Quem nos falou assim conhece bem Rui Fonte. Pode dizer-se mesmo que o conhecerá como só ele conhece. Artur Fonte foi também ele futebolista de carreira atravessando as décadas de 1970, 80 e 90. É o pai de Rui Fonte e de José Fonte – o irmão de Rui que joga no Southampton. Ao Maisfutebol, Artur Fonte explica aquela normalidade de que nos falou: «É um miúdo que precisa de ter a confiança do treinador para abrir o livro.»

Lito Vidigal tem dado essa confiança, como se vê pela titularidade nos dois jogos possíveis. Rui Fonte tem correspondido: assistiu Carlos Martins para o golo que deu três pontos ao Belenenses em Guimarães na 20ª jornada; e (curiosamente, com Martins castigado) marcou o golo que abriu o marcador no jogo com o Sporting desta última ronda tornando-se figura da jornada 21.

Rui Fonte teve a confiança do treinador do Belenenses e está a abrir o seu livro na I Liga. Depois do «infortúnio que teve no primeiro jogo pelo Benfica [B], ao se ter lesionado [faz agora dois anos], com um ano praticamente parado devido à recuperação», seguir para o Restelo foi a melhor decisão.

O seu pai classifica de «muito boa» a escolha pelo Belenenses, tida «em conformidade com o treinador Jorge Jesus e com o presidente Luís Filipe Vieira». Rui Fonte «teve vários convites para sair». «Chegámos à conclusão de que era bom ir para o Belenenses, para jogar [na I Liga]», conta Artur Fonte.

Artur Fonte revela ainda que «Lito Vidigal gosta dele», pois o treinador do Belenenses «aprecia as qualidades do avançado», que «estão a vir ao de cima». «Não é por ser meu filho, mas ele tem qualidades para jogar ao mais alto nível. É só ganhar confiança para mostrar essas qualidades», considera Artur Fonte, que já tem um filho internacional por Portugal – o defesa do Southampton José Fonte – e não descarta ter outro.

«É tudo possível no futebol. Desde que ele mostre, é possível. Tem potencialidades», diz Artur Fonte a respeito de Rui mostrando toda a confiança no filho mais novo: «Vai lá chegar. Porque é trabalhador.» «E desde que apostem nele», reforça o pai, pois, como lembra, «pontas de lança como o Rui há poucos em Portugal». E ter os dois filhos em simultâneo na Seleção? É um sonho ainda controlado: «Era giro encontrarem-se lá os dois.»

Futebolista com filhos futebolistas, o mais normal é que os jogos dos irmãos Fonte mereçam uma análise especial por parte do pai. «Eu gosto de lhes dizer o que esteve bem, o que esteve mal. Tiramos impressões. De fora vê-se as coisas de outra maneira, digo-lhes tens de estar melhor aqui e ali...», conta Artur Fonte, com um «sentimento especial» por Rui estar agora no Belenenses.

Belenenses 1984-85 (fotografia do site do Belenenses): Artur Fonte é o terceiro da primeira fila

«Joguei lá quatro anos ao mais alto nível», recorda. «Disse-lhe logo: Vai para o Belenenses. É um bom clube. Está a ser bem gerido.». Para além do clube do Restelo, o pai Artur e o filho Rui Fonte partilham ainda mais dois clubes na carreira: Sporting e V. Setúbal. O golo de Rui Fonte contra os leões no sábado passado não deixou, por isso, de ter um sabor especial: «Uns passam e outros ficam. Mas isso é a vida, é o futebol. Cada um segue o seu caminho: não há que ficar no passado, o que conta é o presente.»

Rui Fonte «não tem [por isso] de ter pressão» quando ocupa agora um lugar que era de Deyverson – marcador de oito golos pelo Belenenses em 16 jogos da Liga. «O Rui tem é de ter confiança e fazer o melhor a 200 por cento com o Belenenses, que é a camisola que veste a agora.» A frase que descreve o avançado surge então: «É um miúdo que precisa de ter a confiança do treinador para abrir o livro.»

«Porque ele tem qualidade acima da média», considera Artur Fonte lembrando o que o seu filho «já mostrava» quando foi para o Arsenal com 16 anos. «Ele tem tudo. Tem é de jogar; não apenas [fazer] três ou quatro jogos», garante o pai de Rui Fonte, que não olha só para os seus «O filho do Domingos, o Gonçalo Paciência, esse é outro que está na calha e que aquilo de que precisa é de oportunidades para jogar.»

Quando as coisas não se passam daquela forma, «depois [vão lá para fora», diz Artur Fonte numa crítica à falta de oportunidades dadas aos jogadores portugueses. E para reforçar o que diz, refere outro exemplo muito próximo: «É o que aconteceu com o José Fonte. Aqui era só pontapés para a frente. Viu-se. Com o trabalho, chegou lá. E não é todos os dias que se é capitão de equipa em Inglaterra.»