O extremo, de 19 anos, não tremeu na estreia, ouviu uma vez mais os conselhos do amigo Abdoulaye, dos restantes colegas e do técnico, cerrou os dentes e foi lá para dentro enfrentar Aimar e companhia com a calma de um veterano. Sem encantar, deixou indicações positivas e viveu, emocionado, o primeiro encontro numa liga principal.

«Estava à espera desta oportunidade. Pelos treinos, sabia que podia jogar. Senti um misto de emoções. Fiquei muito contente. Procurei fazer o que faço habitualmente, sem receios ou pressão. No final, fui felicitado por toda a gente, amigos, família, até desconhecidos», conta, em conversa com o Maisfutebol, deixando escapar o «orgulho» dos pais em Abidjan.

Judikael Magique Goualy é o mais recente rosto da parceria da Briosa com o Cissé Institut, da Costa do Marfim. Neste caso, trata-se de um atleta totalmente moldado pelo antigo jogador da Naval, que o acolheu aos sete anos. «Devo-lhe tudo. Quando achou que estava preparado [aos 18 anos] disse-me: estou tranquilo, sei da tua qualidade. Vais para a Europa para triunfar.»

Cumpriu menos de meia época com os juniores da Académica, impressionou Pedro Emanuel, e foi inscrito em janeiro. Está, como outros jovens, a viver na academia do clube, onde o tempo custa a passar, mas é assim que se faz a adaptação (quase não fala português) até começar a viver na cidade. «É um bocado chato, sempre aqui fechados, mas, por outro lado, permite-me concentrar unicamente no trabalho», analisa.

Clone de Sissoko? Não, melhor!

Falar dos jovens marfinenses em Coimbra é falar de Ibrahim Sissoko, o pequeno extremo cheio de fintas que teve uma passagem meteórica pela Académica e rendeu, no último mês, uma das maiores somas de sempre para o clube com a transferência para o Wolfsburgo. Amigos desde os tempos em África, é inevitável fazer comparações entre eles.

Ambos são esquerdinos e pisam os mesmos terrenos, mas quem os conhece melhor diz que Magique é superior. Ascendeu mais cedo ao plantel principal e, asseguram, é mais objetivo e preciso no que faz. «Somos parecidos, mas eu tenho uma forma diferente de controlar a bola. Se gostava de seguir-lhe as pisadas? Quero fazer ainda mais, se possível», garante, a sorrir.

Tal como o antigo colega, o jovem extremo cresceu a jogar na vastidão africana, tantas vezes remetido às ruas para expressar o seu talento. O nome, afinal uma alcunha, ganhou-o justamente ai, a dar largas à imaginação. «Foi um senhor lá do meu bairro, que me começou a chamar assim. Tu est magique, dizia, porque eu fazia coisas extraordinárias. Era como magia. Pegou», recorda.

A ascensão foi rápida, mais rápida do que esperava, e o futuro, acredita, só pode ser melhor. «Nada é fácil, mas acredito no meu talento. Tenho ambição e vou trabalhar mais e mais para chegar longe», promete. Para já, quer continuar no onze dos estudantes, aprender, e perder a timidez que o caracteriza cá fora. Dentro de campo, a história é outra.