Os vencedores raramente desistem e os que desistem raramente vencem.

A frase adaptada é de Vince Lombardi, o mítico treinador de futebol norte-americano. Rui Vitória, com menos experiência, rodagem e arrogância, não desistiu mesmo com todas as adversidades que lhe surgiram no caminho. E chegou lá.

Discutir se é mérito de um ou demérito de outro é uma não-conversa.

Uma boa conversa poderia ser feita no sentido de se tentar perceber por que um treinador que esteve a sete pontos de distância conseguiu recuperá-los, somando mais nove pontos que o adversário direto até ao final do campeonato.

Outra conversa interessante seria ainda uma que avaliasse se os discursos e as comunicações desenfreadas que tiveram sempre o I, me and myself como foco podem ou não ter desestabilizado a sua própria equipa.

A parte excelente de Rui Vitória, que foi o seu comportamento, quase que o faz passar por um treinador menos apto na componente técnica e tática.

Vamos ao que interessa:

Quando alguém vence isso não implica que os vencidos deixaram de ser excelentes.

No entanto, as competições são assim mesmo. E aposto que os treinadores sabem isso melhor do que ninguém. A sensação de injustiça está muitas vezes presente. Mas tudo conta numa maratona como é um campeonato. A preparação. Jogo a jogo, quilómetro a quilómetro.

Rui Vitória teve muitos méritos. Para além de nunca ter desistido, teve ainda a inteligência de ter cedido. Cedido a um modelo que não é o seu preferido. Cedeu perante os jogadores, especialmente Jonas, depois de ter percebido que sem ele o título seria sempre mais complexo e que estava por ele obrigado a alterar algo.

E isto não é apenas ceder. Isto é um sinal do muito que está na mente do treinador. A cedência, a adaptabilidade e a flexibilidade. O discurso do nós. O plural.

O interessante é que a parte excelente de Rui Vitória, que foi o seu comportamento, quase que o faz passar por um treinador menos apto na componente técnica e tática. A sua atitude quase faz esquecer a quantidade de jogos que ganhou no banco e a capacidade de manter o foco naquilo que era o mais correto.

Rui Vitória venceu a Liga e a Taça da Liga no seu primeiro ano no Benfica.

Sinais para o futuro

Não sabemos quem vencerá no próximo ano. Sabemos que há sinais que são importantes para se vencer e para aprendermos. Provavelmente, esta época deu-nos um conjunto de sinais que tornará a próxima Liga entusiasmante, com as suas especificidades.

Os três candidatos à partida não sairão nos mesmos lugares. Não sairão apenas por causa do plantel ou da estrutura, mas também pela quantidade de aprendizagem que os seus treinadores conseguiram adquirir do que se passou e passa diariamente com os seus jogadores.

A Rui Vitória o que é de Rui Vitória. Petit já aqui foi enaltecido, tal como Lito Vidigal, Pedro Martins, Paulo Fonseca e Jorge Jesus, entre outros. Objetivos por desempenho são uma coisa, objetivos por resultados são outra. Ou seja, fazer mais pontos do que no passado não significa automaticamente um título. Podem estar relacionados, mas não estão dependentes. 

 

Rui Lança é licenciado em Ciências do Desporto e Mestre em Gestão do Desporto pela Faculdade de Motricidade Humana, e frequenta o doutoramento em Comportamento Organizacional nas áreas da Liderança, Equipas, Autonomia e Treino. Publicou cinco livros, entre os quais «Coach to Coach» e «Como formar equipas de elevado desempenho». É formador nas áreas da liderança, coaching, equipas e treinadores em diversos locais, entre eles na Federação Portuguesa de Futebol no curso de treinadores de futebol e futsal de nível III. Trabalha na vertente do treino do treinador e na área comportamental de equipas desportivas.