Em 2004 Renato Margaça tinha 19 anos, jogava no Alverca e estava na órbita das seleções jovens de Portugal. «Joguei e defrontei vários grandes jogadores da atualidade, também na seleção de Lisboa, o Cristiano Ronaldo, Nani, Moutinho, o Miguel Lopes.» Apanhado no processo que levou à extinção do futebol profissional do clube ribatejano, perdeu horizonte em Portugal e descobriu um futuro noutro país. Treze anos depois é internacional pelo Chipre. Um percurso invulgar que o médio, também lateral-esquerdo e que aliás já jogou, diz, «em todas as posições», conta ao Maisfutebol no dia a seguir à estreia com a camisola da seleção que adotou. Ou que o adotou.

O presente de Margaça é o Chipre. Na quarta-feira entrou em campo aos 57 minutos no particular com o Azerbaijão, com o jogo empatado a um golo. Entrou para o meio-campo com o número 24 nas costas, bateu o livre na origem do segundo golo e esteve na jogada do terceiro, que completou a reviravolta na vitória do Chipre por 3-1.

«A estreia foi fantástica. Foi um «flashback» de todos os momentos da minha vida e da minha carreira», entusiasma-se Renato: «Cheguei aqui para uma equipa pequena, muito jovem, para tentar a oportunidade que não tive em Portugal. Gradualmente fui evoluindo, houve um ano que fui eleito o melhor defesa-esquerdo do campeonato. Foram todos esses momentos que me vieram à cabeça, os sacrifícios que tive de passar, deixar a família e os amigos para perseguir o meu sonho. Chegar à seleção é sempre um sonho, não importa se não é no país onde se nasceu. Foi o país que me acolheu tão bem que me sinto um deles.»

Renato deixou muito para trás. Nascido na Covilhã, cresceu como jogador no Alverca e foi com idade de júnior que foi chamado por várias vezes às seleções nacionais. «Fui internacional sub-18 e sub-19, cheguei a fazer 11 jogos pelas seleções portuguesas.» Chegou com 19 anos à equipa principal, então na II Liga.

«Mas na passagem de júnior para sénior as coisas mudaram. O meu segundo ano no Alverca foi o ano em que o clube fechou as portas. Joguei com muitos que conseguiram chegar ao topo. Eu não consegui.» Porquê? É difícil encontrar uma só explicação. «São tantas razões... Quando estava no Alverca estive para me transferir para o Sevilha. Acabei por não ir.»

«Quando o Alverca acabou, acabei por não jogar muito nesse ano. E eu quis jogar e fui para a II B. Dali não é fácil ir para uma I Liga. Agora está diferente, os clubes da Liga, pelo menos os médios, já olham mais para a prata da casa, têm noção que há jogadores nas divisões inferiores com muita qualidade», prossegue, recordando um percurso que, depois do Alverca, passou por Torreense e Mafra.

«Surgiu a possibilidade de ir para o Chipre, através de um ex-colega, o Rui Junior, que já estava lá. Ele falou ao treinador, que veio ver-me, e agarrei a oportunidade com unhas e dentes. Em Portugal, na II Divisão B, a situação não é muito boa. Estava com 22 anos, decidir arriscar.»

O DOXA foi o seu primeiro clube no Chipre. Ao fim de duas épocas seguiu-se o AEK Larnaca e, desde 2011, o Omonia. Renato construiu a vida no Chipre. Já se desenvencilha em grego. «Já entendo, já falo grego nas conferências de imprensa. Não é uma língua fácil, vou-lhe dizer. Mas já consigo falar.»

A sua esposa é cipriota, é lá que pensa ficar quando terminar a carreira. «Penso fazer a vida aqui e ficar por aqui. Para continuar a trabalhar no futebol também penso que será mais fácil aqui. O que quero é ficar ligado ao futebol.  Vou começar a tirar o curso de treinador, logo se verá o que pode surgir.»

Neste cenário viu como lógico o passo para a naturalização e para completar o ciclo, jogar por outro país.

«Já estou aqui há quase nove anos e surgiu a possibilidade de pedir a naturalização. Felizmente terminou o processo e agora fui convocado. Foi uma decisão minha também, tinha interesse em jogar pela seleção. Estou aqui há bastantes anos, o Chipre deu-me oportunidade de jogar na I Divisão, de me sentir jogador. Quis também agradecer e dar algo em troca», explica: «Aqui no Chipre fui progredindo na carreira de forma natural, as pessoas também me deram grande confiança. Este passo acontece sabendo que, obviamente, não tinha possibilidades na seleção nacional, mas mais devido ao carinho que têm aqui por mim.»

Foi uma mudança bem aceite no Chipre, diz: «O processo foi muito pacífico porque graças a Deus consegui construir aqui durante estes nove anos uma carreira muito estável e respeitada. As pessoas apreciam a minha forma de estar e de jogar.»

As ambições do Chipre são limitadas, admite Margaça, que poderá estrear-se em jogos oficiais neste sábado, quando o Chipre receber a Estónia para a quinta jornada do Grupo H, onde soma para já três pontos, conquistados na vitória sobre Gibraltar. Um grupo liderado pela Bélgica, com 12 pontos, seguida da Grécia. Que se prepara aliás para estrear outro jogador de origem portuguesa, Zeca.

Mas o novo internacional cipriota diz que a equipa está a evoluir e que as alterações previstas no acesso às grandes competições, como o Mundial a 48 equipas ou a Liga das Nações, que poderá dar acesso à fase final do Europeu, vêm dar novas hipóteses a seleções como o Chipre. «A seleção está um pouco melhor, também por causa da mudança de alguns clubes, que por motivos económicos são obrigados a dar oportunidade aos jovens jogadores cipriotas», observa: «Creio que com as mudanças que devem acontecer nas qualificações poderá haver mais oportunidades para as seleções teoricamente mais fracas. Seria bom para o futebol cipriota. «É um país de um milhão de habitantes, tem obviamente limitações. Mas quem sabe, podemos ter as nossas possibilidades», diz, ele que reconhece as dificuldades do futebol cipriota, mas defende que tem lá qualidade: «Não é tão fraco como se pensa.»

No horizonte de Margaça pode vr a estar um jogo frente a Portugal. Será obviamente especial, diz. «Nunca vou deixar de ser português, mas a partir do momento em que visto uma camisola visto-a de corpo e alma. Vou dar o máximo para o Chipre ganhar. Vou querer sempre que o Chipre ganhe. Mas claro que vai ser muito especial. Já houve aqui um Chipre-Portugal (na qualificação para o Euro 2012), tive oportunidade de assistir e no fim fiquei à espera de ex-colegas, tive oportunidade de conviver com muitos deles. Até desejava defrontar Portugal para ter oportunidade de voltar a ver vários amigos que atingiram um nível muito alto.»