O Benfica tinha jogado em casa da Sanjoanense a 4 de dezembro. Aquele era dia de treino de recuperação. «À terça-feira havia sempre banhos e massagens, no tanque», evoca José Augusto. «Naquele tempo não havia jacuzzi ou saunas como hoje. Era um aparelho que se colocava dentro de água e se ligava à eletricidade, para agitar a água e fazer o efeito de massagem.»

E então, aconteceu. «O cabo do aparelho era curto, fez-se ali uma extensão e isolou-se a extensão. Mas a condensação que criava o vapor da água caiu sobre a zona do isolamento e provocou aquilo, penso que tenha sido isso.»

José Augusto não estava na banheira, estava no balneário, a preparar-se para se juntar aos companheiros. «Quando ouvimos uma enorme gritaria fomos a correr.» Já ninguém pôde fazer nada por Luciano. «Era ele que estava a segurar o aparelho, levou a carga maior.»

«O Luciano teve morte praticamente instantânea. O doutor Azevedo Gomes ainda tentou, fez-lhe duas punções diretamente no coração, mas não adiantou.»

José Augusto interrompe a narrativa. «Estou a lembrar-me disto e a emocionar-me. O Luciano era um jovem. Era uma jóia de colega. Estava a afirmar-se no Benfica, a tornar-se titular, com hipóteses de internacionalização.»

Luciano, defesa-central, tinha chegado ao Benfica em 1963, depois de ter representado o Olhanense, na cidade onde nasceu. Nessa época tinha feito cinco jogos em nove para o campeonato, ao todo tem 40 jogos com a camisola encarnada.

De volta ao Estádio da Luz, naquele dia. Os outros jogadores que estavam na banheira conseguiram fugir a tempo. Alguns sairam ilesos, outros muito combalidos. José Augusto: «O Malta da Silva esteve até às cinco da tarde com espasmos. O Carmo Pais recuperou mais depressa.»

Para evitar uma tragédia ainda maior valeu a intervenção de Jaime Graça. O antigo médio, que também estava no tanque, tinha sido aprendiz de eletricista em Setúbal e reagiu depressa.

Há dois anos, pouco antes da sua morte, Jaime Graça recordava assim aqueles momentos, em entrevista ao jornal I: «Fui rápido e decidido. Desliguei o quadro. Aqueles que estavam no fundo no tanque foram os que mais sofreram, como o Carmo Pais e o Malta da Silva. O Camolas, por exemplo, fugiu para o relvado. Veja lá, tão grande foi o susto. Ainda hoje quando me vê, o Malta da Silva faz questão de me apresentar como o homem que lhe salvou a vida. Ele e o Carmo Pais sofreram muito e tiveram de estar duas horas deitados no chão, a serem inspecionados pelos médicos.»

Jaime Graça contava que Eusébio se encontrava igualmente na banheira. «Também estava nesse tanque. Quando aconteceu, ele até ficou branco. Nem falava, tal era o susto.» Para a memória coletiva, o médio falecido em fevereiro de 2012 foi muitas vezes recordado como o homem que salvou a vida a Eusébio.

Daqueles tempos, todos recordam de resto a enorme cerimónia de homenagem que foi o funeral de Luciano, em Olhão. A equipa do Benfica seguiu a acompanhar o corpo e a viagem foi impressionante, diz José Augusto: «Estava muita gente por todo o lado. Em Alcácer, em Grândola, em todo o lado por onde passámos. Depois, em Olhão, foi uma coisa impressionante.»

O Benfica foi campeão nacional nessa época. José Augusto não recorda uma homenagem especial do clube a Luciano, mas diz que ele próprio se deslocou à campa do antigo companheiro nesse verão. «Fui ao cemitério em Olhão depositar umas flores. Fi-lo em meu nome e no de todos os companheiros.»

Luciano, três vezes campeão nacional e vencedor de uma Taça de Portugal, é uma história trágica como houve mais no futebol português, mas bem menos presente nas recordações do que as mortes de Pavão ou de Fehér. Hoje, a sua memória perdura na casa do Benfica de Olhão, que tem um espaço dedicado ao filho da terra. Botas, bolas, troféus, objetos com história cedidos pela família de Luciano.