* Enviado especial do Maisfutebol aos Jogos Olímpicos

Siga o autor no Twitter

«A morte não exime ninguém de suas paixões e deveres clubísticos»

                                                                  (Nelson Rodrigues)

A bandeira do Fluminense, queimada pelo sol, continua à janela. Ufana e exibicionista. É neste apartamento que resiste o mundo mais íntimo de Nelson Rodrigues. A esposa Elza, 98 anos, o filho Nelsinho, 71, a neta Crica, 37, e o bisneto Murilo, 9.

O Maisfutebol bate à porta do maravilhoso universo do mais brilhante cronista que o Brasil conheceu. Desporto, Política, Sociedade, nada escapou ao olhar devorador e à pena malabarista de Nelson, apenas Nelson, o Anjo Pornográfico.

«Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou um anjo pornográfico».

Nele, a escrita era «orgânica», um «vício incontrolável». Nelson escrevia «para cinco jornais diariamente» e saltitava de «redação em redação, de máquina de escrever em máquina de escrever».

Mestre do tom metafórico, da palavra de livre circulação entre real e fantástico. De Nelson Rodrigues e respetiva obra já tudo se disse. Mas, e sobre o homem de família? Quem era o papai Nelson ou o vovô Nelson?

Bandeira do Flu assinala a casa de Nelson Rodrigues (Foto: Maisfutebol)

«Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos»

                                                              (Nelson Rodrigues)

Vítima de um grave AVC no final de 2015, Nelsinho Rodrigues ainda recupera sensações e capacidades. Entrega a responsabilidade das respostas à filha, Crica Rodrigues, parceira na organização de todas as iniciativas do centenário de Nelson.

Na verdade, logo no prólogo da entrevista, as perguntas tornam-se acessórias. A riqueza dos momentos narrados é tão grande que não justifica nem merece interrupção.

Nelson Rodrigues morre em 1980, 21 de dezembro, um ano e quatro meses após o nascimento da neta, Crica.

«A minha mãe não podia ter um parto natural. Nasci de cesariana», conta a neta do génio pernambucano, filho adotivo do Rio de Janeiro.

«O médico disse que a minha mãe tinha de escolher o dia do meu nascimento e ela escolheu precisamente o dia de aniversário do meu avô: 23 de agosto. Eu nasci para homenageá-lo».

Nesse ano de 1979, o filho de Nelson e pai de Crica, Nelsinho Rodrigues, encontrava-se preso há oito anos. Opositor visceral da ditadura militar vigente, Nelsinho torna-se numa das vítimas do regime dos coronéis.

«O meu pai só assistiu ao meu parto com uma deliberação especial do juiz. E eu nasci um dia depois do fim da greve de fome dos presos políticos. Eles lutavam pela amnistia total», recorda Crica Rodrigues, uma comunicadora próxima da excelência do pai e do avô.

«A greve de fome durou 32 dias. O meu pai ficou magríssimo, quase não conseguia andar. Encontrou-se com o meu avô, ainda algemado, e foram ver-me ao hospital. Dava três passos e parava, para respirar e recuperar. Nasci com a Polícia dentro do hospital».

Nelson Rodrigues e os dois filhos no Maracanã

«Toda a unanimidade é burra»

                  (Nelson Rodrigues)

A questão é pacífica no seio familiar: Nelsinho Rodrigues esteve na luta armada contra o regime militar; Nelson Rodrigues apoiou publicamente a ditadura. Os corações de pai e filho nunca se afastaram. Como foi possível esta coabitação?

«Com o respeito, enorme, entre ambos», explica Crica, antes de enquadrar o tema. «O meu avô não apoiava a ditadura. Ele era, acima de tudo, anti-comunista. Tinha um horror ao comunismo. E o meu pai sempre foi de Esquerda».

«O meu avô nunca tentou convencer o meu pai de nada. Escrevia diariamente crónicas políticas e às vezes o meu pai não se controlava (risos). Ligava para o Velho, como ele o tratava, e dizia: ‘Velho, como é que você teve a coragem de escrever isso e aquilo?’»

A discórdia morria nessas trocas de palavras acaloradas. Nelson, um feixe de paradoxos, detestava contestatários, mas tirava-os da cadeia. «Tirou o Caetano Veloso e outros. Para ele era impensável um artista estar detido».

«O meu avô tinha um posicionamento político oposto, mas quando visitava o meu pai na cadeia acontecia uma coisa notável: sentava-se no meio de uma cela, rodeado pelos presos políticos, de Esquerda, e expunha as suas ideias».

«O amor do meu pai e do meu avô cresceu nessa dicotomia política», resume Crica Rodrigues. «A diferença não os abalou».

«Não admito censura nem de Jesus Cristo»

                                      (Nelson Rodrigues)

O império da fantasia de Nelson Rodrigues disseminava tentáculos por todas as áreas. No desporto, o amor sofrido pelo Fluminense juntava o absurdo e o real para uma dança na mesma crónica.

Personagens delirantes brotaram desta imaginação inesgotável. A Cabra Vadia, espetadora de entrevistas imaginárias conduzidas por Nelson, ou o Sobrenatural de Almeida, o inverosímil assombro que afugentava as vitórias em dérbis contra o Botafogo.

Nelson, impagável.

«Era orgânico, tinha sempre vontade de escrever. Um dia chegou a casa e disse ao meu pai que queria fazer uma autobiografia para teatro, em nove atos. Pretendia dramatizar a própria vida (risos)», revela Crica Rodrigues, e desfila de memória outras personagens sociais inventadas pelo avô. «A Gorda Patusca; Palhares, o Canalha; o Padre de passeata…»

«Quem consome Nelson Rodrigues, de fora, apenas tem acesso a frações da obra. O que fizemos na altura do centenário foi organizar todo o trabalho do meu avô e disponibilizá-lo na totalidade», explica a neta do génio.

A dimensão do trabalho de Nelson é impressionante. É o autor mais filmado do Brasil, tem 25 filmes baseados em argumentos seus e um interminável reportório de crónicas.

«’A Vida Como Ela É’ está espalhada por jornais, durante mais de uma década. Era uma publicação diária. O meu avô fazia sempre o mesmo: acordava, ia a um café perto de casa, absorvia tudo o que via e servia no dia seguinte em forma de letras».

Em casa, prossegue Crica, Nelson era «um homem discreto e muito amoroso». «É assim que o meu pai se refere a ele. Não era beijoqueiro, não pegava nas crianças ao colo, até por ter sofrido graves problemas de saúde. Tuberculose. A minha avó diz que o único bebé em que ele pegou fui eu».

Nelsinho (à esquerda) e o busto do pai

«O próprio Juízo Final há-de sentir-se incompetente para opinar sobre Garrincha»

                                                                                                   (Nelson Rodrigues)

No busto erguido nas Laranjeiras, histórica casa do Fluminense, o texto gravado é categórico: «O Profeta Tricolor (Nelson Rodrigues) é um troféu que só o Fluminense tem. O equivalente seria algum outro clube do planeta ter como torcedor Shakespeare ou Dostoievski».

Flu, Flu até ao fim. Nelson era obcecado pela morte, fugia da escola em criança para assistir a velórios. E escrevia sobre ela, para ela e a caminho dela.

19 dias antes de morrer, Nelson assinou a última crónica. «Esse foi o último jogo que o Fluminense fez com o meu avô vivo. Final do campeonato carioca contra o Vasco da Gama», recorda Crica Rodrigues.

«O meu pai dedicou-se ao meu avô nos últimos anos de vida dele. Nesse dia, em casa, o meu avô já estava muito debilitado e a lucidez ia e vinha. Dormitava, acordava, balbuciava algumas palavras: ‘ei, Nelsinho, e o Flu’?».

«O Edinho fez o único golo do jogo e o meu pai não quis contar logo. ‘Foi quase golo, bola na trave’, inventou. Teve medo que o meu avô se emocionasse», relata a neta, 36 anos depois.

«O jogo acaba e o Flu é campeão. ‘Papai, acabou. Golo de Edinho, Flu campeão’. E então, a reação do meu avô, ali moribundo, é emocionante: levanta-se e diz, ‘preciso de escrever’».

No derradeiro suspiro, exangue, Nelson Rodrigues senta-se à máquina de escrever. Bate nas teclas, mas as palavras não se formam.

«Foi então que o meu pai pediu: ‘Velho, dita aí e eu escrevo’».

Acabou assim:

NELSON RODRIGUES, 2 de dezembro de 1980, jornal O Globo

«FLUMINENSE CAMPEÃO DEMAIS

Amigos, em futebol, nunca houve uma vitória improvisada. Tem sido assim através dos tempos.

Foi uma doce e santa vitória. Vocês viram como aconteceu o nosso triunfo. Foi uma tarde maravilhosa.

Tudo começou há seis mil anos atrás. Vocês compreenderam? Podia ser o Flamengo, o Botafogo, o Vasco ou outro, mas estava escrito que a arrancada era tricolor.

Há quarenta anos antes do nada, Nelsinho foi chamado. E foi tão fulminante sua presença no túnel tricolor que merecia ser carregado numa bandeja com uma maça na boca.

Amigos, os idiotas da objetividade custaram a perceber a evidência ululante, segundo a qual seríamos campeões. Eu lhes falei do Roberto Arruda. Pois o Arruda, desde o primeiro jogo do campeonato, me procurou dizendo: – “Seremos campeões”. E neste domingo, o Arruda telefonou para dizer uma única e escassa frase: – “Ninguém nos tira a vitória”.

E desde o primeiro momento do jogo, ficou claro que a vitória era tricolor. Foi 1 x 0 mas poderia ser dois ou três. O Edinho fez o gol e o Fluminense em vez de recuar para garantir o resultado partiu para cima do Vasco como um leão faminto de mais gols.

E vocês viram: nosso adversário não pôde esboçar a menor reação.

Gostaria de falar dos campeões. O Fluminense tem um elenco fabuloso do goleiro ao ponta-esquerda, e só os lorpas e pascácios não veem que o futebol brasileiro está encarnado nos craques tricolores».