DESTINO: 90s é uma nova rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 90s.

BALTAZAR, FC PORTO: 1990/1991

«Acusavam o Futre de ser egoísta. Mentira. Marquei 35 golos às custas dele». Baltazar, assim, sublinha a relação «extraordinária» com o homem que o convenceu a assinar pelo FC Porto em 1990. «Como está o Paulo? Que coração esse rapaz tinha!»

Vamos à estória. Baltazar e Futre dividiam as despesas do ataque no Atlético Madrid. [Havia ainda Manolo, mas esse não entra aqui]. Entre 1988 e 1990 foram colegas de quarto. «Depois chegou o Bernd Schuster», conta o ex-ponta-de-lança brasileiro, e «tudo se alterou». «Só havia vagas para quatro estrangeiros e o alemão ficou com a minha». 

«Rescindi o acordo com o Atlético Madrid e o Futre disse-me que o FC Porto tinha um lugar para estrangeiro, pois vendera o Branco. Contou-me maravilhas do clube, conversei com o senhor Pinto da Costa e decidi aceitar o desafio», explica ao Maisfutebol.

O que parecia ser um reforço de peso para os dragões e uma oportunidade excelente para Baltazar revelou-se uma relação infrutífera. «A equipa tinha um plantel fantástico, mas era muito inconstante», lamenta Baltazar, a partir de São Paulo, 22 anos depois.

É nesse ano de 1991, de resto, que o campeonato nacional se decide nas Antas e a favor do Benfica: 0-2, golos de «um tal de César Brito». Baltazar entra ao intervalo para o lugar de João Pinto, mas pouco ou nada leva ao jogo.

«Já foi há muito tempo. Lembro-me do estádio estar repleto, a rebentar, e dos berros no final. No balneário vários colegas meus gritavam «não vamos ser campeões por culpa do César Brito»? Eu nem o conhecia, mas ele foi o herói nessa tarde».

28 de abril de 1991. Quase 90 mil almas nas bancadas. O empate bastava ao Benfica mas, aos 81 e 85 minutos, César Brito estilhaçou o jogo. Falou-se do cheiro a aguardente, de agressão a Carlos Valente, de um tal guarda Abel. Disso, Baltazar pede para não falar.

«A rivalidade era doentia, enorme. Nunca me esquecerei do ambiente de tristeza e revolta no nosso balneário».

Baltazar partiu para o Rennes (França) no final da época. Deixou para trás a tal rivalidade doentia, três míseros golos, um par de boas exibições e o «respeito por Pinto da Costa».

«Ele ainda é o presidente do FC Porto? Que homem! Ia muitas vezes falar com o grupo, sempre muito educado. Todos os jogadores tinham uma admiração incrível por ele, como se fosse uma personagem divina».

Baltazar, o Artilheiro de Deus, não encontrou a paz do Senhor no FC Porto.

Os 35 golos do artilheiro de Deus: