Pela 56ª vez na história do Campeonato Nacional, o FC Porto visita a casa do Boavista. Um dérbi familiar, com um toque muito british e estórias intermináveis.

O saldo revela o equilíbrio. São 30 vitórias azuis e brancas, 10 empates e 15 triunfos aos quadradinhos, o último já em 2007, há mais de dez anos: 2-1, com golos de Ricardo Silva, Zé Manuel e Lucho Gonzalez.

Como escreveu Sophia de Mello Breyner, é no Porto que as maravilhas e as angústias se fundem. A escritora talvez não se referisse a este dérbi da bola, mas a ideia tem aplicação prática e lógica nos Boavista-FC Porto.

Há dúvidas? Jaime Pacheco diz que não. É ele que passeia o Maisfutebol por incontáveis tardes de futebol. Primeiro no meio-campo do FC Porto (1979 a 1984 e 1986 a 1989) e depois no banco de suplentes do Boavista (1998 a 2003, 2004 a 2005 e 2006 a 2008).

«Lembro-me de perder um campeonato nacional para o FC Porto no Bessa», começa o treinador de 60 anos. «Na época 83/84, já muito perto do fim, perdemos 2-1 e acabámos a três pontos do Benfica. Foi a minha primeira grande desilusão nos dérbis.»

«O Isaías era um rinoceronte. Ele corria e o chão tremia»

Pacheco recorda «grandes equipas» do Boavista e salienta dois adversários desse período. «O Phil Walker, um médio inglês muito combativo e raçudo. E o meu ídolo de sempre, o João Alves, Luvas Pretas. O Bessa tinha um ambiente muito típico, como se jogássemos um estádio inglês. Era o dérbi, carago, e o dérbi não era para meninos.»

«Curiosamente, parece que chovia quase sempre nos dérbis», o que dava o toque final. Céu cinzento, bancadas repletas, estádio pequeno e de atmosfera tumultuosa.

«O FC Porto já sabia que no Bessa ia sofrer. Na altura em que jogava o Isaías, que depois foi para o Benfica, eu dizia sempre que tínhamos de ter cuidado com o rinoceronte. O Isaías corria e o chão abanava.»

Já como treinador do Boavista, Jaime diz que as suas equipas sempre jogaram «olhos nos olhos» com os vizinhos dragões.

«Quando perdíamos era pela diferença mínima. O jogo mais desnivelado foi nas Antas, depois de termos sido campeões nacionais. Passámos a semana a celebrar, o Petit foi expulso cedo e perdemos 4-1.»

E o que há nos bastidores do dérbi? «Sal e pimenta, muitas», responde Jaime Pacheco, todo sorrisos.

«Fiz coisas das quais me arrependo. Declarações quentes, mas estratégicas. No Boavista pretendíamos levar o jogo para o lado emocional, para o vulcão. Foram anos excecionais no Boavista, anos em que nos aproximámos mesmo dos três grandes.»

Nessa fase de sucessos, Jaime Pacheco recebe convites de todo o lado. Menos das Antas. «Não posso mentir. Fui convidado formalmente pelo Benfica e pelo Sporting. Pelo FC Porto? Nunca. Tornei-me ‘persona non grata’ no Dragão, passei a ser visto como um rebelde, mas o que fiz pelo Boavista foi o que fiz pelo FC Porto.»

Jaime Pacheco treinou em Portugal pela última vez na época 2008/09. No Belenenses. Passou depois por China, Arábia Saudita e Egipto. O Tianjin Teda foi o último clube treinado pelo antigo homem de FC Porto e Boavista.

À boleia dele, aqui vamos para cinco dérbis inesquecíveis, a 48 horas do próximo Boavista-FC Porto.

1. 1981/1982: Boavista-FC Porto, 0-6 – até o Major saiu de fininho

(Jaime Pacheco, 5; Frasco, 10; Jacques, 11, 36 e 77; Sousa, 31)

45 minutos de horror no Bessa, 0-5 para o FC Porto ao intervalo. Onde pára o Boavistão? A horda axadrezada rasga os cartões de sócio e aponta para a tribuna presidencial… onde já não está Valentim Loureiro. O presidente do Boavista, antecipando problemas, abandona o seu camarote antes de o árbitro apitar para o descanso. Resta o jovem Pinto da Costa, recém-empossado presidente do FC Porto. É ele que atura a irritação preta e branca. De sorriso nos lábios, claro.

No relvado, tudo fácil para os dragões. O destaque maior vai para Jacques, senhor de um endiabrado hat-trick no Bessa, cheio como um ovo. Nos jornais, muitas críticas para o guarda-redes Madureira, substituto imberbe do experimentado Matos. Tremeu como varas verdes.

«Foi o golo mais fácil da minha carreira», recorda Jaime Pacheco. «So tive de encostar, quase em cima da linha. Nesse jogo estávamos todos a jogar para o Jacques, queríamos que ele fosse o melhor marcador do campeonato. E foi. Esse foi o único jogo fácil que tive no Bessa com a camisola do FC Porto.»

O FC Porto acaba a época no terceiro lugar, o Boavista é apenas nono. O título acaba em Alvalade nas mãos do mister Malcom Allison.

2. 1984/1985: Boavista-FC Porto, 1-0 – nódoa no poema de Artur Jorge

(Adão, 75, gp)

A era do rei Artur Jorge arranca com um campeonato quase perfeito. 26 vitórias, três empates e uma derrota. Onde? No dérbi, carago, e logo à segunda jornada. Num jogo quezilento, faltoso, impulsionado por bancadas que saltavam para o relvado do Bessa, apenas de penálti se faz um golo.

A 15 minutos do fim, Adão encara Zé Beto da marca do castigo máximo e resolve o jogo. Mário Wilson vence Artur Jorge, ainda a dar os primeiros passos daquela que viria a ser uma relação histórica com o FC Porto. O título de Viena estava logo ali.

Nas bancadas, a confusão instala-se já perto do fim. Gente acotovelada, a espreitar por trás de traves para ver todo o relvado, muita pressão na entrada e saída do velhinho Bessa. Nada parecido com os dias de hoje.

3. 1988/1989: Boavista-FC Porto, 4-1 – chamavam-lhe Nelson Bertollazzi

(Bandeirinha, 35, pb; Nelson Bertollazzi, 55 e 74; Elói, 72) (Domingos, 73)

«O Nelson Bertollazzi estava imparável», recorda Jaime Pacheco, suplente não utilizado por Artur Jorge nesse jogo do Bessa. O antigo médio vê tudo do banco de suplentes. E do balneário. «Ao intervalo… minha nossa senhora. O Artur queria mudar a equipa toda. Quando ele berrava, berrava mesmo.»

Nada a fazer. Sai Bandeirinha, entra Everton, mas o Boavista chega aos 3-0 e até Elói, um ex-FC Porto, festeja na cara de Zé Beto.

«Essa é uma fase de grande rivalidade, porque o FC Porto afirmou-se internacionalmente e o Boavista, como é normal, quis ir atrás. Esse é o meu último ano nas Antas, o ano em que joguei menos.»

O herói do jogo, Nelson Bertollazzi, não esquece esse dérbi de janeiro de 1989. «Sempre que jogávamos com uma equipa grande era sempre uma grande noite. Até porque nos podíamos mostrar. Na altura, os jogadores das outras equipas em Portugal jogavam sempre para tentar um contrato com os grandes», recorda o antigo avançado.

«O meu melhor jogo pelo Boavista? Sim, esse contra o FC Porto e um contra a Fiorentina, também no Bessa.»

Final da temporada, Benfica campeão, perseguido pelos dois grandes da Invicta. FC Porto e Boavista completam o pódio.

4. 1997/1998: Boavista-FC Porto, 3-4 – os joelhos de Mielcarski

(Timofte, 31 e 38; Martelinho) (Jardel, 30 e 34; Gaspar, 57; Mielcarski, 81)

A caminho do tetra, o FC Porto passa no Bessa com sofrimento e êxtase. A três dias do Natal, sete golos, dúvidas quase até ao fim, muita chuva e relvado pesado.

Quem resolve? O polaco Greg Mielcarski, num dos raros períodos em que os joelhos não o levam para uma cama do hospital. Lançado por António Oliveira a dez minutos do fim, Greg arranca pela esquerda, aguenta uma carga e só pára à entrada da área axadrezada, a disparar para golo.

Treinador do Boavista? Jaime Pacheco, claro, já a edificar o Boavistão campeão nacional.

«Eu conhecia alguns jogadores do FC Porto e dava-me bem com eles, mas nessa fase o Boavista incomodava muito. Na semana do jogo já não falavam comigo. No dia do jogo ignoravam-me completamente. Tinham medo de represálias, acabava por ser normal. Às vezes não gostava, mas a esta distância percebo que a pressão sobre eles era enorme.»

5. 2003/2004: Boavista-FC Porto, 0-1 – sinal vermelho à chuteira de Deco

(Alenitchev, 77)

Faltas, faltas e mais faltas. Na temporada do título europeu de Gelsenkirchen, o FC Porto joga no Bessa e salva-se no limite. Dmitri Alenitchev marca o único golo do dérbi aos 77 minutos, mas o momento de que todos falam acontece logo depois.

Deco é expulso por Paulo Paraty após uma situação caricata. O Mágico vê o vermelho e é suspenso por três partidas. Em declarações feitas na época, o antigo internacional português recusa sempre a acusação de agressão ao árbitro.

«Houve uma falta sobre mim, fui pisado e a chuteira saiu. Depois, eu pego na chuteira e atirei-a ele, sem força. Por causa disso tenho um processo disciplinar, mas não me parece que seja nada de grave», defende-se Deco.

«Não tinha intenção de agredir? Não, não, não… Não tive qualquer intenção de agredir.»

José Mourinho coloca-se ao lado do seu atleta. «A bota foi atirada para o chão, não tenho mais nada a referir.»

Para quem não sabe o que é um Boavista-FC Porto, um Boavista-FC Porto é isto. Quente, polémico, familiar.

Venha daí mais um dérbi, carago!