Joey Barton foi suspenso por ano e meio, o que na prática, como ele mesmo admitiu, quer dizer que acaba assim a carreira. E acaba a reconhecer que tem um problema, mais um. Mas também a fazer pensar noutra dependência bem mais abrangente, aquela que liga futebol e apostas.

Acabar suspenso não é exatamente um final de carreira inesperado para o jogador que foi o estereótipo do «bad boy» ao longo de década e meia de carreira. Joey Barton foi muitas e muitas vezes sinónimo de confusão e brigas, em campo e fora dele. Auto-destrutivo, contraditório.

Barton é o tipo que em 2005 apagou um charuto no olho de outro jogador durante a festa de Natal do Manchester City. Começou por ser uma brincadeira, acabou mal.

É o tipo que no verão seguinte foi expulso de um torneio de pré-época da Tailândia por ter querido agredir um jovem adepto do Everton e que ainda nesse ano o clube mandou cumprir um programa de controlo de agressividade. Fê-lo na Sporting Chance, uma instituição fundada por Tony Adams para ajudar antigos jogadores com problemas como alcoolismo ou outras adições.

Não resolveu todas as questões de Barton, que logo em setembro de 2006 respondeu a provocações insistentes de adeptos do Everton durante um jogo baixando as calças.

 

Nascido em Liverpool, Barton chegou ao City graças ao talento que tinha, e que ficou tantas vezes em segundo plano. Alguém que que cresceu num ambiente difícil, que tem um irmão a cumprir prisão pelo homicídio com motivações raciais de um adolescente. Que durante esse processo teve um papel ativo a convencer o irmão a assumir o seu papel no crime. E que diz viver atormentado pelo que podia ter feito mais para evitar a tragédia, como revelou na autobiografia que lançou no ano passado, «No Nonsense».

A história de  Joey Barton no City, onde chegou pela única vez na carreira à seleção inglesa, acabou no final dessa época 2006/07, quando acabou preso por causa de uma altercação no treino com Ousmane Dabo que atirou o francês para o hospital. Meteu polícia e foi condenado a quatro meses de pena suspensa.

E seguiu para Newcastle, onde em dezembro de 2007, na primeira época, foi preso sem fiança por causa de uma agressão agravada de madrugada no centro de Liverpool. Condenado a seis meses de prisão depois reduzidos, cumpriu mesmo mês e meio de prisão.

Depois do Newcastle o West Ham, ainda uma passagem por Marselha, a seguir o regresso a Inglaterra para o Burnley. Nunca isento de polémicas, embora com o passar dos anos Barton se tenha tornado mais sóbrio. E construído outra imagem, alimentada por uma conta de Twitter que já tem mais de 3.2 milhões de seguidores. Onde tanto cita filosofia como fala de livros e música e deixa, sempre, opiniões sem filtro.  

Começou a atual temporada na Escócia, com o Glasgow Rangers. Uma passagem que durou meia época e acabou antecipadamente em novembro, depois de um desentendimento com o treinador Mark Warburton. E voltou ao Burnley.

Já decorria por essa altura o processo que levou agora à suspensão de 18 meses. Apostas. A Federação inglesa investigou Barton, recuou mais de dez anos e descobriu que ele apostou em mais de 1000 jogos. Incluindo jogos da sua equipa. E incluindo apostas contra a sua equipa.

Joey Barton reconheceu-se culpado e admitiu que é viciado em jogo. Revelou que entregou mesmo à FA um relatório médico a atestar essa adição. Na longa reação que publicou no seu site oficial, expôs-se sem rodeios. Disse que cresceu num ambiente onde as apostas são regra, num testemunho que deve ser familiar a muitos britânicos, com hábitos de apostas profundamente enraízados. «Desde que me lembro a minha família deixava-me ter os meus cartões de apostas, e apostava por mim em grandes corridas como o Grand National. Até agora, raramente entro em competição sem que esteja algo em jogo. Seja no golfe com amigos por umas libras, ou num jogo de setas no centro de treinos para ver quem faz o chá», escreveu: «Adoro ganhar, também sou viciado nisso. E o futebol profissional tem há muito uma cultura de apostas, e eu estive no desporto toda a minha vida adulta.»

Reconhece que fez todas aquelas apostas e mais, 15 mil contando vários desportos para lá do futebol, mas diz que sempre com valores relativamente baixos, «média de 150 libras por aposta». E que apostou, sim, contra a sua equipa, mas apenas em jogos onde não iria alinhar. E que o fez na maioria das vezes, acrescenta, motivado pela «raiva» de ter sido excluído das opções.

Foi o próprio Barton quem fez questão de publicar, no final desse depoimento, os trinta jogos que a FA considerou mais relevantes na investigação. Metade deles são contra a sua equipa do momento. Apostava que não ganharia ou coisas mais específicas. Como, uma vez ainda no City, quando apostou que Samaras não marcaria o primeiro golo.

Os jogadores de futebol estão proibidos de apostar – em Inglaterra a proibição estende-se até ao oitavo escalão. Barton sabia disso, como toda a gente. Ainda assim apostou. Diz que tem noção de que infringiu as regras, mas também garante que deu sempre «tudo em campo», e que ficou claro nas audiências na FA que não era suspeito de manipulação de resultados. Também questionou a extensão do seu castigo, e admite que o seu passado pesou na decisão: «A pena é mais pesada do que teria sido para outros jogadores menos controversos.»

Mas Barton disse mais, ao lembrar as ligações da própria Federação e dos clubes ingleses a casas de apostas, diretamente e através de patrocínios, bem como a omnipresença de promoção a apostas em redor do futebol britânico.

«Acho que se a FA está seriamente empenhada em combater a cultura de apostas no futebol, precisa de olhar para a sua própria dependência de casas de apostas, o seu papel no futebol e nas transmissões desportivas, em vez de culpas apenas os jogadores que apostam», escreveu, lembrando como «quem quer que veja futebol é bombardeado com marketing, publicidade e patrocínios de empresas de apostas».

«Tudo isto significa que este não é um ambiente fácil para tentar deixar de apostar, ou mesmo convencer as pessoas de que apostar é errado. É como pedir a um alcoólico em recuperação para passar todo o tempo num pub ou numa cervejeira. Se a FA quer seriamente atacar as apostas, devia reconsiderar a sua própria dependência da indústria de jogo. Digo isto sabendo que, sempre que levanto a camisola da minha equipa, estou a fazer publicidade a uma casa de apostas.»

Aos 34 anos, 36 quando acabar o castigo, este parece ser mesmo o fim para o Joey Barton jogador de futebol. Se bem que ainda possa recorrer. Mas não é o fim da linha para o homem que abre o seu site oficial a apresentar-se com várias facetas, entre elas «estudante de filosofia», «fluente em francês» ou «futuro treinador». Ele continua por aí, pelo menos a dizer coisas.