Até aqui tudo normal, o guardião que é primeira escolha está limitado fisicamente e, por isso, entra o habitual suplente. Mas este não é um suplente qualquer. É um que regressa a «casa» oito anos depois, à procura de cumprir o sonho de infância.

31 de outubro de 2015 será o dia que Kiko Casilla sempre sonhou desde que chegou a Madrid com 14 anos.

Cedo perceberam em Valdebebas que havia muita qualidade no guardião e rapidamente foi chamado às seleções jovens. Aliás, tornou-se internacional em todas as categorias e até Vicente Del Bosque já o chamou à  Roja.

Mas antes da primeiro internacionalização A houve um longo caminho a percorrer. Depois da chegada à capital, vindo de Pampolona, Casilla foi jogando na formação  merengue. Impôs-se no Real Castilla, equipa B do conjunto madrileno, mas uma lesão travou-lhe evolução e roubou-lhe o lugar, que passou a ser discutido por Codina (APOEL) e Cobeño (Rayo Vallecano).

Na época seguinte, em 2006/07, apareceu António Adán (Lembra-se? Foi aquele que, com Mourinho, acabou por relegar Casillas, o Iker, para o banco de suplentes) e Casilla voltou a não conseguir ser titular.

Mesmo assim, Fabio Capello, treinador principal, chamou-o várias vezes para treinar com craques como Beckham, Robinho, Ronaldo e Cannavaro e com as lendas Raúl e Iker Casillas. Funcionava como 3º guarda-redes, mas com 21 anos queria jogar mais e por isso, no final da temporada, rumou a Barcelona para representar o Espanhol.

Em Madrid sabia que não tinha hipótese porque, na altura, Casillas era intocável e nem Diego López, o suplente, conseguia ter minutos. Nesse plantel já estavam os «jovens» Sergio Ramos e Marcelo, hoje seus companheiros de equipa.

Espanhol, capítulo um

Casilla fez as malas e rumou a Barcelona à procura de minutos e regularidade para continuar a crescer. No Espanhol brilhava Kameni e a missão de o tirar do trono seria árdua. O facto era agravado porque antes dele, na hierarquia, ainda estava o veterano Iñaki Lafuente.

Mas o início de janeiro de 2008 seria sinónimo de Taça das Nações Africanas e o camaronês Kameni juntou-se à sua seleção, deixando uma vaga na baliza. O habitual suplente passaria a titular e Casilla sentou-se no banco à espera da sorte. E esta bateu à porta, no segundo jogo como suplente.

No início da segunda parte, no Nuevo José Zorrilla, estádio do Valladollid, Lafuente lesiona-se e proporciona a estreia absoluta de Kiko Casilla na Liga Espanhola. O Espanhol perderia o jogo por 2-1, mas no tempo que jogou a baliza ficou a zeros.

A esse jogo seguiram-me mais três, até que Kameni regressou do CAN e voltou a assumir o posto.

Até ao final da época, o guarda-redes espanhol não voltaria a jogar e em julho rumaria ao Cádiz, da segunda divisão B espanhola.

Em Cádiz ponderou terminar a carreira

Casilla estava habituado a clubes e estruturas de topo, mas a falta de minutos e a carreira estagnada falaram mais alto, e o guarda-redes mudou-se para as divisões inferiores.

A primeira temporada foi um sucesso, fez 37 jogos e sagrou-se campeão, ascendendo à Segunda Divisão. O clube renovou o seu empréstimo para atacar uma nova divisão, mas tudo viria a desmoronar-se.

O Cádiz não evitou a descida de divisão e muitos adeptos criticaram e culparam Casilla pelo sucedido. Foi a pior temporada da sua carreira como o próprio confessou e admite que pensou mesmo em pendurar as luvas: «Foi um tempo muito duro. O primeiro ano foi bom porque conseguimos a subida à Segunda Liga, mas descemos e as pessoas puseram-me em «ponto de mira». Os adeptos entraram em guerra comigo e sofri tanto ao ponto de deixar o futebol. Levei a minha esposa grávida, estávamos sozinhos e com os ânimos em baixo por tudo o que se estava a passar», afirmou o jogador numa entrevista ao «Mundo Deportivo».

Não deixou o futebol e na época seguinte (2010/11), um novo empréstimo. Rumou ao Cartagena, da Segunda Divisão, e fez uma temporada brilhante que lhe permitiu ficar no plantel e chegar à titularidade no Espanhol, em 2011/12.

Espanhol, capítulo dois – a afirmação total

Foi suplente durante a primeira parte da época e só em dezembro se estreou para a Copa do Rei, contra o Celta de Vigo. Fez três jogos da taça, antes de fazer os primeiros minutos para o campeonato e ser o número um.

O titular Cristian Alvaréz lesionou-se a nove minutos do final do dérbi com o Barcelona e Casilla foi chamado a intervir. Entrou, agarrou o lugar e fez 21 partidas até ao final da temporada.

Na época seguinte (2013/14), voltaria a ser relegado para o banco, mas dezembro voltaria a ser data talismã para o guarda-redes, estreando-se a 16 desse mês na liga (antes fez dois jogos para a Taça). Se na época anterior, o adversário tinha sido o Barcelona, o seu grande rival, desta vez do outro lado estava o… Real Madrid.

O desfecho da partida foi o mesmo: empate. Daí em diante, Casilla só não fez dois jogos na temporada e o ano seguinte seria o de afirmação total: foi totalista para o campeonato e, finalmente, conseguiu a regularidade desejada.

O posto voltaria a ser seu em 2014/15, só falhando um jogo por castigo, e as boas exibições valeram-lhe a chamada à seleção A. Em novembro de 2014, vestiu a camisola da  Roja, num particular frente à Alemanha, em que substitui... Casillas.

Essas boas exibições e a excelente época valeram-lhe o regresso a «casa» e uma nova vida em Madrid.

O regresso por seis milhões

Oito anos depois de sair pela porta das traseiras, voltou por seis milhões, mas até à data ainda não conseguiu minutos. Keylor Navas é o titular e tem sido um dos melhores elementos do Real Madrid. Só sofreu três golos em 12 jogos e destroná-lo será complicado.

Mas Casilla já deve estar preparado para um desafio desta dimensão (foi assim que em Barcelona conquistou o lugar em sucessivas épocas) e partir do banco para a titularidade.

Desde que saiu de Madrid já foi do «inferno ao céu», foi do pensamento em acabar a carreira à seleção A, e ao virar da esquina está o cumprir de um sonho na casa de partida.

No Espanhol «só» precisou de aproveitar as suas oportunidades para se impor e este fim-de-semana tem uma. Esta é de ouro, é no seu Santiago Bernabéu, com a «sua» camisola e na casa que deixou para se tornar o guarda-redes que é hoje.

É a vez de Casilla, o Kiko.