DESTINO: 90's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 90's.

EMIL KOSTADINOV: FC Porto (1990 a 1994)

A conversa não arranca bem. Não teve nem a velocidade, muito menos a verticalidade, dos piques de Emil Kostadinov. Culpa do jornalista, erradamente informado. «Ah, liga-lhe e fala com ele em espanhol, o Kostadinov fala bem.»

Em espanhol, sim senhor. Vamos a isso.

Mas Emil não gosta. Tanto não gosta que nos despacha com um apressado, «tenho um jantar com os rapazes dos Sub21 da Bulgária».

Bem, o que tem de ser, tem mesmo de ser. Falamos ao coração do búlgaro, campeão nacional três vezes pelo FC Porto, vencedor de duas Taças de Portugal, quatro Supertaças, senhor com 168 jogos oficiais e 61 golos marcados de azul e branco.

Emil, como se pode recusar um regresso a uma relação assim?

Para os mais jovens, vale a pena garantir que Emil Kostadinov foi um dos melhores avançados estrangeiros a passar pela liga portuguesa nos anos 90. Um relâmpago furioso, com uma tendência obsessivo-compulsiva em fazer golos ao Benfica e ao Sporting. Principalmente na Luz e em Alvalade.

Um artista da melhor geração búlgara de sempre, que se expressa num Português quase perfeito, 24 anos depois de abandonar o nosso país. Não falem é com ele em espanhol.

OS NÚMEROS DE KOSTADINOV NA LIGA PORTUGUESA:

1990/91 – FC Porto, 33 jogos (8 golos) - 2º lugar

1991/92 – FC Porto, 29 jogos (10 golos) - Campeão

1992/93 – FC Porto, 31 jogos (9 golos) - Campeão

1993/94 – FC Porto, 22 jogos (16 golos) - 2º lugar

1994/95 – FC Porto, 2 jogos (1 golo) - Campeão

TOTAL: 117 jogos (44 golos)

Emil Kostadinov num jogo em White Hart Lane, 1991 (REUTERS)

Maisfutebol – Emil, estamos a ligar de Portugal. É uma boa altura para falarmos?

Emil Kostadinov – Olá, hoje está difícil. Estou com a seleção de Sub21 da Bulgária na Eslovénia. Daqui a pouco temos o jantar oficial. Pode ser amanhã, amigo?

MF – São só 20 minutos. Queremos saber o que é feito de si e recordar os dias no FC Porto.

EK – Está a falar espanhol porquê, c……? (risos) Se é sobre o Porto eu arranjo até meia hora. Vamos a isso então. Por onde começamos?

MF – Pelo presente. Está a trabalhar na federação búlgara?

EK – O meu bom amigo Mihaylov, que jogou no Belenenses [57 jogos entre 1989 e 1991], é o presidente da federação e desafiou-me. Sou diretor-técnico há oito anos e queremos construir uma equipa tão boa como a que esteve no Mundial de 1994, lembra-se? Ficámos no quarto lugar, tínhamos o Stoichkov, o Penev, o Iordanov, o Letchkov… o Letchkov até trabalha connosco na federação. E pronto, acompanho quase sempre os Sub21, porque sentimos que esta é uma geração especial.

MF – É impossível não falar sobre o seu famoso golo à França. Colocou a Bulgária no Mundial e os franceses em lágrimas.

EK – Coitado do Lama [guarda-redes francês]. Eles ficaram em choque, todos de mãos na cabeça no fim do jogo. Mas o passe do Penev é fantástico. Eu era mais rápido do que os defesas franceses, a bola estava a saltar à minha frente e o remate foi espetacular, não foi? A festa que tivemos ao voltar a Sófia. Nessa noite fui atirado ao ar centenas de vezes. Havia gente a disparar para o ar. Ainda bem que bebemos uns copos, assim não tivemos medo (risos). Costumo dizer que entrei para sempre na vida e na história do futebol francês.

O famoso golo de Kostadinov no Parque dos Príncipes:

MF – Prefere o golo marcado à França ou os dois golos marcados pelo FC Porto na Luz?

EK – Eh pá, isso é muito difícil escolher…lembro-me que quando entrava na Luz era logo assobiado, acho que os benfiquistas me detestavam. Marquei num 2-2 [2 de dezembro de 1990] e numa vitória espetacular, decidida muito perto do fim [3-2 para o Porto, 22 de março de 1992]. Mas o golo em Paris levou o meu país ao Mundial. Escolho os três. Foram três momentos espetaculares da minha carreira. Mas atenção, eu até marquei mais vezes em Alvalade, ao Sporting.

MF – Quantos foram em Alvalade?

EK – Se bem me lembro, quatro. [resposta certa]. Eu adorava esses jogos, havia sempre muito espaço nas costas dos defesas e eu era mais rápido do que todos eles. Tinha colegas ótimos nos passes longos e depois até era fácil. Era só ter calma e escolher o lado para rematar.

Um dos golos de Kostadinov em Alvalade (1m00s):

MF – Nesses anos, o Benfica e o Sporting até tinham centrais de grande categoria.

EK – Todos bons. Os melhores? O Mozer era horrível dentro do relvado, mau como as cobras. Mas eu também era maluco e ele comigo não abusava. O Ricardo Gomes era um grande jogador também. Esses dois eram os melhores, acho eu.

MF – Chegou ao FC Porto com 23 anos, em 1990. Conte-nos como aconteceu tudo.

EK – No CSKA eu jogava com o Stoichkov e o Penev no ataque. Que luxo (risos). Nesse verão, o meu empresário, o senhor Minguella, apresentou-me três ofertas: uma do FC Porto, uma do Espanhol e uma de um clube francês. Não me lembro qual. Foi fácil escolher, o FC Porto já era um dos grandes da Europa. Assinei o contrato num restaurante em Pedras Rubras, perto do aeroporto. Foi aí que conheci o senhor Pinto da Costa. Eu estava muito nervoso, a caneta até tremia. Ele disse-me que tinha perdido o Rui Águas, para o Benfica, e que os adeptos exigiam um nome forte como o meu para o lugar dele. 

MF – É verdade que o Domingos, com quem fez dupla de ataque, se tornou o seu melhor amigo?

EK – Eh, grande Domingos, mantemos contacto até hoje. O segredo para a nossa dupla era mesmo isso, a grande amizade que tínhamos. Gostei dele mal o conheci. Depois dos treinos chateava-o sempre, obrigava-o a ir comigo beber um chá ou um cafezinho (risos), lá perto das Antas. Ele adorava chá, era impressionante. O gajo estava sempre a gozar com a minha roupa. Eu na altura gostava de comprar coisas de marca, coisas caras.

MF – Foi o avançado com quem melhor se entendeu no campo?

EK – Sim, o Domingos foi o colega mais esperto com quem joguei, foi o tipo mais inteligente que conheci. Ele às vezes ficava no banco de suplentes e eu não gostava nada. Ele era excelente mesmo. Tinha de estar obrigatoriamente na equipa inicial. Foi fantástico tê-lo ao meu lado ao longo daquelas temporadas.

MF - …

EK – Ah, eu já lhe disse que o quero trazer para selecionador da Bulgária (risos). Ele diz que não se mete nisso. Grande Domingos, pá, um craque.

Kostadinov contra Babayaro (Nigéria) no Mundial de 1998 (REUTERS)

MF – Além do Domingos, quem eram os seus melhores amigos?

EK – O Petar Mihtarski, meu compatriota. Infelizmente não jogou muitas vezes. O Vítor Baía era um tipo impecável. E o Mlynarczyck, que já só apanhei como treinador dos guarda-redes, no meu último ano. Falávamos muito, por sermos do leste europeu.

MF – É verdade que o Mly fumava nos intervalos dos jogos?

EK – (risos) Isso foi antes de eu chegar, quando ele era guarda-redes. A malta dizia que ele era louco por tabaco e coca-cola. Depois deixou-se disso.

MF – O ambiente era descontraído ou a disciplina no FC Porto era apertada?

EK – Nos treinos e jogos era duro, muito duro. Basta dizer que eu fui treinado pelo Artur Jorge e pelo Carlos Alberto Silva. Não havia cá sorrisos com eles. Quando entravam no balneário nem uma mosca se ouvia. Mas entre os jogadores não faltava brincadeira.

MF – Ora conte-nos aí uma dessas brincadeiras de balneário.

EK – Eles adoravam gozar com a minha roupa. Os meus casaquinhos, os meus sapatos. Eu bem lhes dizia que aquilo não era para todos (risos). Certo dia cheguei ao meu lugar e tinha as minhas calças de dez contos todas rasgadas. Depois percebi que não eram as minhas. Aqueles malucos tinham arranjado umas calças baratas, rasgaram-nas e puseram-nas por baixo da minha roupa para me assustarem.

Combinação Kostadinov-Domingos e golo na Luz (1m00s):

MF – Ainda foi treinado pelo Bobby Robson.

EK – E pelo senhor Ivic, antes de eu sair para o Deportivo. O tempo passa a correr, já morreram os dois. E o Carlos Alberto Silva também. Uma pena, eram homens bons. Mas com quem mais sofri foi com o Artur Jorge (risos).

MF – Porquê?

EK – Passei muitos jogos no banco, até agarrar o lugar. Só depois de marcar dois golos ao Dínamo Bucareste [7 de novembro de 1990] é que não voltei a sair da equipa. Acho que a primeira vez que o Artur Jorge me deu um abraço foi nessa noite. Pensei logo: ‘bem, se o homem me deu um abraço então é porque fiz mesmo as coisas bem’. Não era fácil ouvir um elogio dele.

MF – E voltar ao FC Porto, nunca quis?

EK – Quando saí para o Deportivo senti que as pessoas da direção não ficaram contentes. Forcei um bocadinho o negócio. Tinha 27 anos, vinha de um grande Mundial e achei que era o momento certo. Fiz mal. Nunca mais atingi o meu melhor nível. Nem em Espanha, nem no Bayern Munique. Mando um grande abraço aos portistas, gostava de ter ficado mais anos. Viva o Porto, em bom português! Você falou em espanhol no início. Diga-me lá: porquê?

FC Porto-Dínamo Bucareste, jogo decisivo para Kostadinov:

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