O Sporting perdeu por 2-0 em casa do Atlético Madrid na primeira mão dos quartos de final da Liga Europa e a partir daí entrou numa espiral sem precedentes e absolutamente transversal ao clube. A tomada de posição dos jogadores em resposta à exposição de que foram alvo por parte do presidente e a reação do estádio frente ao Paços de Ferreira representaram algo novo que não ficará por aqui. Em causa o futuro do presidente e dos órgãos sociais, em aberto as consequências desportivas. Tudo isto em plena fase de decisões da época, com o Sporting ainda em três competições.

O Maisfutebol procura fazer o filme destes dias, desde a noite de quinta-feira até esta segunda-feira em que o presidente da Assembleia Geral defendeu que o presidente não tem condições para continuar e Bruno de Carvalho respondeu que iria ele próprio convocar uma Assembleia Geral para os sócios decidirem o seu futuro, isto antes de suspender as publicações no Facebook, onde isto começou. E que teve de novo as ações da SAD suspensas, o que já tinha acontecido na sexta-feira, e terminou com o principal acionista externo a requerer uma Assembleia Geral da SAD.

Não é de agora a turbulência entre presidente e treinador ou jogadores na vigência de Bruno de Carvalho, eleito pela primeira vez há cinco anos, em março de 2013. Há pouco mais de um ano, um incidente no balneário em Chaves terminou com uma declaração de meias palavras dois dos então capitães, William e Adrien Silva. Agora foi diferente.

O jogo no Wanda Metropolitano tinha terminado há meia hora quando Bruno de Carvalho escreveu um comentário com críticas a vários jogadores. Questionado sobre o assunto ainda na sala de imprensa do Atletico Madrid, Jorge Jesus mostrou-se incomodado e evitou comentar. O Sporting viajou de volta a Portugal na sexta-feira de manhã. E ao início da tarde começam a surgir notícias de que os jogadores recusaram treinar e quiseram falar com o presidente. O clube emitiu um comunicado a desmentir e a garantir que a equipa fez o trabalho que estava previsto, em Alvalade. Essa foi aliás a única posição oficial do Sporting em todo este processo, o resto foram declarações ou publicações do treinador, do presidente e do presidente da AG.

Minutos depois do desmentido surgiu nas redes sociais de vários jogadores o comunicado que expressava o desagrado pelas palavras do presidente.

 

Somos Sporting Clube de Portugal, em nome do plantel, somos a informar o seguinte... Suamos, lutamos e honramos sempre a camisola que vestimos. Não somos perfeitos e não acreditamos em jogadores perfeitos, porque queremos sempre evoluir! Não existem jogadores nem equipas perfeitas, mas quando as coisas não correm como queremos, sabemos assumir as nossas responsabilidades. Todos nós temos de o fazer! Quando vencemos, empatamos ou perdemos… sim… porque no Futebol estes são os resultados possíveis, a responsabilidade é sempre de todos! Somos uma equipa! Somos um grupo unido de um Grande Clube onde o respeito é uma das bases necessárias a essa união. Não podemos pensar apenas no “Eu”, mas sim “Nós” e sempre na equipa, porque só assim poderemos vencer. No nosso Clube, nas seleções nacionais que representamos, sempre damos e continuaremos a dar o nosso melhor, porque o querer é uma constante. Somos profissionais, somos humanos! A nossa integridade e o nosso compromisso são sagrados! Esforço, dedicação, devoção e glória sempre! Damos o máximo pelo Sporting Clube de Portugal, damos o máximo por nós próprios enquanto equipa, individualmente enquanto atletas. Lutamos pelo nosso Clube, pelos nossos adeptos e por nós, sempre! Não há outra forma séria de estar no Futebol Profissional que não seja esta… Por esta razão, em nome de todo o plantel do SCP, espelhamos neste texto o nosso desagrado, por vir a publico as declarações do nosso Presidente, após o jogo de ontem, no qual obtivemos um resultado que não queríamos… a ausência de apoio, neste momento…, daquele que deveria ser o nosso líder. Apontar o dedo para culpabilizar o desempenho dos atletas publicamente, quando a união de um grupo se rege pelo esforço conjunto, seja qual for a situação que estejamos a passar, todos os assuntos resolvem-se dentro do grupo. Saibamos ver que, por maiores que sejam as dificuldades, ainda há muito para disputar. Temos uma recta final em várias competições e vamos, haja o que houver, unidos e coesos, dar o máximo pelo Sporting Clube de Portugal. Somos Sporting Clube de Portugal.

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Bruno de Carvalho reagiu, chamando aos jogadores «meninos mimados» e ameaçando suspensões. Estava instalada a confusão, reforçada com a informação de que durante a noite foram mesmo enviadas notas de culpa aos jogadores que assumiram posição. Foram enviadas via e-mail, o que não cumpre os requisitos formais para este tipo de processo.

No sábado, bem cedo, também a informação de que a conferência de imprensa de Jorge Jesus de antevisão do jogo com o Paços Ferreira, prevista para as 15h, fora adiada para as 18h.

Nesse intervalo houve em Alvalade reunião entre jogadores e presidente. Durou pouco mais de hora e meia e no final os jogadores seguiram para Alcochete. Jorge Jesus seguiu para a sala de imprensa, onde falou ainda antes das 18h, para afastar, pelo menos no imediato, o cenário de suspensões. Disse o treinador que tinha liberdade para convocar quem quisesse.

Parecia alcançada, pelo menos, uma trégua. A lista de convocados de Jorge Jesus saiu ao início da tarde e reforçava essa ideia de alguma normalidade reposta. Até que, a meio da tarde de domingo, Bruno de Carvalho voltou ao Facebook para falar de novo em processso disciplinares, entre novas críticas aos jogadores. Faltavam menos de três horas para o Sporting-Paços de Ferreira.

Ao final da tarde, Alvalade tomou a palavra. Com sentidos diferentes, primeiro. Do lado da principal claque do clube, uma tarja criticava os jogadores. Foi recebida com assobios das bancadas e o que se seguiu reforçou a tendência. Quando Bruno de Carvalho subiu ao relvado, foi recebido com vaias, lenços brancos e pedidos de demissão.

Em campo, Bas Dost colocou o Sporting na frente aos 20 minutos e quando Bryan Ruiz fez o 2-0, aos 66 minutos, a imagem de todos os jogadores e todos os elementos do banco unidos no relvado a celebrar, com Bruno de Carvalho sozinho no banco, valeu mais que tudo o que se tinha dito e escrito até aí.

 

O final do jogo reforçou a ideia de comunhão entre jogadores e adeptos, na volta que equipa e treinador deram ao estádio. Veja aqui as imagens.

No fim, falou o capitão Rui Patrício, para reforçar a ideia de união do grupo em nome do clube. «Somos um grupo unido, jogadores do Sporting, e sabemos o que temos de fazer, trabalhar, dar o máximo nos treinos e nos jogos, é isso que vamos continuar a fazer até ao final. Lutar pelas competições que temos, ainda estamos em três.»

E falou Jorge Jesus, para deixar clara a sua posição, em nome dos jogadores e do clube: «Estive sempre do lado dos jogadores.» Para explicar qual foi a sua prioridade no meio da turbulência: «Sabia que era importante para o Sporting que o treinador tivesse a possibilidade de ter os melhores para jogar contra o Paços. Foi por isso que me bati. Foi uma luta natural em defesa dos interesses do Sporting.» E para reconhecer que foram difíceis, e inéditos, estes dias: «Já passei por tudo: ainda não tinha passado por esta, mas sei que o barómetro de qualquer clube são os jogadores.»

Depois Bruno de Carvalho voltou a falar. Desta vez sentou-se na sala de imprensa a falar de ingratidão e a ocupar o tempo que deveria ser para rescaldo do jogo. O treinador do Paços à espera, o Paços a ameaçar ir-se embora, foi assim o final da noite em Alvalade.

No imediato, a questão passa a ser institucional, com a tomada de posição de Marta Soares, do próprio Bruno de Carvalho e também da Holdimo, que detém 30 por cento das ações da SAD e requereu já a convocação de uma Assembleia Geral da SAD.

Quanto à equipa, o futuro dirá que consequências terá tudo isto. Algumas poderão estar para breve. Fábio Coentrão foi um dos visados por Bruno de Carvalho e na noite de domingo o dirigente alimentou a ideia de que estará mesmo sobre a mesa a rescisão do contrato de empréstimo com o Real Madrid.

Para breve mesmo estão todas as decisões da temporada. Já na quinta-feira o Sporting joga em Alvalade a segunda mão dos «quartos» da Liga Europa com o At. Madrid. No fim de semana visita o Belenenses para a Liga e na quarta-feira recebe o FC Porto para a decisão da meia-final da Taça de Portugal, onde procura dar a volta à desvantagem de 1-0 trazida do Dragão.

Com o Sporting no terceiro lugar na Liga, a seis pontos do líder Benfica, cinco pontos do FC Porto, segundo, e três de vantagem sobre o Sp. Braga, quarto, restam ainda mais quatro jornadas de campeonato, incluindo dérbi com o Benfica na penúltima ronda.