O Benfica absorve, a dimensão social do clube é comparável à do Barcelona, para se ser profissional sem limites tem de se viver «à Benfica».

Desperto às 7 horas e às 8.15 horas chego ao estádio. Até ao início do treino tenho duas horas de tranquilidade absoluta para, no silêncio do meu gabinete, preparar com detalhe a sessão de trabalho que é especificada de acordo com a análise que, com os meus adjuntos, realizo deste microciclo no final da semana anterior. São duas horas de profícua solidão, mesclada com o sussurar das senhoras da limpeza e o ruído das esfregonas.

Antes do treino ainda tenho tempo para breve contacto com os meus observadores para uma perfeita identificação do adversário seguinte; com o responsável da relva para o bom estado do campo de treino e em relação com as condições meteorológicas previstas para o fim-de-semana; com os auxiliares de material de apoio no treino; com o doutor para a avaliação da situação clínica e a definição do plano para os lesionados e jogadores em fase de integração.

Sensivelmente duas horas de treino, segue-se a reunião para avaliação do mesmo. E depois outra com o responsável pela imprensa para definir o posterior encontro entre profissionais e comunicação social. Segue-se uma reunião com o director executivo da SAD e seu secretário para análise de múltiplos aspectos e finalmente um minutinho para telefonar para casa onde os meninos já estão a almoçar chegadinhos da escola.

A seguir cinco minutos de relax caminhando tranquilamente para o Colombo onde o nosso staff almoça e regresso ao estádio onde pela tarde me espera uma segunda sessão de treino ou algumas horas de gabinete. Entre o visionamento de cassetes, a elaboração do plano de desenvolvimento para o futebol jovem e a preparação da próxima época, a tarde voa. Antes de sair do estádio dou um salto aos andares superiores para o contacto com a interessada cúpula da SAD do SLB. Finalmente a rápida viagem para Setúbal, onde a minha mulher, a Matilde e o Zé Mário me esperam para jantar, e onde o amor de uma família feliz rejuvenesce.

É caso para dizer: quem corre por gosto não cansa. Ou, se preferirem, «um dia à Benfica».

P.S.-A experiência de estar do outro lado, o da Comunicação Social, foi, além de fascinante, enriquecedora. Observar, analisar, comentar, medir com ética a distância entre a critica construtiva e a ironia, estabelecer diálogos e receber os feedbacks dos leitores é algo de que terei saudades. E, seguramente, algo que um dia retomarei. Agradeço ao site a confiança e a oportunidade, agradeço aos leitores a honra de me considerarem uma opinião emergente, lamento que a nossa cultura ainda não aceite com naturalidade que um treinador no activo esteja também do outro lado. Mas obviamente que a evolução será no sentido de abolir ou pelo menos esbater as fronteiras entre os críticos e os criticados e a coabitação será algo real e salutar. Um dia regressarei!