«O futebol está chato. Cada vez mais chato». Pelo menos é o que acha Manuel Machado, antigo técnico do Arouca. O experiente treinador de 61 anos foi um dos convidados do primeiro dia da VI edição do Fórum de Treinador de Futebol e Futsal, que arrancou esta manhã em Gondomar e que se vai prolongar até ao fim da tarde de terça-feira.

Sentado à mesa estava também Miguel Leal, atual treinador do Boavista, que discorda da observação do professor, advogando que o desenvolvimento do futebol não torna necessariamente o jogo mais enfadonho.

«Considero que o jogo está diferente em muitas coisas: na competitividade, na intensidade. Talvez haja menor beleza artística do ponto de vista individual mas agora joga-se este jogo, por isso temos que trabalhar no contexto em que estamos inseridos», referiu.

Este debate inseriu-se na sessão que discutiu o Futebol de Rendimento e Alto Rendimento, com o objetivo de compreender a utilização e a evolução das estratégias de avaliação e controlo do treino e do jogo.

«Tanta ciência, tanto conhecimento, tanta capacidade e tantas ferramentas e o jogo cada vez menos atraente?» Foi desta forma que Manuel Machado deu o mote para o início da discussão com a plateia que enchia o Pavilhão Multiusos.

Desenvolvimento e mais conhecimento não significam maior qualidade do espetáculo

O treinador vimaranense confessou que por vezes sente saudades do futebol praticado há cerca de 30 anos, em contraste com o futebol «pobre e sem espetáculo» dos dias de hoje.

«Gosto da RTP Memória que de vez em quando passa um jogo de 1982 ou 1983. Em condições logísticas muito mais deficitárias, conseguiam criar um espetáculo desportivo muito mais interessante. Tudo isto sem as tais ferramentas de apoio que hoje temos», relembrou.

Mas afinal, pratica-se um futebol menos atraente do que há algumas décadas? A opinião dos dois treinadores é unânime.

«Por vezes o facto de o treinador ter tanto a pressão dos resultados, esquece-se do lado espetacular do jogo. O rendimento sobrepõe-se à beleza que tem que estar inerente ao futebol», atira Miguel Leal. O técnico do Boavista admite ainda que «o problema não está centrado no treinador», mas antes nas estruturas que estão por trás que nem sempre dão o suporte necessário ao treinador para evoluir a qualidade de jogo das equipas.

Por sua vez, Manuel Machado vai mais longe e afirma que houve um retrocesso daquilo que é o futebol praticado nos dias de hoje.

«O jogo perdeu espontaneidade. Antes era jogado em condições mais deficitárias, mas era muito mais atraente. Existem tantas ferramentas há disposição do futebol e o reflexo não aparece. Existe um retrocesso, o produto final hoje é mais pobre do que era há 20 ou 30 anos atrás», defendeu.

Fatores para um futebol menos espectacular

 

Vários são os fatores que contribuem para o empobrecimento do espetáculo dentro das quatro linhas. A pressão e a necessidade em atingir resultados o mais rapidamente possível, a impaciência por parte das estruturas dos clubes para com o trabalho das equipas técnicas, conduz a uma realidade ‘resultadista’ que obriga os treinadores a jogar o seu futuro semanalmente em função do desempenho da sua equipa. Esta conjugação de elementos origina uma degradação do espetáculo.

«É muito importante nós percebermos qual é a realidade em que estamos inseridos. Claro que podemos melhorar a qualidade de jogo. Defendo essa ideia, mas se os treinadores perdem um jogo e tem logo as malas à porta...», observou o ex-técnico do Moreirense.

Por seu turno, Manuel Machado, entre outros elementos, aponta para a formação para explicar um futebol menos atraente. Para o técnico assiste-se a uma «formatação» do jogador português, o que acaba por condicionar o seu desenvolvimento.

«O processo formativo está hoje muito mais condicionado do que estava há 30 anos, o que gera uma qualidade de movimentos geral muito mais pobre do que aquela com que se trabalhava antes. É uma questão passível de ser corrigida, utilizando metodologias diferenciada. Hoje em dia o jogador é produto de escola, não é produto de rua», concluiu.

Miguel Leal terminou a sua intervenção sobre o tema a admitir que é necessário «rever o trabalho da formação realizado pelos clubes» de forma a fazer evoluir o jogador, numa primeira fase do ponto de vista individual e, numa idade mais avançada, do ponto de vista coletivo.

Uma chamada de atenção por um futebol mais atraente por parte de quem está no terreno, a apelar à atenção dos clubes.