A poucos metros do Jardim da Parada, ícone do carismático bairro lisboeta, o Sport Lisboa e Águias vai vivendo em contagem decrescente para a extinção. O clube que ainda existe no nº42 da Rua do 4 de Infantaria tem cada vez menos a ver com aquele bairro – ou, ao invés, subsiste ainda num bairro que tem cada vez menos a ver com ele... Este não é um clube de bairro cujo bairro dá sentido à sua existência; este é um clube com uma espada a descer sob o seu pescoço à medida que o bairro dele se distancia!

«Em 2010, eu disse que o clube não durava mais do que 10 ou 15 anos. Hoje, já não acredito que chegue lá...» A confissão é feita por Sérgio Coelho, o presidente da direção do Sport Lisboa e Águias. A agonia em que vive esta coletividade de 84 anos só tem no presente um fim à vista: o fatal. Quem faz parte da vida do Águias é o primeiro a senti-lo. Porque a realidade do clube com data de fundação em 1-10-1930 é cada vez mais distante daquela que existe portas fora, nos prédios recuperados, nos novos, ou nas lojas e cafés de marca registada seus vizinhos.

Já não há garotos a jogar à bola ali naquele quadriculado de ruas onde havia tempo de sobra para marcar uma série de golos antes que um carro se lembrasse de por lá passar. Hoje, o estacionamento é pago – e não por isso que é fácil estacionar o carro em Campo de Ourique. E quem domina um qualquer dispositivo eletrónico preocupa-se agora com outro tipo de tráfego, confortavelmente acomodado e alheio a esfoladelas e arranhões. Sérgio Coelho sabe isso, claro – não deixa, mesmo, de referi-lo igualmente. Estes são outros tempos. Faz parte da vida. E ele sabe também que as feridas que agora tem para sarar já não são as das suas pernas.

«Antigamente, quando éramos novos, tínhamos de arranjar coisas para fazer», recorda o presidente do clube. Chegado a Campo de Ourique quando tinha cinco anos, Sérgio Coelho não deixou passarem muitos anos até entrar no Águias. «Eu conheço o clube desde 1978. Sempre gostei do clube, foi dos primeiros onde entrei, tinha 10 anos.» E dessa época de finais de 70, princípios de 80 recorda que os sócios desta coletividade «eram 200 e tal, 300...»

«Em miúdos, juntávamo-nos aqui. O clube movimentava muita gente» naquela década de oitenta: desde os mais novos, aos homens e mulheres adultos que celebravam este associativismo com «grandes almoçaradas». «Isto estava sempre cheio», recorda a reboque de uma explicação: «O pessoal não tinha para onde ir.» O Águias estava num dos seus melhores tempos...

Fundado por um grupo de pessoas que tinha em vista um clube de natação, a sua prática nunca chegou a existir no Sport Lisboa e Águias. Curiosidades. Assim como, mesmo com este nome, o Águias «não tem qualquer ligação com o Benfica». A primeira sede, ali mesmo ao lado, na Rua de Infantaria 16, acabou por acolher, não a natação, mas o convívio dos moradores de Campo de Ourique dedicado ao futebol e ao andebol, das camadas mais jovens até aos seniores. O futebol jogado nas Salésias deu o primeiro brilho ao Águias com a conquista do campeonato nacional de amadores em 1967/68, sucedido pela final jogada no ano seguinte. E foi também no final daquela década que «surgiu o ténis de mesa, na altura, o pingue-pongue, pelas mãos de Carlos Olivença».

«Nos anos 70 e 80 houve vários campeões nacionais nas camadas jovens. Todos tinham medo de vir jogar a esta sala», lembra-se Sérgio Coelho já com o epílogo preparado: «Depois, iam para outros clubes, sobretudo para o Sporting.» Assim como também foi Carlos Olivença, que continuou a ganhar títulos, mas, agora, com um leão ao peito.

Aquela sala onde tanto pingue-pongue se jogou e o Águias tanto ganhou é agora esta sala, com cadeiras e mesas, onde está a televisão, onde falamos. É a sala Carlos Olivença com a sua fotografia a destacar-se de todas, com outras figuras do clube nas paredes também forradas a taças. É a sala que, a meio dos anos 90, há cerca de duas décadas, foi excluída dos jogos oficiais «porque não tinha as medidas oficiais então regulamentadas».

O Águias deparou-se com a passagem do pingue-pongue para o ténis de mesa – o ténis de mesa que, 20 anos depois, haveria de ver a seleção de Portugal entre as campeãs europeias. As mudanças que os anos 90 trouxeram ao país no seu todo de que faz parte o seu desporto não foram clementes para com esta coletividade e ultrapassaram-na. «O clube ainda andou cinco ou seis anos a pagar lá fora para termos modalidades» – espaços alugados ao vizinho CACO, por exemplo – tendo o andebol (sempre com reduzida expressão), o futebol e o ténis de mesa em simultâneo. Mas, até ao ano 2000, acabou toda a atividade desportiva.

Foi a esta última vida do Águias que Sérgio Coelho passou a dedicar-se também por aquela altura - depois de uma separação iniciada com o cumprimento, nos finais de 80, do serviço militar obrigatório. «Depois, regressei, casei e não parava muito cá.» Em 2000, o emprego levou-o de volta para o Águias. «Como trabalhava aqui em frente, vinha para cá à tarde e só saía à noite. E fui ajudando no que pude. E, depois, surgiu a hipótese de a minha mulher ficar com a exploração do bar».

Sérgio Coelho já não é técnico de turismo, agora é técnico de limpeza. A sua mulher tambem já não trabalha no clube, mas o atual líder do Águias nunca mais deixou de lá estar. Em 2002, entrou para a direção. Desde 2007 que é o presidente. E é como presidente que tem vindo a suportar o desaparecimento do clube, como traduziu no tal vaticínio de 2010.

Segunda casa

O passar dos anos foi trazendo outra realidade a Campo de Ourique: «Muita gente foi viver para fora, as pessoas que nasceram nos anos 90... O pessoal que nasceu nessa altura não conseguia comprar casa...» E não conseguiam permanecer no bairro quando entravam noutra etapa da vida. Campo de Ourique ia vendo o seu nome refletido nos preços do imobiliário...

Partiram muitos dos mais novos. Partiram também muitos dos mais velhos. «Fui assistindo às pessoas a irem falecendo, a não entrar mais ninguém. E fui vendo que as pessoas não se interessam...» Os que continuam também vão deixando de fazer parte: «As pessoas vão envelhecendo... E vão tendo outras prioridades.»

Atualmente, «os sócios pagantes são à volta de cinquenta», contribuindo com um euro por mês. «As pessoas que frequentam assiduamente o clube são agora entre as 15 e as 20.» Muito longe vão os tempos em que, «nos anos 60, pagavam 25 tostões para virem ver o Festival da Canção.» «O Águias tinha televisão e as pessoas, em casa, não.» A realidade é outra, para todos: «Agora, todos os sócios têm os canais de desporto em casa. Agora, juntam-se aqui seis ou sete para ver um jogo. Antes, não se podia entrar nesta sala, tínhamos de ir buscar cadeiras. Depois, todos passaram a ter Sport Tv, há a Internet...»

No dia em que ficámos a conhecer o Águias por dentro até jogava o Benfica. Mas essa tarde a meio da semana foi mais uma como tantas outras na sede praticamente vazia do Sport Lisboa e Águias. Enquanto falávamos, dois sócios estavam na sua sala, a lá de trás, a jogar às cartas. E, mesmo tendo o nome na história que estava a ser relatada, não quiseram «meter-se nisso». E continuaram como costumam, a jogar.

É às duas da tarde que o Águias abre as portas diariamente aos sócios só as fechando à meia noite. Mesmo que o encarregado de apagar as luzes nunca tenha de dar passagem a alguém antes de sair. «Atualmente, há jogos de futebol na televisão todos os dias. Mas só ficam cá três ou quatro pessoas. Depois das 11 da noite já não fica cá ninguém. Sérgio Coelho trabalha à noite e é ele quem faz o primeiro (e maior) turno no Águias. «Venho abrir o clube e saio por volta das 9 horas, depois dos jantares.» «Os poucos que cá vêm jantam comigo», revela-nos.

E conta-nos algo mais, a propósito das refeições. Os sócios já não são novos, andam nas casas (por regra mais superiores) dos entas no que à idade respeita. E há alguns – cada vez menos pela lei da vida – que seriam os mesmos sem o Águias. «Já houve mais dependentes do clube. Uns três ou quatro já morreram. Mas eles faziam tudo cá. Agora, há um ou dois, que não têm família...» É com eles, no Águias, que Sérgio Coelho faz todos os anos uma Festa de Natal e também uma de Ano Novo. Com os que não têm mais ninguém e «com as pessoas que não vão para a terra». Esta já é, ou ainda é, «a segunda casa deles».

E é deles de facto. O Águias é o proprietário deste rés-do-chão onde, além das duas salas já referidas há mais uma para a direção, outra para as taças e zona do bar. O consumo de comida e bebida no clube, com «lanches, jantares e umas cervejas», é uma das maiores ajudas ao suporte das despesas mensais «na ordem dos 350 euros», com «água, luz, TV por cabo, o Canal Benfica...» Além da «quotização irrisória para as despesas que se tem», há mais algum dinheiro com os baratos das cartas e o restante que surge da «boa vontade»...

Sérgio Coelho afirma que, para inverter esta tendência para a extinção, «tem de haver a junção de várias coisas». O presidente do clube diz ser necessário «revitalizar» as ofertas, «pôr isto para a malta jovem». «Quem quer tornar-se membro de uma coletividade que não tem nada para oferecer?», pergunta. E responde: «Temos coisas mais baratas (uma mini é 60 cêntimos), mas os putos novos querem é o Facebook...» «Nós fomos criados de uma forma que tínhamos de encontrar coisas para fazer. Hoje, tudo o que se precisa tem-se em casa.» O investimento numa mesa de snooker pode ser uma hipótese para contornar «o que havia antes», como «o convívio, a camaradagem», que «desapareceram».

E, entre as várias coisas necessárias a juntar, há uma essencial que o líder do Águias não se esquece de frisar: «Sem desporto não há apoios autárquicos.» E já se sabe que, sem espaços próprios, é preciso alugá-los. A ironia da má sorte do Águias passa pelo facto de a estrutura municipal existente na freguesia ser adequada à prática da natação que o clube nunca teve: as piscinas de Campo de Ourique (sob gestão do Ginásio Clube Português). Mas o pavilhão – também previsto desde a década de 80 – nunca ganhou sequer forma.

Num tempo em que, inapelavelmente, é «obrigatório isto, depois aquilo», só as estruturas fortes e consolidadas aos dias de hoje, como uma Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo, ou o CACO (Clube Atlético Campo de Ourique), conseguem existir por aqueles lados. Sérgio Coelho tem-nos como exemplos, assim como também refere os que deixaram de existir bem ali ao lado, como o Cabanas do Viriato, nos meados de 90, ou o Sport Lisboa e Campo de Ourique «há uns sete anos».

O Águias vive contra esse destino que é o seu atual horizonte. O último sócio recebido pelo clube «entrou há cinco ou seis anos». «Tem cerca de 60 anos e vem cá.» Mas o presidente de uma direção de sete membros conta também que já houve assembleias gerais «com menos de uma dezena de sócios». «Na última estavam doze», diz para frisar a regra.

Consciência do destino previsto não é, porém, conformismo com o mesmo. Sérgio Coelho recusa acelerar a marcha deste tempo já implacável na sua previsão: «As pessoas que já falaram em fechar são as que só aparecem para desestabilizar. É muito fácil virar as costas e ir embora. E não querer fazer qualquer coisa.» O presidente do Águias já nos confessou que não sabe qual a solução que precisaria de ser encontrada para evitar o final antevisto. Mas, entretanto, assegura que o Águias continua «conforme vai dando para ter a porta aberta», Ou seja, «vai-se deixando acabar...»