Pedro Barbosa foi a Vila do Conde para uma entrevista sem filtros com Tarantini. O médio, de 35 anos, que cumpre a décima primeira temporada no Rio Ave, garantiu que ainda não sabe quando vai terminar a carreira e que só o fará quando sentir não ter mais forças.

Pelo caminho diz que gostava de ser treinador e que sente que vai conseguir chegar a um patamar no banco ao qual não chegou como jogador. Provavelmente vai até conseguir cumprir o sonho de ganhar um título.

Também diz que os jogadores, apesar de toda a informação, continuam a não se preocupar com o pós-carreira, e que ele, que já tirou uma licenciatura e um mestrado, e está a tirar um doutoramento, não consegue perceber isso.

De resto, e como diz o título, elogia Nuno Espírito Santo. Garante que foi o treinador que marcou a geração atual do Rio Ave e que foi ele que levou a equipa para um patamar superior, que ainda se mantém até hoje.

Venha daí nesta viagem.

Ricardo, soa estranho não é?

Já começa a soar, sim.

Mas Tarantini não é o teu nome...

Não, é alcunha.

E como é que surgiu?

Sempre fui muito propício a alcunhas. Mesmo no tempo da faculdade, quando tinha o cabelo mais comprido, chamavam-me Zlatko Zahovic. No tempo de juniores, tinha um treinador que gostava de colocar alcunhas e achava que eu era parecido com o Alberto Tarantini, defesa esquerdo da seleção argentina. Aquilo foi pegando, foi pegando, os colegas, os treinadores, todos me chamavam Tara ou Tarantini. Hoje em dia até a minha a minha esposa me chama Tarantini.

Chegaste ao Rio Ave em 2008 e vais na décima primeira época. Não é normal os jogadores estarem tanto tempo num clube, o que me obriga a perguntar: aos 35 anos, o que te move?

O sentimento de que ainda sou útil. Sentir o cheiro da relva, ter aquela sensação de jogar.

Não há melhor vida do que essa.

Não há melhor vida. É a melhor profissão do mundo. Para além disso, sinto que ainda me falta conquistar alguma coisa. Pelo trajeto no Rio Ave durante estes anos todos, sinto que me falta um título. Falta aquele título que gostaria, enquanto jogador, de levantar. Isso traz-me uma sensação estranha, porque quando comecei esta vida de jogador nunca pensava chegar à Liga e talvez por isso nunca tenha pensado em títulos. Mais tarde na minha carreira dei comigo a imaginar um título. Eh pá, se calhar eu consigo lá chegar e consigo levantar um título. É isso que fica.

Isso tem a ver com o crescimento, desportivamente falando, do Rio Ave. Como tens vivido essa realidade e como integras os jogadores que chegam?

O Rio Ave é um clube familiar e olhámos um pouco para os jogadores que vão e depois voltam, porque espelham aquele sentimento de gostar do clube, aquele sentimento de pertença ao Rio Ave. Há pessoas no clube que deixam marca nos jogadores. Por isso as pessoas têm vontade de voltar, porque sabem que aqui vão sentir-se bem. Isto é que marca esta geração de Rio Ave.

Tu também sentes que marcas...

[interrompe] Sinto, sinto.

Sentes que marcas o Rio Ave?

Sem dúvida, sem dúvida.

Pela tua posição no clube?

Sim. Claro que não é desde o início. As coisas foram acontecendo, já são onze anos, não é? É muito tempo. Por isso dei por mim, às vezes, a ligar para alguns jogadores para lhe dizer «queremos-te aqui». Sinto-me imbuído deste espírito.

Queres que eles façam parte desta família, não é?

Completamente. Não acredito que no futebol seja sempre assim, mas nós aqui valorizamos muito a pessoa.

E tu ao longo deste tempo tiveste oportunidades para sair e disseste que não, que preferias ficar aqui, ou não tiveste de todo?

Eu tive algumas propostas, sobretudo para o estrangeiro. De Portugal nunca tive uma proposta que sentisse que era melhor em termos de carreira. Para fora tive algumas propostas, uma delas levou-me a estar uma semana no Irão, mas cheguei à conclusão que não era aquilo que eu queria. Por vezes vemos a trajetória de jogadores que saem para o estrangeiro e regressam muito rapidamente, e não era isso que eu queria. Depois da experiência no Irão, então, comecei a perceber que havia coisas mais importantes do que o dinheiro. Pensei que se tivesse de ganhar dinheiro, tinha de ser pela minha competência, e não apenas por aquele crescimento rápido. «Agora vou lá para fora ganhar dinheiro». Não, isso não. É aqui que me sinto bem.

Tens 35 anos, lançaste um livro, estás num projeto de ensino, recebeste um prémio pela ética no desporto, por tudo isto já pensaste no pós-carreira de jogador?

Eu penso nisso desde que comecei a jogar futebol. A verdade é essa. Porque eu não sabia se ia ser jogador de futebol.

E por isso estudaste, tiraste o teu curso de Ciências do Desporto, tiraste o teu mestrado também e agora estás a tirar o teu doutoramento...

Exatamente. Por isso o pós-carreira foi algo que eu fui construindo. Isto tem também um grande peso da família e da pressão positiva para estudar. O futebol foi caminhando lado a lado com isto. Sentia que conseguia fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Muitas vezes há a ideia que o jogador não pode estudar para se dedicar a cem por cento ao futebol e não prejudicar a carreira.

Eu não acredito nisso. Há momentos em que temos de nos focar: há semanas europeias, há alturas em que andamos mais cansados, enfim. Aí temos de nos concentrar na nossa profissão. Mas há outros momentos em que temos tanto tempo livre… E podemos fazer do nosso tempo aquilo que nós quisermos. Eu sempre me foquei em ocupar esse tempo para a minha formação, para me qualificar, porque eu sei que um dia isto vai acabar e vai haver mais vida para além disto. E é esse sentimento que tento passar: mostrar aos jogadores que isto não acaba, que isto vai continuar. Tu já foste jogador, fizeste uma carreira espetacular e sabes que isto vai continuar.

Eu daqui onde estamos consigo ver os bancos de suplentes. Imaginas-te ali?

Vou ser sincero: neste momento imagino. E imagino porque enquanto jogador não consegui chegar a um patamar mais alto e falta-me isso. Falta-me sentir algo mais. E acredito que vai ser na função de treinador que vai acontecer. Não sei se vai, mas acredito mesmo muito nisso. Também por isso em determinada altura comecei a preparar-me: tirar os níveis do curso de treinador, perceber o jogo e reconhecer a importância de alguns treinadores na minha carreira.

Um jogador apanha muitos treinadores na carreira. Há algum que te marcou de forma especial?

Todos os treinadores marcam, seja positiva e negativamente. O falhanço também é feedback. Mas houve de facto uma pessoa que marcou uma geração no Rio Ave e que me marcou a mim: o Nuno Espírito Santo. O Nuno trouxe para o Rio Ave um novo pensamento para o jogo, para retirar dos jogadores mais rendimento. E eu senti isso em campo. Também foi nessa altura que comecei a tirar o meu mestrado, para perceber melhor o que acontece lá entro, e comecei então a tornar-me um jogador mais inteligente.

Como transportaste isso para a forma como fazes a gestão do tempo, a gestão da bola, a gestão das tuas ações, enfim, para a forma como percebes o jogo?

Eu penso muito o jogo no espaço e no tempo. Estudei isso, mas no jogo não sentia isso. A partir do momento em que começo a perceber pelos exercícios, pelos timings, pelo espaço que eu tenho do colega, pelo espaço que tenho do adversário, pelo tempo que eu tenho, então aí comecei a perceber um futebol diferente. Não é o correr pelo correr, mas é o correr para ganhar.

O correr certo, não é?

O correr certo, precisamente. No fundo é espaço e tempo. Quando começamos a perceber isso, tomamos melhores decisões. O futebol é mesmo isso, boas ações e más ações. E essa perceção eu comecei a tê-la com o Nuno. Tornei-me mais crítico e deixei de correr só por correr.

Vamos voltar um bocadinho atrás: os jogadores não têm muito a preocupação de ver o futuro a seis, sete, dez, doze anos, vivem o momento e o momento é o jogo. Sentes que o teu projeto, que é extraordinário, chega lá, atinge essa sensibilidade dos jogadores?

Acredito que a nossa geração não tinha esta informação que existe hoje em dia. Nós não vivemos uma altura em que as pessoas dissessem: atenção ao pós-carreira. Esta geração atual não, esta geração já tem mais informação, já percebe, já vê gente que dá a cara. Agora não há desculpa. Mas no meu balneário isso não existe: continuo a achar que a malta não quer saber.

Aquilo que te rodeia não é um bom indicador, portanto...

Não é a realidade que as pessoas vendem, isso não é. Essas pessoas vivem noutro lado. Os balneários que vão passando por mim mostram-me que a malta continua a não se preocupar.

Neste círculo mais próximo, qual é a tua mensagem?

Eu tenho feito a minha parte, tenho levado esta causa a muita gente. Gostaria de ter mais contacto com os profissionais de futebol, mas não é fácil agilizar as coisas. Tenho estado mais em palestras motivacionais com empresas, escolas, clubes. Já no balneário, tem tudo a ver com as conversas que vamos tendo no dia a dia. Mas nós conversámos, se calhar fica lá a remoer aquilo, mas no fundo tudo passa. Não é uma mensagem fácil de digerir: o que vou fazer, o que é preciso? Eu tenho a minha formação, posso dar aulas na faculdade. Mas também gosto de cozinhar. Se no fim da carreira achasse que era isso que queria fazer, eu ia tirar um curso. Ou seja, há várias coisas que podemos fazer e cada um tem de ir buscar o melhor de si.

Temos vários exemplos, de várias gerações, que o pós-carreira não tem sido...

Deixa-me só acrescentar o ponto que, para mim, é fundamental: se formos ver os dados da NFL, da NBA, da Premier League, enfim, das grandes competições, e constatámos que os jogadores que ganharam mais dinheiro no desporto após o final da carreira apresentam resultados financeiros terríveis. No espaço de dois, três, quatro anos apresentam falência. Isto não tem nada a ver com dinheiro, não tem nada a ver com ganhar mais dinheiro para pensar que vai dar até ao final da vida. É falso. Por muito dinheiro que ganhem, não vai chegar. Por muito ou pouco que ganhemos, o essencial tem a ver com a gestão: com as nossas escolhas, as nossas opções. Há a ideia de que se ganharmos muito dinheiro isso vai resolver-nos todos os nossos problemas, mas isso não existe. Não é real. Embora o futebol traga essa ilusão.

Tem tudo a ver com as escolhas que fazemos, não é?

O dinheiro que se ganha no futebol costuma ser visto como uma oportunidade, mas pode ser uma ameaça muito grande. Eu tento falar disto, dar exemplos, mas não é fácil. O desporto gosta muito de coisas gratuitas e o mundo empresarial, por exemplo, entende muito melhor estas questões.

Por falar em escolhas, tu marcaste 33 golos ao longo destes onze anos no Rio Ave e marcaste oito golos em 2012/13. Tens algum que te marque?

Há um golo, sim: aquele segundo golo ao FC Porto aqui em casa é um golo que dava contrato em qualquer clube do mundo, só que ninguém viu o golo. [risos] Mas esse segundo golo ao Helton foi fantástico. O FC Porto acabou por empatar no último minuto, mas foi um golaço.

E superstições, tens alguma coisa?

Não, não tenho. Nos momentos maus aparece ali qualquer coisa, mas não tenho.

Tens mais um ano de contrato, não é?

Sim. Foi aquilo que falámos há pouco. No dia em que me levantar e não sentir a força para treinar, vai ser o dia em que vou parar. Tenha eu o contrato que tiver. O importante é entrar no balneário e sentir que sou útil para a equipa, seja de uma forma ou de outra, e eu ainda sinto muito isso.

O que é para ti o papel de capitão?

Há uma coisa que comecei a compreender numa fase mais avançada da minha vida: nós não podemos mudar aquilo que somos enquanto capitães de equipa, se não depois não vai bater uma coisa com a outra.

Entendo-te: não é por seres capitão que vais mudar a pessoa que és.

Essa é a base. Não posso ser uma boa pessoa, uma pessoa de abraço, e depois porque me tornei capitão ser uma pessoa que entra maldisposta no balneário. Não bate certo. Eu sou uma pessoa normal e tento passar através da minha personalidade as ideias que um capitão deve passar: a responsabilidade e perceber que o todo vai prevalecer sempre em relação às individualidades. Não é fácil no Rio Ave. Acredito que num clube maior há outros fatores que ajudam um capitão a ser capitão. O peso dos adeptos, por exemplo, ajuda um capitão a ter responsabilidade. Aqui isso não existe. É um trabalho muito de dentro para fora e não de fora para dentro. Não é fácil.

Não perca, esta sexta-feira à noite, no programa Maisfutebol, na TVI24, a entrevista em vídeo com Tarantini, com uma viagem guiada a um dia de trabalho do Rio Ave.

(artigo originalmente criado às 23h56 de 21 de fevereiro)