Lado B é uma rubrica que apresenta a história de jogadores de futebol desde a infância até ao profissionalismo, com especial foco em episódios de superação, de desafio de probabilidades. Descubra esses percursos árduos, com regularidade, no Maisfutebol:

Léo Olinda nasceu com curta esperança de vida. Estava condenado à nascença. Um médico garantiu à mãe de Léo que este não conseguiria sobreviver por mais de 15 dias. Tem atualmente 30 anos.

Enfrentou mais de dez cirurgias e ficou com marcas eternas no rosto. Porém, desafiou as probabilidades e substituiu, chegando a esta fase com uma boa carreira no futebol e independência financeira para criar dois filhos, Kauã e Ryan.

No último fim-de-semana, o seu River Piauí lutou pelo título da Série D do Brasil com o Botafogo de Ribeirão Preto mas não conseguiu dar uma alegria a cerca de 40 mil adeptos presentes no Estádio Governador Alberto Tavares Silva, em Teresina.

Léo Olinda, de qualquer forma, festejou a subida à Série C e recolheu elogios pelo seu desempenho ao longo da competição.

A sua história tem emocionado o Brasil e merece ser partilhada deste lado do Atlântico.

Leandro Thomas Batista da Silva nasceu a 21 de dezembro de 1984. A mãe, Amara, não estaria certamente preparada para um parto com contornos tão dramáticos.

«Nasci com o cordão umbilical entrelaçado no meu rosto, que ficou aberto dos dois lados. À medida que fui crescendo, o cordão apertou mais o rosto e nasci assim. Mas geralmente, ele desce para o pescoço e a criança morre. Acho que Deus quis dar-me mais uma oportunidade.»

O atual médio do River Piuaí relata o seu nascimento de forma desassombrada e apresenta o lado positivo. Pudera. Se os médicos tivessem razão, Léo não estaria aqui para contar a história.

«Depois de nascer, disseram à minha mãe que eu tinha apenas 15 dias de vida, mas ela nunca deixou de acreditar em mim. Ela acha que isto aconteceu porque, durante a gravidez, houve um dia em que estava sentada no passeio e um bêbado que vinha de bicicleta caiu em cima dela.»

Dona Amara preparou-se para o pior sem acreditar no fatal destino do seu filho. Leandro acabara de nascer, tinha a vida pela frente e para tal precisaria de enfrentar inúmeras batalhas.

«Tiveram de fazer várias cirurgias para que o meu rosto fosse fechado. Foram mais de dez, até aos 19 anos, e ainda eram precisas pelo menos mais duas, mas eu não quis. Nessa altura já tinha responsabilidades, família, filhos, e não dava tempo, porque pelo menos em uma delas ia ter de parar seis meses e não podia: tenho pessoas que dependem de mim.»

Por essa altura Leandro da Silva já era conhecido como Léo Olinda e lutava por um futuro como profissional no mundo do futebol. Passou pelas camadas jovens de clubes como o América de Pernambuco e disputou campeonatos amadores até assinar contrato com o «pior clube do Mundo».

O Íbis Sport Club carrega esse título mas permitiu ao médio dar um passo em frente na carreira e ganhar reputação. Foi o melhor marcador da segunda divisão pernambucana e arrancou para um percurso digno, procurando fintar o preconceito.

A maior dificuldade que tive na carreira foi a falta de oportunidades. Acredito que houve preconceito envolvido nisso. No mundo do futebol, ou na rua, as pessoas olham-me de forma diferente.»

Léo Olinda teve de se adaptar a essa realidade e trilhou o seu caminho até ao River Atlético Clube de Piauí, onde chegou em março de 2015, vindo do Auto Esporte. Com desconfiança.

«Quando vamos jogar fora, muitos adeptos insultam-me e isso é triste. E mesmo quando vim para o River, vi antes de chegar vários adeptos na internet a insultar-me a perguntar o que vinha para aqui fazer.»

Tudo mudou em poucos meses e o médio conquistou a massa associativa do clube. O River-PI não conseguiu o título da Série D mas subiu de divisão com o contributo de Léo. A poucas semanas de celebrar o seu 31º aniversário, o jogador resume a atribulada existência de uma forma desconcertante.

«Considero-me uma pessoa feliz e realizada. Sou casado e tenho dois filhos. Tinha só duas semanas de vida e estou com 30 anos. Só devo agradecer a Deus por todas as oportunidades. Não me posso queixar de nada.»