Lado B é uma rubrica que apresenta a história de jogadores de futebol desde a infância até ao profissionalismo, com especial foco em episódios de superação, de desafio de probabilidades. Descubra esses percursos árduos, com regularidade, no Maisfutebol:

Charlie Austin é um dos melhores marcadores da Premier League. O avançado inglês tem nesta altura 15 golos, mantendo a perseguição a Sergio Aguero, Harry Kane e Diego Costa. O jogador dos Queens Park Rangers é ainda o segundo melhor inglês, logo atrás da sensação do Tottenham (Kane).

A sua vida mudou em poucos anos. No início de 2015 foi eleito como o jogador do mês no principal campeonato de Inglaterra. Porém, Austin não esquece as dificuldades sentidas nos primeiros anos de carreira, quando o futebol era o escape para um dia a dia nas obras.

O goleador dos Queens Park Rangers cresceu a trabalhar na firma do pai, assentando tijolos durante largas horas.

A carreira profissional parecia longe do horizonte. Charlie Austin deixara de acreditar aos 15 anos, quando foi dispensado das camadas jovens do Reading por ser demasiado baixo. «Nessa altura, pensei que mais valia ter passado o tempo a jogar com os meus colegas.»

«Não era infeliz, de qualquer forma. Comecei a trabalhar e recebia a cada sexta-feira. Aos sábados, jogava futebol. Saía ao sábado à noite e no domingo ficava a ver jogos. Na segunda-feira, voltava novamente a trabalhar.»

Os anos seguintes foram passados nessa lógica. Passou por alguns clubes amadores e começou a adaptar-se à realidade de um futuro no mundo das construções.

«Lembro-me de ter 17 anos e estar a trabalhar numa obra em Overton. Às duas da tarde estava todo partido, parecia que as minhas costas eram feitas de vidro. Não me conseguia dobrar e estava coberto de lama. Se alguma vez me chatear com o futebol, vou recordar esse dia para perceber que agora tenho uma vida de sonho.»

A sorte começou a mudar quando a família foi viver para Bournemouth, em 2008. O avançado vestiu a camisola do modesto Poole Town, do nono escalão do futebol inglês, e começou a marcar golos como se não houvesse amanhã.

«Não é fácil acordar às 6 da manhã, ainda de noite, e entrar numa carrinha com mais 10 rapazes para ir trabalhar numa obra enlameada, sobretudo no Inverno, até regressar a casa às 17h30 ou 18 horas. Para jogar futebol, conduzia a minha carrinha azul de Basingstoke até Bournemouth, pegava no saco e ia para o estádio. O meu equipamento ia sempre na mala da carrinha, coberto de cimento.»

Charlie Austin jogava nesta altura frente a 88 adeptos mas dava nas vistas com a camisola do Poole Town. A certa altura, foi convidado para um período de experiência no AFC Bournemouth mas a transferência caiu por terra já que o clube estava impedido de contratar jogadores.

O avançado pensou que era o seu fim. Porém, dias mais tarde, o treinador do Swindon Town foi observá-lo.

«Não sei o que ele esperava ver num jogo do Poole Towen, nem acho que ele soubesse que eu tive a trabalhar no dia do jogo. Assentei tijolos até às 16h30, conduzi durante uma hora, cheguei ao jogo e marquei dois golos na primeira parte. Ele foi-se embora ao intervalo.»

45 minutos bastaram para convencer Danny Wilson. Austin assinou pelo Swindon para a temporada seguinte. Chegava finalmente ao nível profissional.

O goleador inglês passou duas épocas no Swindon Town e outras tantas no Burnley. Em 2013, assinou pelos Queens Park Rangers e contribuiu para a subida à Premier League. Agora, com 25 anos, demonstra a sua qualidade no escalão principal. São 15 golos em 27 jogos sem esquecer de onde veio: em 2009, ainda assentava tijolos.