Rui Miguel Tovar está no Maisfutebol com a rubrica LOAD " " ENTER. Para ler todas as semanas e saborear conversas por vezes improváveis com as principais figuras do futebol. Já sabe, basta escrever LOAD " " ENTER para entrar neste mundo maravilhoso de Rui Miguel Tovar.

Imagine seis artistas sentados à mesa. Imagine, assim ao calhas, ali n’A Tasca do Brito, paredes meias com o estádio do Braga. Imagine que é dia de jogo europeu e temos seis bilhetes à mão de semear. Imagine que a senhora responsável pelos seis comensais é do Vitória (esse mesmo, o de Guimarães).

Imagine que há refill de pataniscas e garrafas de vinho tinto por cada fora-de-jogo do Rangers. Imagine que um dos ilustres visitantes estagia em El Salvador durante o Mundial-2014 e cruza-se com Mágico González (há foto e tudo, um equipado à Alemanha, outro à River Plate). Imagine que passáramos o dia anterior a entrevistá-lo – a ele, ao González. Mágico, não é? Acredite.

Bom dia, tudo bem?

[silêncio]

Alloooooo, bom dia.

[silêncio]

Bom dia, tudo bem?

Siiiiiiii?

É o Mágico González?

Sim, sou eu. Quem havia de ser, hein? Só estou eu cá em casa neste momento.

Okay, falo de Portugal.

De onde?

Portugal.

Portugal? Dios mío, que fazes aí? E o que queres de mim?

Quero entrevistá-lo.

Ai é? Então apanha um avião e vem ter comigo.

Quem me dera. Acho que dariam pela minha falta. Acho.

Jajajajajaja. Vem na mesma.

No puedo.

Jajajajaja. Compreendo. Faz perguntas à vontade.

É Mágico, porquê?

Na verdade, sou Mago. A história é engraçada e passa-se em Cádiz. Quando cheguei lá para assinar, um jornalista local enganou-se e escreveu Mágico em vez de Mago. Sempre fui Mago. Aqui em El Salvador e até lá em Espanha, durante o Mundial-82. Ora bem, ele escreveu Mágico e foi de férias. No dia seguinte, o seu substituto manteve o Mágico e os hinchas agarraram-se a essa ideia de Mágico.

E?

Tanto me faz, Mago ou Mágico. Queria era jogar, divertir e divertir-me.

De El Salvador para Espanha, grande salto.

Enorme, gigante.

Pelo meio, o Mundial-82.

Sim, sim, bela experiência. E feia também.

Então?

Fomos a um Mundial, coisa nunca vista e, até agora, jamais repetida. Só que perdemos 10-1 com a Hungria. Isso marca-te. Quero dizer, ficas na história. E não é pela razão mais bonita.

Uma experiência quê?

Ficas com a cabeça a andar à roda. Levas 10, imaginas. O jogo está a passar para todo o mundo e passas uma vergonha. E olha que não sou guarda-redes nem defesa.

VÍDEO: o 10-1 da Hungria a El Salvador

Qual o golo mais difícil de encaixar?

Nenhum dos dez.

Então?

Então que os dirigentes de El Salvador eram desorganizados. E fico-me por aqui, pelo termo desorganizados para evitar problemas. O nosso hotel era a 75 quilómetros do estádio e chegámos ao estádio em cima da hora do hino, nem fizemos o aquecimento. Depois, o delegado ao jogo esqueceu-se, e eu digo novamente esqueceu-se para evitar problemas, dos nossos passaportes. O árbitro disse-nos que queria os nossos passaportes na mão dele ao intervalo. Pergunto eu...

E só pergunta para evitar problemas?

Jajajaja, isso mesmo [risos misturados com um espirro]. E pergunto para evitar problemas, como é que o delegado chegou ao estádio com os passaportes se se tinha esquecido deles no hotel. Fez 150 quilómetros em 45 minutos? Nem de helicóptero.

Sugere o Mágico para evitar problemas?

Pois. Há mais. Ao que parece, os nossos sacos de treino eram do Mundial-78. A Adidas diz que enviou 200 bolas do Mundial-82 mas nunca as vi à minha frente.

Resumindo.

Foi uma grande aventura.

O quê?

É isso mesmo. Com o Mundial-82, ganhei visibilidade e transferi-me para o Cádiz.

A sua vida mudou?

Nem um pouco.

Continuou o mesmo então?

Claro. Não podia conceber o futebol como profissão, jogasse aqui [El Salvador] ou aí [Europa, suponho]. O futebol é divertimento e eu não seria o Mago ou o Mágico González se o entendesse de forma diferente.

E isso de divertimento quer dizer o quê? Leio notícias e mais notícias suas em como era hábil a fugir aos adversários e até aos treinos.

Jajajajaja, essa é boa. Cuidado com as histórias. Há mais que muitas, algumas reais, outras surreais e umas sem fundo de verdade.

É verdade que dormia ao intervalo?

Não entendo como é que alguém inventa isso e também não entendo como é que alguém acredita nisso. Claro que não. Eu respeitei sempre o futebol, quanto muito não me respeitei a mim mesmo.

Era descuidado, portanto?

Reconheço que não fui um santo e que gosto da noite, das discotecas. Sempre soube da minha irresponsabilidade e da minha atitude pouco profissional. Talvez isso tenha inviabilizado a minha carreira. E se e se, o que interessa isso? Joguei um Mundial e diverti-me. Joguei na Liga espanhola e diverti-me. Joguei por diversão e isso é o suficiente.

Alguma vez faltou a um treino?

Jajajaja, é possível. E às vezes fui treinar um bocado entornado.

E o seu treinador?

Louco, a tentar recuperar-me. O mais insistente foi um chamado David Vidal. Fazíamos concursos de toques.

Na bola?

Em maços de tabaco.

Uischhhhh. E então?

Ríamo-nos sem parar.

E o maço?

Ali a saltar de um pé para o outro. O meu máximo é 30. Acredita, ele só queria o melhor para mim e passava a noite à minha procura em todas as discotecas. Olha, há bem pouco tempo um dos empregados dessa discoteca lembrou-me esse período, porque era ele quem me avisava sobre a presença do David. Boas aventuras.

Qual a sua melhor aventura?

Há uma nos EUA que me faz sorrir sempre. Durante uma pré-época com o Barcelona. Fiz muitos golos pelo Cádiz e eles quiseram colocar-me à experiência, ao lado do Maradona.

Uh la la, duplamente mágico.

Jajajajajaj. Fomos estagiar para a Califórnia e eu nunca fui muito de ligar a regras e tal. Certa noite, soa o alarme de incêndio. Todos baixaram à recepção menos eu.

Então?

Continuei na cama.

A dormir?

Jajajajajaja.

Então?

A dormir, eu? Nunca.

Como assim, nunca?

Então estava com uma miúda.

Ahhhhhhh, bom.
 

Sabes quem accionou o alarme, e por brincadeira?

 

Nem ideia.

O Maradona.

A sério?

Sério mais sério que nunca. O Maradona, ele mesmo. Mas eu percebi a jogada. Antevi-a até. Por isso, deixei-me ficar na cama com a miúda californiana.

Está certo. E depois?

Arrombaram-me a porta do quarto. Nunca mais me esqueço do número: 401. Foi um dirigente do Barcelona. Olha, fiquei marcado e nunca mais joguei pelo Barça, muito embora o Maradona me desse moral constantemente.

De que tipo?

Dizia-me que era o melhor. Quando voltei para o Cádiz, encontrava-o nos relvados e ele dizia-me que, às vezes, nos treinos do Barça, todos tentavam fazer as minhas fintas e ninguém conseguia.

Grande honra.

Diversão, lá está. Sempre fui pela diversão.

Fora da cama e das discotecas, qual era o seu forte?

O chapéu. Adorava aplicar um chapéu no guarda-redes. Obviamente que tinha de contar com o seu adiantamento. Lembro-me de alguns golos assim, como aquele ao Valencia, no Mestalla. Nunca mais me esqueci do nome do guarda-redes: Sempere.

Também li que tinha uma finta característica.

Quando encarava o adversário, fazia um truque com o tornozelo. Ameaçava que ia para um lado mas ia pelo outro. Enganava-os sempre, pela velocidade. Era veloz.

Até a dormir, imagino.

Jajajajaja. Quando dormia, era para dormir. Não me conseguiam acordar. Às vezes, bem tentavam. Iam lá bater-me à porta e eu nada, claro. Só uma vez é que me acordaram, quando levaram um banda para tocar debaixo da minha janela. Acordei porque gostei do som das guitarras.

Divinal. Última pergunta: conheces Portugal?

Se conheço? Marquei-vos um golo.

Quando e como?

Pela selecção de El Salvador.

Mas nunca jogámos com vocês.

Ai jogaram, jogaram. Foi em 1981, um ano antes do Mundial em Espanha. Fomos aí jogar com o Vitória de Guimaraes [assim mesmo, sem acento]. Marquei um golo e acho que ganhámos 2-1.

Que maravilha. Nunca mais esteve ligado ao futebol?

Nunca. Para quê?

Não quer ser treinador?

Nunca. Para quê? Nem sequer ia aos treinos.

Mucho gusto Mago, abrazo.

Saludos compañero, abrazo.