Domingo à tarde é uma nova rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.

 

Lutou, viveu o sonho para o qual sempre trabalhou e agora está de regresso aos jogos típicos de Domingo à tarde e à divisão que foi a sua durante grande parte da carreira.

Rui Rêgo é um nome que não deverá passar despercebido à maior parte dos adeptos do futebol português, sobretudo aos do Beira-Mar, já que foi ele o último guarda-redes enquanto o clube teve uma SAD e foi profissional. Em suma, os últimos anos do histórico Beira-Mar de primeira.

O guarda-redes, em conversa com o Maisfutebol, recorda os três anos de I Liga nos aveirenses, únicos na carreira, a aposta de Leonardo Jardim e a final da Taça de Portugal ao serviço do Desp. Chaves.

«Foi ele que apostou em mim, fez força para eu ir para o Beira-Mar. Acreditou em mim e pôs-me a jogar, não me posso esquecer disso», disse sobre o atual técnico do Monaco.

Foi no verão de 2010 que o treinador madeirense chamou Rui Rêgo para os aurinegros e lhe proporcionou a oportunidade que nunca teve de jogar no escalão máximo do futebol português.

Tinha 30 anos.

«Podia ter chegado mais cedo, mas cheguei a tempo. Há outros meus colegas que tinham muita qualidade e acabaram até por não chegar, o futebol é mesmo assim. Às vezes temos sorte, outras vezes não. Depende das oportunidades. Procurei mesmo com 30 anos, e mesmo sabendo que não tinha muitos anos pela frente, aproveitar ao máximo e justificar a aposta.»

Leonardo Jardim deu-lhe a possibilidade de jogar na I Liga, ao serviço do Beira-Mar.

Assim foi. Rui Rêgo agarrou o lugar, foi totalista no campeonato e um dos menos batidos. Nesse ano, o Beira-Mar sofreu 36 golos (em 30 jornadas) apenas mais cinco que Sporting e Benfica.

«Foi uma boa época de estreia, numa equipa formada por muitos jogadores de II Liga, alguns emprestados de I Liga. Montámos um grupo forte e o mister Leonardo Jardim teve um papel importantíssimo nessa escolha de jogadores e no facto de nos tornarmos uma equipa forte. Fizemos um excelente campeonato, tranquilo.»

A admiração por Leonardo Jardim é grande, mas os dois não se conheceram em Aveiro:

«Nunca mais me esqueço, conheci-o no Desp. Chaves, estávamos na II Divisão B (2007/08) e ele disse isto logo na primeira palestra: ‘O meu obejtivo é chegar à I Liga em cinco anos porque senão volto para a Madeira’».

Jardim chegava para substituir a meio da época António Borges e Rui Rêgo e os companheiros perceberam logo ao que vinha o novo treinador: «Nós sentimos ali que ele era ambicioso, que acreditava nele e no que estava a dizer. A prova disso é que ele chegou lá facilmente, porque ele trabalha, tem qualidade e merece. É um treinador que acredita bastante no seu trabalho, que escolhe muito bem os jogadores, que teve e tem um ótimo relacionamento com todos o que é importante. Hoje é o treinador que é e vai continuar a ter sucesso.»

O «sonho» que aconteceu tarde, mas muito a tempo: deu até para o Jamor

Leonardo Jardim foi o homem que o fez concretizar o sonho, para o qual tinha começado a trabalhar em Braga.

Fez a formação no Sp. Braga, mas nunca ‘deu o salto’: «Joguei lá nos escalões jovens, estive na equipa B. Depois há uma altura em que ou subimos à equipa principal ou então temos que fazer outro caminho. Na altura não se proporcionou subir à equipa, então decidi sair. A equipa B tem um timing de idade, não pode ser para sempre. Segui o meu caminho por outro lado.»

Saiu dos arsenalistas em 2003 e foi para o Marco. Será que o guarda-redes pensou que estava a afastar-se do sonho?

«Dar um passo atrás era continuar onde estava, mesmo sabendo que não havia muitas possibilidades de subir. A minha esperança era jogar, mesmo que fosse numa equipa de divisão inferior, tentar jogar bem e mostrar-me. Se surgisse a oportunidade de subir ia agarrar, como acabou por acontecer.»

De 2003 a 2007 representou Marco, Valenciano, Felgueiras, Torre de Moncorvo, Valdevez e Lixa: «Andei a saltar de clube para clube. Nestas divisões não é fácil, às vezes são instáveis e não têm boa estrutura. Andei a saltar e surgiu a possibilidade do Desp. Chaves, aí estabilizei. Também foi aí que as coisas se tornaram mais profissionais, mesmo sendo em divisões inferiores.»

Três anos nos flavienses, subida no segundo ano com Leonardo Jardim ao leme e final da Taça de Portugal no ano seguinte, apesar da despromoção da II Liga.

No Desp. Chaves encontrou o equilíbrio, o rendimento e um treinador que lhe daria o passaporte para a I Liga. Para além disso, foi pelo clube de Trás-os-Montes que jogou o encontro mais especial da carreira: a final da Taça de Portugal em 2009/10.

«É o momento alto para qualquer jogador, poder jogar no Jamor. Tive esse privilégio, ainda por cima estávamos na II Liga. Esse jogo e mais alguns na I Liga foram os pontos mais altos, mas esse no Jamor é especial.»

O Desp. Chaves perdeu a final por 1-2 com o FC Porto. Fredy Guarín e Radamel Falcao marcaram na primeira parte para os Dragões, Clemente reduziu perto do fim. Bruno Alves ainda seria expulso nos azuis e brancos, mas não deu para mais.

«O FC Porto estava recheado de extraordinários jogadores, a frente de ataque era só craques. Podiam ter resolvido o jogo mais cedo, não resolveram e nós reduzimos. Tivemos a esperança que podia ser possível ir a prolongamento. O Desp. Chaves era inferior, nós sabíamos que era muito difícil. Tentámos com a nossa garra e determinação levar o jogo até ao fim e foi importante dar essa incerteza.»

São 36 anos, é quase impossível voltar à I Liga. Inconscientemente ainda tenho esse sonho

Os tempos de I e II Liga passaram. O «seu» Beira-Mar caiu em 2012/13 para o segundo escalão e o guarda-redes seguiu com o clube. Confirma que houve abordagens, mas tinha contrato e as pessoas «fizeram força para que continuasse».

Mais dois anos a representar os aveirenses, só que o pior aconteceu. O clube fechou portas e Rui Rêgo assinou pelo Vilaverdense, clube da AF Braga que atua no Campeonato de Portugal.

«A minha família mora em Braga. Os miúdos cresceram e começaram a ir para a escola, a minha esposa estava sozinha com eles e então foi uma decisão em família. Na altura tinha 35 anos e estava a pensar que ou jogava mais um ano na II Liga longe de casa ou voltava e começava a pensar mais no futuro e ajudava mais em casa. Em família decidi voltar e houve a oportunidade de ir para o Vilaverdense, que era um clube que eu conhecia, onde tinha colegas que já tinham jogado comigo e que sabia que ia fazer uma boa equipa.»

Fez uma temporada e neste defeso assinou pelo Merelinense, que está a surpreender todos neste início de época. Subiu dos distritais em 2015/16 e neste regresso ao Campeonato de Portugal segue invicto e na liderança.

«O clube é estável, tem uma boa estrutura, preparou-se para este ano e para um bom campeonato. Temos uma mescla de jogadores experientes com jovens, penso que estamos bem preparados. A prova disso é o campeonato que estamos a fazer e o nosso grande objetivo é ficar nos dois primeiros lugares, até pelo que a direção nos passou.»

Ficar na primeira fase nos dois primeiros lugares dá direito a disputar a fase de subida e é mesmo isso que querem. Para já tudo de feição: melhor defesa da série (cinco golos sofridos), segundo melhor ataque (21 marcados a dois do Bragança).

Jogou 3 anos na I Liga, agora aos 36 ainda sonha inconscientemente com isso

Rui Rêgo diz que a sua experiência é importante para os mais novos, mas recusa protagonismo pelos números alcançados: «Ninguém marca golos sozinho nem ninguém evita golos sozinho. Temos marcado bastantes golos e temos sofrido muito poucos. O equilíbrio entre o ataque e a defesa tem sido o segredo. Defender a baliza é um trabalho que começa nos avançados e termina na defesa, todos temos uma quota de responsabilidade.»

O guarda-redes quer continuar assim para alcançar este primeiro objetivo, num Campeonato de Portugal muito diferente do que deixou em 2007/08. Viver do futebol é quase impossível: « É muito difícil, tanto é que treinamos à noite. Muitos jogadores trabalham, não há muito dinheiro, os subsídios que pagam dá para pouco. Não é fácil viver só do futebol.»

Esse é um dos problemas que os futebolistas neste nível enfrentam, Rui Rêgo deparou-se com outro:

«Agora já não tenho o dia todo livre. Quando estava no Vilaverdense não consegui arranjar nada para fazer durante o dia e a cabeça já não estava bem, já não andava muito direita, sentia-me inútil. O meu irmão tinha uma loja de desporto em Viana do Castelo e em setembro abrimos outra loja em Braga. Estou na loja durante o dia e à noite vou treinar. Tenho o tempo mais ocupado, estou melhor.»

Aos 36 anos ainda não pensa no fim e o facto de ter tido uma carreira sem lesões graves faz com que se sinta bem para seguir sem pensar em data de validade. Sabe que gostava de treinar guarda-redes no futuro, mas ainda não pensou «a fundo» nisso.

Ser novamente profissional pode depender desta temporada. Se o Merelinense subir à II Liga, teremos Rui Rêgo de regresso aos grandes palcos. Sobre voltar a atuar na I Liga, é outra história, mas é isso que o faz treinar todos os dias.

«Na minha cabeça ainda acredito que é possível e é isso que me motiva todos os dias para ir treinar, agora à noite, com frio, chuva. O que me dá vontade de ir é eu inconscientemente achar que é possível, senão nem ia. Se conseguirmos subir e me convidarem para continuar, aceitaria e voltaria a ser profissional.»

«Pensando conscientemente digo-lhe: já são 36 anos, é quase impossível voltar à I Liga, mas inconscientemente ainda tenho esse sonho. É isso que me faz sair de casa, deixar os miúdos e ir fazer o que gosto.»

Rui Rêgo titular, Oblak suplente

Vamos introduzir Jan Oblak à conversa.

Não, o esloveno não é o ídolo nem referência de Rui Rêgo. Aliás, Oblak tem menos 13 anos que o veterano que alinha no Merelinense.

Então onde é que o ex-Benfica e titular do Atlético de Madrid entra na carreira de Rui Rêgo?

Em Aveiro, no Beira-Mar.

No primeiro ano no clube, os dois faziam parte do plantel de Leonardo Jardim, embora o esloveno só tenha estado na primeira metade da temporada.

Oblak, com 18 anos, vivia na sombra de Rui Rêgo e fez apenas dois jogos para a Taça de Portugal. Apesar da condição de número dois, o português não tinha nenhuma dúvida nem se surpreende com o progresso do agora titular no vice-campeão europeu.

«Não me surpreende nada, nada mesmo. Na altura tinha 17/18 anos e nós víamos nele muita muita qualidade. Falávamos entre nós e dizíamos para ele continuar a trabalhar que ele ia chegar ao topo. Já na altura sabia que tinha muita qualidade, só precisava de jogar e ganhar maturidade, como era normal. Sabíamos que facilmente chegaria a um clube top e já chegou, já é um dos melhores e vai continuar a ser nos próximos anos.»

Aos filhos e netos, Rui Rêgo pode dizer que relegou «um dos melhores do mundo» para o banco. Ri-se com a afirmação, mas prefere dizer outra coisa: «Ele era jovem, eu é que comecei a jogar e as coisas estavam a correr bem. Não havia muita necessidade de trocar. Não digo isso, digo que tive o prazer de trabalhar com ele, não tem nada a ver com jogar ou não jogar.»

E depois confessa: «Às vezes falo com ele. Dava-me muito bem com ele e dizia-lhe que ia chegar lá. A minha maior alegria é poder dizer que partilhei balneário com ele e que ele agora está lá em cima.»

Para recordar, para além do convívio com Jardim, Oblak e a final da Taça de Portugal, Rui Rêgo tem duas defesas especiais: «Lembro-me de ter defendido um penálti na Luz ao Rodrigo (2012/13) e um penálti em Alvalade ao Van Wolfswinkel (2012/13). Essas ficam na memória por ser em estádios grandes perante muitos adeptos.»

Agora defende penáltis de outros jogadores, em estádios mais pequenos, mas a ambição é a mesma. Aos 36 anos continua com o mesmo sonho, embora inconsciente: chegar novamente ao topo!

Quem sabe...

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