Michel Platini voltou a falar sem rodeios sobre o futebol e sobre a sua própria queda, numa extensa entrevista ao The Guardian, na qual acusa os bastidores da governação do jogo de o terem afastado do caminho para a presidência da FIFA.

Absolvido definitivamente pela justiça suíça no processo relacionado com um pagamento de 2011, o antigo líder da UEFA considera que foi vítima de uma decisão política e aponta o dedo a um sistema que, diz, «não queria mudanças».

«Acreditava que estava destinado a ser presidente da FIFA. Tudo aconteceu porque não queriam isso», afirmou Platini, hoje com 70 anos, descrevendo a suspensão que o afastou do futebol durante quase uma década como «uma grande injustiça». O francês garante nunca ter duvidado da sua inocência, mas admite o impacto pessoal e familiar de anos de suspeição pública.

Embora rejeite que Gianni Infantino tenha sido um dos responsáveis diretos pela sua queda, Platini considera que o atual presidente da FIFA beneficiou do contexto criado em 2015 e traça um retrato pouco abonatório do seu sucessor.

«Era um bom número dois, mas não é um bom número um. Gosta das pessoas ricas e poderosas. Desde a pandemia tornou-se mais autocrata e há hoje menos democracia na FIFA do que no tempo de Blatter», atirou.

As palavras de Platini surgem numa altura em que o jornal Le Monde revelou pormenores sobre a evolução da remuneração de Infantino, reforçando o contraste entre o discurso sobre valores e a realidade financeira do topo do futebol mundial.

Segundo documentos fiscais apresentados nos Estados Unidos, o presidente da FIFA custou ao organismo cerca de 5,27 milhões de euros em 2024, somando salário base, bónus e outros benefícios contratuais.

Em concreto, Infantino recebeu aproximadamente 2,5 milhões de euros de salário base, 1,6 milhões em bónus e mais de um milhão de euros em outras compensações, valores muito superiores aos registados no início do seu mandato, em 2016, quando o rendimento anual rondava 1,6 milhões de euros e sem prémios associados. Em oito anos, o custo anual do dirigente para a FIFA mais do que triplicou.

Platini, que defende uma maior presença da UEFA como contrapeso à FIFA e mais antigos jogadores nos órgãos de decisão, vê neste contexto um afastamento crescente do futebol «romântico» que diz ainda mobilizar milhões de adeptos.

«Hoje, muitos dirigentes tanto fariam futebol como basquetebol. É apenas um negócio», lamentou.

Sem intenção de regressar à linha da frente da administração, o antigo internacional francês admite apenas um papel de bastidores no futuro, mas garante que não desistirá de «lutar pela verdade».