O encontro começou com uma nota emocional fortíssima, a evocação da memória de Manuel Bento, no primeiro jogo do Benfica em casa depois do desaparecimento do seu antigo guarda-redes. Talvez contagiada pela intensidade dos aplausos e pela força das imagens projectadas nos écrans, a equipa de Fernando Santos entrou no jogo de forma empolgada, montando de imediato o cerco à baliza do U. Leiria.

Com mobilidade, boa circulação de bola e muitas linhas de passe, quase sempre bem aproveitadas, os remates sucediam-se, consequência natural de uma exibição muito conseguida. O golaço de Simão (16 m), num remate em arco sobre a direita, de pé esquerdo, a colocar a bola no ângulo mais distante da baliza de Fernando, foi o corolário merecido para o excelente futebol exibido nessa fase. O recital durou até aos 25 minutos, com mais duas oportunidades claras, que Nuno Gomes finalizou a centímetros do golo. Depois, como era mais ou menos inevitável, o ritmo encarnado baixou e o U. Leiria começou a equilibrar-se nas pernas.

Só então foi possível avaliar que a ambição do plano de jogo de Domingos Paciência (três unidades fixas na frente) não se ficava pelo papel. Aos poucos, com a energia de Harison como motor, os visitantes foram conseguindo ter mais posse de bola e obrigaram o sector defensivo do Benfica a trabalho atento, com o estreante David Luiz, decidido a apagar a imagem nebulosa daqueles dez minutos em Paris, a mostrar muita qualidade, no jogo em antecipação e nos passes longos.

Após o intervalo, o Benfica apostou declaradamente no jogo longo, permitindo ao adversário a subida em bloco. A circulação de bola dos encarnados já não era objectiva e aos poucos o treinador do U. Leiria começou a sentir que o jogo ainda podia dar qualquer coisa à sua equipa. As entradas de Paulo Machado e Slusarski deram mais contundência às acções atacantes, e pela primeira vez o público da Luz sentiu que a vitória não estava garantida.

Um remate de Paulo Machado, defendido de forma incompleta por Quim, originou uma saída de recurso do guarda-redes, aos pés de NGal. O guardião da Luz, único totalista da equipa, ficou lesionado, e teria de sair poucos minutos depois (71 m), o que em nada contribuiu para tranquilizar a equipa, apesar da recepção apoteótica dos adeptos a Moreira. Com o U. Leiria instalado no meio-campo encarnado, o Benfica procurava em vão os espaços que lhe permitissem sair em contra-ataque. Acumulavam-se as divididas, num crescendo de dureza que o árbitro nada fazia para quebrar. Era, nesta altura, um jogo de má qualidade, ditado pelos nervos e a ansiedade de parte a parte.

Mas se o bom futebol tinha sido protagonista nos primeiros minutos, voltou a ser um lance de magia a repor as coisas nos trilhos da normalidade: a bomba de Petit, a cinco minutos dos 90, foi o balde de água fria de que o jogo precisava para acalmar os ímpetos. E também permitiu ao Benfica um final de jogo sereno, de novo com a bola a circular os espaços a serem bem aproveitados, como no início.

Francamente infeliz a arbitragem de Paulo Pereira, mal auxiliado pelos seus assistentes, com destaque negativo para Alfredo Braga. O juiz de Viana do Castelo nunca deu a sensação de ter o jogo controlado e descontrolou-se por completo depois de um esboço de sururu, aos 78 minutos, que valeu o quinto amarelo da época para Katsouranis. Teve muitas responsabilidades naqueles feios minutos finais, a que o golo de Petit veio pôr termo.