Voltemos ao jovem Morato formado nas escolas do Sporting e que soube impor-se numa equipa que contava com nomes como Manuel Fernandes, Jordão, Lito, Futre, Kostov ou Carlos Xavier. Na temporada 1988/89, curiosamente a última em Alvalade, herdou a braçadeira de capitão de Vítor Damas, seu «parceiro de quarto», que se retirou em novembro.

Depois de seis épocas na equipa principal do Sporting, saiu e acabou num clube rival, o FC Porto. Mas nada foi pensado, simplesmente aconteceu, explica ao Maisfutebol: «Muitos pensam que quando saí já tinha clube. Eu tinha ordenados em atraso. Fui negociar com Sousa Cintra e ele disse-me: “O que está para trás, os oito meses, não pago. Ficam os outros dois anos de contrato e assinamos mais um ano.” Disse-lhe que isso era impossível, porque não tinha dinheiro para sustentar a minha família. Quando saí de perto dele, fiz a rescisão e entreguei-a no aeroporto. Fui para casa um mês e meio. Estive esse tempo sem clube, à espera que alguém me contactasse.»

«Contrariamente ao que dizem, não assinei logo pelo FC Porto»

As propostas acabaram por surgir: «Tive o União da Madeira, o V. Guimarães, o Borussia Dortmund, se não me engano, e, por fim, o FC Porto. Contrariamente ao que dizem, não assinei logo pelo FC Porto. Na altura, o União era o clube que mais dinheiro me oferecia, mas tenho um pouco de alergia a aviões. Depois optei pelo FC Porto, que tinha projetos interessantes. Mas também com um ordenado que não era nada do outro mundo. Eu estava numa situação em que arriscava ficar no desemprego, à espera de ganhar ao Sporting os tais oito meses. Por isso, quis o FC Porto, que era um clube grande e eu queria ir para um clube grande. Não desvalorizando os outros, claro. Para a Alemanha disse logo que não ia. Era muito dinheiro, mas não queria ir.»

E o Sporting? A situação ficou resolvida? «Tinha direito a esses oito meses em atraso e mais dois anos [que restavam de contrato], mas abdiquei deles em benefício do clube. Ou seja, em tribunal só quis o que tinha trabalhado, que eram os oito meses. Não quis os dois anos que poderia ir buscar.»

Apesar de ter sido jogador de um clube rival, garante que os dragões sempre o trataram bem. Já os sportinguistas tiveram dificuldade em perdoar a sua saída para as Antas: «Nunca tive qualquer queixa de alguém ligado ao FC Porto, nem de sócios, nem de claques, nem de direções... Antes pelo contrário. Em relação ao Sporting, as pessoas não conheciam os motivos que me levaram a sair, porque eu não disse. Achei que, se os diretores quisessem dizer, dissessem. Aí sofri algumas represálias. Na altura, sobrou para o meu pai, para a minha mãe e para o meu irmão. Ninguém consegue viver com oito meses de ordenados em atraso.»

A ida ao Mundial de 1986, no México, foi, simultaneamente, o melhor e o pior da sua carreira: «Foi positivo ter ido. Mas também foi negativo, porque fiz parte do célebre caso Saltillo e nunca mais fui convocado para a seleção. O pior momento da minha carreira terá sido mesmo esse.»

«Acabei a carreira aos 29 anos, porque estava saturado»

Decidiu pendurar as chuteiras aos «29 anos», lembra. «Acabei porque quis», aponta, acrescentando: «Estava saturado. O futebol estava numa altura de mudanças, numa altura de testes e reformulações. Saturei-me. Jogava futebol desde os 9 anos, chegou a um ponto em que me saturei.»

Mas voltou aos relvados depois disso: «Ainda fui jogar para o Desportivo de Beja, porque o meu vizinho era o presidente do clube e quase que me obrigou a ir. O treinador era o Diamantino [Miranda]. Joguei quatro jogos e, no dia dos meus anos, em novembro, vim-me embora e não joguei mais.»

António Morato representou o Sporting, FC Porto, Belenenses, Gil Vicente e Estoril. Conta com seis internacionalizações A no currículo e dois troféus: a Supertaça, ganha ao serviço do Sporting, e o campeonato, no FC Porto.

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