Em 2010, Nimês Pina dizia ao Maisfutebol

Sabe onde é Myanmar, a antiga Birmânia? O português também não sabia. «Terminei a época no Sintrense e estive a treinar à experiência na Tailândia. Estava com outro avançado que foi para a Bélgica. Entretanto, ele recebeu um convite de Myanmar mas já tinha assinado pelo clube belga. Então, sugeriu o meu nome.»

Nimês Pina, que regressara a Portugal entretanto, recebeu o telefonema inesperado. «O empresário desse jogador ligou-me, precisavam de um avançado num clube de Myanmar e com urgência, o titular tinha-se lesionado. Lá fui eu e, três dias depois, estava a jogar.»

«Tinha ouvido falar da Birmânia mas não sabia que era Myanmar, quando ouvi o nome pela primeira vez. Viajei a pensar que iria encontrar algo parecido com a Tailândia, mas a diferença é enorme. Bangkok é uma capital de nível mundial, enquanto Rangum, para onde fui, é muito mais calma.»

O português passou três semanas num hotel. «O Zwekapin United colocou-me num hotel bom, depois fui para uma casa com mais três colegas. Não me posso queixar. Mas o maior impacto foi ver a profunda fé dos budistas.»

«Todos os jovens budistas têm de ir à escola, a um género de catequese, durante cerca de um mês. Lá, aprendem coisas que lhes vão servir para toda a vida.»

Nimês Pina habituou-se a crianças de cabeça rapada. «Os rapazes e as raparigas têm de rapar o cabelo, nesse período. Eles vestem-se de amarelo, elas de rosa, e andam descalços o dia todo. Vi-me rodeado por pequenos budas.»

«Fiquei espantado com a fé e a humildade dessas pessoas e a forma como aplicam isso no dia a dia. Aqui em Portugal, as crianças só querem IPads e Iphones, valores materiais, dinheiro. Não são valores humanos. Lá, é ao contrário», explica o português.

 

Dois clubes e o problema com estrangeiros

O jogador de 30 anos foi conhecendo a nova realidade. Começou no Zwekapin United e saiu para o Rakhapura United em abril.

«Quando o avançado do Zwekapin recuperou da lesão, mandaram-me embora. Então, fui para o Rakhapura. Tinha marcado um golo, no novo clube marquei sete. Pessoalmente, foi bom, mas a equipa acabou por descer.»

Como estrangeiro, viu-se envolvido numa discussão de longa data. «Em Myanmar há quem defenda um campeonato sem estrangeiros, mas o presidente da Federação não quer. Por outro lado, há quem queria mais estrangeiros.»

«Tinha contrato com o Rakhapura até 31 de agosto mas entretanto soube que o presidente não contava comigo. Quis vir-me embora mas fizeram-me esperar até 31 de agosto e assim, quando voltei a Portugal, o mercado já estava fechado», desabafa.

«Se fosse o Quaresma, também ficava em casa»

Nimês Pina é, nesta altura, um jogador desempregado. Não teme o futuro mas sabe que terá de batalhar para a sua subsistência. «Bem, se eu fosse como o Quaresma, também ficava em casa. Ele está desempregado mas não vai um clube qualquer. Quem me dera poder fazer o mesmo. Ia ao ginásio, vivia tranquilo e ia esperando.»

«Tenho de ver a realidade, o mundo é assim. Eu pensava que ia ganhar muito dinheiro, que jogava muito, mas afinal sou só mais um. Já estive um ano sem jogar e senti-me impotente. Jogadores como eu têm de pensar no futuro e, se não arranjar clube, começo a trabalhar, sem problema», admite.

As experiências fora de Portugal permitiram um bom encaixe financeiro mas não possibilitam uma reforma dourada. «A minha vida vai continuar no estrangeiro. Espero encontrar um clube. No futuro, terei de trabalhar e acho que será também fora de Portugal. Não tenho instrução, vai ter de ser. Vou juntar os meus trapinhos e logo vejo»

«O dinheiro que recebo hoje no futebol não me vai permitir ficar sem fazer nada até final da vida. Gostava de jogar em Portugal mas aqui nunca passei da terceira divisão. Não critico mas a minha vida vai continuar lá fora», remata Nimês Pina, com um discurso realista e desarmante.