do Paulo Nunes, que chegou no mesmo dia. Naquela altura era um jogador muito mais consagrado», recorda.

Apesar de tudo, Toni admite que o Benfica «não soube rentabilizar» o médio que viria a fazer história no F.C. Porto e Barcelona, entre outros. Deco saiu para o Salgueiros. Luís Carlos e Nandinho fizeram o caminho inverso.

«Venderam uma barra de ouro ao preço de uma barra de ferro. Já não estava lá, o António Simões saberá melhor explicar essa decisão [ndr. Maisfutebol tentou contactá-lo sem sucesso], mas o Deco chegou a dizer que ele era o único que o queria lá», frisa Toni.

«Pensei que estava ali o novo maestro do Benfica»

«A não contratação de Deco por parte do Sport Lisboa e Benfica foi um erro histórico para o meu clube». A frase pertence a António Simões e está no livro do, agora, ex-jogador. Toni corrobora: «Não é difícil admitir, depois do que o Deco conseguiu principalmente no período mais fulgurante, com F.C. Porto e Barcelona, que foi um erro histórico.»

Toni, que viu em Deco «o maestro» que o Benfica precisava desde que tinha perdido Rui Costa, elogia ainda a «visão de jogo» e a sublinha de novo a «capacidade técnica». «A alcunha que lhe deram, de Mágico, faz todo o sentido», sublinha.

Para o final deixa apenas a nota de que Deco terá jogado tempo de mais. «Os últimos anos não foram bons e saber sair é uma virtude. O que aconteceu agora não apaga tudo o que ele fez de bom mas desgasta-lhe um pouco mais a imagem», conclui.