A 'World Cup Experts Network' reúne órgãos de comunicação social de vários pontos do planeta para lhe apresentar a melhor informação sobre as 32 seleções que vão disputar o Campeonato do Mundo. O Maisfutebol representa Portugal nesta iniciativa do prestigiado jornal Guardian. Leia os perfis completos das seleções que participarão no torneio:

Autor dos textos: Aleksandar Holiga

Parceiro oficial na Croácia: tportal.hr

Revisão: Filipe Caetano

Longe vão os tempos das experiências táticas sem sentido que levaram ao despedimento de Igor Stimac em novembro, antes do play-off de apuramento para o Mundial com a Islândia. Ao contrário do impopular antecessor, o novo selecionador croata, Niko Kovac, pretende jogar em 4x2x3x1 com tendência para o 4x1x4x1, tal como proclamou desde que assumiu o lugar. Esta tática tem como base tirar o melhor partido do duo de criativos composto por Luka Modric e Ivan Rakitic, mas não resolve dois problemas antigos: a falta de qualidade dos extremos e a necessidade de equilibrar a criatividade com uma presença mais física no meio-campo.

Apesar da boa época de Danijel Subasic no Mónaco, Stipe Pletikosa (35 anos) continua a ser a primeira escolha para guarda-redes. Mais confiável do que espetacular, segura a baliza croata há quase quinze anos. O capitão Darijo Srna, do Shakhtar Donetsk, é o incontestado lateral-direito, enquanto Vedran Corluka (Lokomotiv Moscovo) e Dejan Lovren (Southampton) deverão formar a dupla de centrais. A lateral esquerda tem sido um constante ponto fraco e foi por isso que Kovac chamou o quase esquecido Danijel Pranjic, agora no Panathinaikos.

Modric (Real Madrid) e Rakitic (Sevilha) vão controlar o jogo na zona central, mas será necessário encontrar um lugar para a estrela em ascensão Mateo Kovacevic (Inter Milão), embora não se saiba onde. É o mesmo dilema que Miroslav Blazevic teve com a geração que ganhou a medalha de bronze em 1998, quando existia a tentação de usar os três médios criativos Zvonimir Boban, Robert Prosinecki e Aljosa Asanovic. Embora o trio atual seja inteligente taticamente e capaz de roubar bolas, não possui músculo, para além de que demasiado trabalho defensivo poderá retirar-lhe espaço para a criatividade.

Talvez a opção mais segura seja adicionar um especialista em missões mais defensivas, como o experiente e muitas vezes questionado Ognjen Vukojevic (Dynamo Kiev). Neste caso, o jovem Kovacevic deverá ser relegado para uma das alas, o que se ajusta muito melhor do que fazer o mesmo com Rakitic, que já foi (mal) usado nessa posição em jogos da seleção.

Essa mudança concreta está entre as hipóteses a serem consideradas por Kovac para o jogo de abertura com o Brasil, a 12 de junho, uma vez que o avançado Mario Mandzukic não vai poder ser utilizado devido a suspensão por ter visto o cartão vermelho na segunda mão do play-off com a Islândia. O jogador do Bayern de Munique será substituído por Eduardo (Shakhtar Donetsk) ou pelo veterano Ivica Olic (Wolfsburg). Este último tem sido utilizado muitas vezes nas alas, mas é mais natural na zona central do ataque. Ivan Perisic, colega de clube de Olic, deverá estrear-se no outro flanco.

Vale a pena referir que praticamente todos estes jogadores tiveram boas épocas nos seus clubes e atravessam boa forma, podendo atingir o pico durante o Mundial.

Que jogador pode surpreender no Campeonato do Mundo?

Numa equipa cheia de experiência, o muito dotado Mateo Kovacic é pelo menos cinco anos mais jovem do qualquer outro titular, mas o seu papel pode ser essencial para lidar com as curtas aspirações croatas. O jogador de 20 anos foi relativamente negligenciado pelo treinador do Inter de Milão, Walter Mazzari, até que finalmente começou a florescer, culminando com uma grande exibição no jogo de despedida de Javier Zanetti em San Siro, quebrando a defesa da Lázio com três assistências na vitória por 4-1. Kovacevic é um jogador tecnicamente dotado e explosivo, com grande poder de drible e uma excecional visão de jogo, o que lhe permite recuperar bolas e fazer passes para os avançados. Tem fragilidades no jogo aéreo e não é tão compacto como Modric, precisando de mais espaço para desenvolver o seu jogo. Pode vir a ser uma das revelações do torneio.

E que jogador pode desiludir as pessoas no torneio?

Dejan Lovren tinha muitos admiradores em Inglaterra quando se estreou na Premier League, mas nunca conseguiu destacar-se na seleção. É por isso que em certa medida é desvalorizado no país, mas o Campeonato do Mundo pode ser a oportunidade ideal para provar a sua qualidade. Lovren é particularmente criticado pela sua indisciplina, cometendo demasiadas faltas desnecessárias em zonas perigosas, pelo que um erro desse género no Mundial sairá demasiado caro à Croácia.

Qual é a expetativa real para a seleção no Mundial?

Devido à dimensão do país, ao nível da liga local e tudo pelo que tivemos de passar durante a qualificação, ultrapassar a primeira fase já seria um grande feito, mas também é verdade que temos uma equipa potente e experiente, com jogadores-chave no pico da forma. México e Camarões não são melhores do que nós e podemos dar luta ao Brasil. Por isso, seguir para a segunda fase pela primeira vez desde 1998 é um objetivo realista. Depois disso qualquer coisa pode acontecer nos jogos a eliminar.

Curiosidades e segredos da seleção

Mario Mandzukic

Aparentemente Mandzukic nunca quis ser outra coisa que não fosse jogador de futebol e todo o seu tempo foi dedicado a esse objetivo. Quando escolheu a escola só pediu para ser o mais próximo de casa para não passar muito tempo em viagens e aproveitar para jogar à bola durante várias horas todos os dias. O tipo de educação foi muito simples: para além de ser futebolista profissional recebeu competências como oleiro. Esta maneira de estar mantém-se até aos dias de hoje, em que o avançado continua a centrar todas as suas atenções no futebol e o tempo livre é para a família.

Robert Kovac (treinador adjunto)

Muitos jogadores namoram ou casam com modelos e normalmente são as grandes estrelas da equipa que ficam com as mais famosas WAG. No caso da Croácia esse papel cabe ao técnico adjunto, que é casado com Anica Kovac, segunda classificada no concurso de beleza Miss Mundo, em 1995. Robert também é o irmão mais novo do selecionador.

Dejan Lovren

O defesa dirige a sua própria marca de roupa com o nome «Russel Brown» e até já recebeu o apoio de nomes de peso, como os compatriotas Luka Modric e Mario Mandzukic, para além de Karim Benzema e Franck Ribéry.

Eduardo da Silva

Se entrar em campo no jogo de abertura do torneio conseguirá algo único: estrear-se num Mundial no país de nascença, jogando contra a equipa do seu país de origem. O avançado foi para a Croácia aos 16 anos e construiu o seu nome no Dinamo Zagreb antes de se transferir para o Arsenal. Apesar de ser o segundo melhor marcador da história da Croácia esta será a primeira vez que vai jogar um Mundial.

Darijo Srna

Quando disputou a final da Taça UEFA com o Shaktar Donetsk, em 2009, Srna alugou um avião para levar ao jogo 125 dos seus amigos mais chegados e familiares. Na Ucrânia é usual oferecer bilhetes de jogo a crianças orfãs e financia as suas viagens ao estádio. Chegou a pagar a deslocação a 920 de uma só vez. O pai de Srna foi uma criança orfã durante a segunda Guerra mundial.

Perfil de uma figura da seleção: Ivan Rakitic

Todos os verões a pequena localidade fronteiriça de Moehlin ganha vida por um dia para celebrar as estrelas que convivem com o mais famoso filho da terra: Ivan Rakitic. O médio é proprietário do clube local, o NK Pajde, que milita nas divisões secundárias e é totalmente gerido pela sua família: o pai é presidente, o tio é diretor de futebol e o irmão é jogador-treinador. 

Uma vez por ano, durante as férias, Rakitic convida alguns dos amigos futebolistas para visitaram a sua terra-natal para um jogo de exibição contra o Pajde. O rumor que corre por lá é que alguns dos ex-companheiros, como Manuel Neuer (com quem jogou no Schalke 04), também contribuem para o orçamento do clube.

Moehelin é muito importante para ele, pois foi aí que ele se apaixonou pelo país dos seus pais, vendo a Croácia jogar o Mundial de 1998. «Quando Robert Prosinecki marcou contra a Jamaica fiquei tão contente que corri até à varanda e saltei a grade em euforia. Morávamos no primeiro andar e caí, mas acabou por não ser muito grave», contou numa entrevista recente. 

Foi também nessa localidade que aos 16 anos viu o seu pai, Luka, rejeitar uma proposta que podia ter mudado a sua vida, quando um dos elementos da equipa técnica de José Mourinho tentou convencê-lo a mudar-se para Londres com o filho para representar o Chelsea. Nessa altura Ivan já jogava nas camadas jovens do Basileia e a família recusou educadamente a oferta.

Foi sensivelmente na mesma altura que Rakitic informou o seu pai que tinha tomado a decisão de representar a Croácia, o que levou Luka a chorar de alegria. Não foi uma decisão fácil, até porque a família sofreu uma enorme pressão diária, recebendo telefonemas e cartas anónimas, até ameaças de morte, para tentar levá-los a aceitar a proposta da Suíça.

Este ano a festa em Moehlin vai ter de esperar pelo fim do Mundial, onde Rakitic tentará conduzir a Croácia para a glória, ou pelo menos ajudar a passar a fase de grupos. Jogador-chave na equipa, forma com Luka Modric a dupla criativa mais excitante da Croácia desde a geração de 1998.

Após uma época fantástica em Sevilha, este será um verão de grandes decisões para o médio de 26 anos. Os rumores falam na possibilidade de transferir-se para um dos grandes clubes europeus, com Real e Atlético Madrid à cabeça, mas também existe o interesse de Mancheter United, Chelsea e Liverpool.