Sérgio Ramos e Carlos Andrade são dois dos maiores jogadores das últimas duas décadas do basquetebol português. Ambos com vários títulos nacionais, com mais de uma centena de internacionalizações pela seleção nacional, com carreiras ao mais alto nível nacional e internacional. Ambos com os primeiros cestos de todos conseguidos nas tabelas do campo do Maria Pia.

É no bairro da Graça que estamos, num dos que fazem com que Lisboa seja como é, numa das suas colinas. No nº11 da Rua de São Gens, colado à Travessa do Monte, vive o Maria Pia Sport Clube. Desde 1 de dezembro de 1922, a data da sua fundação. Até hoje. Na sua criação esteve o espírito dos alunos do Asilo Maria Pia que, acabado o internato, perdiam o rasto à maioria dos antigos colegas. Após várias tentativas – e de várias comissões – a partir das reuniões num café da Avenida da Liberdade quatro dos antigos alunos fundaram o Asilo Maria Pia Sport Clube.

As atividades de salão com os bailes tão comuns à vida social da época e a prática desportiva sempre presente davam corpo ao convívio pretendido. Presidido sob a base estatutária de «sport, recreio e previdência». A «previdência» que pretendeu desde a fundação preservar o que se tinha vivido no Asilo Maria Pia. O clube deixou de ter «Asilo» no nome na chegada dos anos de 1930, mas os ideais da instituição de acolhimento dos jovens mantiveram-se (até hoje) no Maria Pia.

Um ano depois da fundação já havia um jornal a assinalar o primeiro aniversário e a dar conta da vida do clube e do próprio bairro lisboeta. Nesse nº1 de «O Maria Pia» pode ler-se que os «actuais alunos assim que saem do Asilo se vão inscrevendo sócios» num clube onde se instava à «cultura física» mesmo «não tendo pretensões a primeiros classificados», mas querendo «uma bôa demonstração do seu trabalho».

O cunho de antigos alunos no coração do clube ficou marcado estatutariamente entre «sócios efectivos» e os outros associados como sendo «sócios auxiliares» numa norma que só desapareceria nos anos de 1980 após a atribuição do estatuto de utilidade pública ao clube, que implicou o termo daquela divisão. Foi aí, nesse pós-25 de Abril, que o clube passou para a segunda fase da sua vida. Longe – muito longe – já estavam os tempos do clube pequeno da freguesia que abraçou natação, luta, futebol, boxe, polo aquático, patinagem. O basquetebol, esse, ficou sempre, como a previdência.

O Maria Pia tem basquetebol federado desde 1934. Pelo seu campo – atualmente também partilhado como esplanada para os sócios –, onde passaram jogos da seleção portuguesa e de campeonatos nacionais, passaram também muitos jovens do bairro da Graça que, com a consolidação da democracia em Portugal, retomaram a vida do Maria Pia Sport Clube.

«A nossa atividade era o basquete e manteve-se pela tradição da modalidade no clube», diz-nos Paulo Quadrado, presidente da Assembleia Geral, explicando que, com custos a dispararem num zona da cidade onde o nível de vida não era alto a opção foi a de «proporcionar aos jovens uma atividade desportiva». Na década de 1980 já havia mais de uma centena de atletas e equipas em todos os escalões do basquetebol masculino e feminino. O Maria Pia chegou também a ter equipas de seniores para dar ainda mais sentido à formação.

Mas «financeiramente é muito complicado», explica António Silva, diretor desportivo, referindo que «uma equipa sénior equivale a todas as equipas de formação» no que respeita aos custos com inscrições, policiamento, equipamentos, deslocações e outros gastos associados. A formação foi e é a identidade assumida e por ela passaram nomes do basquetebol português no dirigismo – como Manuel Castelbranco (que dá nome ao Pavilhão Municipal da Graça, onde joga o Maria Pia) – na arbitragem – como António Pimentel – ou na alta competição – como José Bernardeco, Jorge Coelho, João Santos, ou Carlos Andrade e Sérgio Ramos.

«A ideia é continuar com os ideais da prática do desporto e da previdência» num «clube conhecido e reconhecido como escola de basquetebol», diz Paulo Quadrado. Carlos Andrade conta como era essa escola onde entrou com 14 anos. «Era um clube pequenito como ainda é. Não havia muitos clubes como aquele», recorda sobre o «clube sério» onde, «mais que tudo», salienta o «carinho» recebido por «um rapaz de cor, que não sabia jogar, que era grande, que acolheram» e a quem deram «motivação» e incutiram «valores».

Carlos Andrade joga no Benfica, clube que representa pela segunda vez depois de ter jogado em Portugal também no FC Porto, Atlético Queluz, Portugal Telecom (para onde foi depois do Maria Pia), e ter jogado em Espanha, Alemanha e Estados Unidos. Com toda a experiência que tem, o internacional português nascido em Cabo Verde não deixa de frisar «o clube pequeno que com os valores que tem se consegue distanciar de outros».

O Maria Pia «era uma família». «Eu queria que os jogos chegassem para ficar lá, ir jantar para a praia, ir ao cinema, andar de Vespa, ir aos barzinhos da Graça... Era o convívio que me fazia querer voltar todos os dias». «A parte dos jogos acabava por ser o menos divertido. Perdíamos bastantes jogos e por muitos de diferença. Começámos a competir com clubes que davam grandes tareias, depois do terceiro ano começámos a ganhar...»

E um ano depois também Carlos Andrade sairia do Maria Pia para a vida de sénior ao mais alto nível, mas levando consigo a sua formação: «O Maria Pia é um exemplo para os outros clubes com os valores que tem: insiste em formar boas pessoas antes de atletas que, com gosto pela modalidade, vão ficando melhores.»

Sérgio Ramos nasceu e cresceu na Graça. O Maria Pia viu-o vestir a sua camisola a partir dos 10 anos. «Foi o primeiro clube onde joguei, onde fiz as primeiras amizades no basquetebol, onde comecei a gostar da modalidade», conta-nos o atual treinador da formação do Benfica acrescentando que o clube «tem também uma grande importância social na Graça, que não é um bairro com famílias abastadas financeiramente». O Maria Pia tem um «papel fundamental na formação cívica e social».

Como ele próprio participa também nessa formação colaborando com a Junta de Freguesia da Graça e o clube do bairro onde nasceu e cresceu realizado campos de férias a pensar nas «crianças que já estão inseridas num contexto desportivo, que jogam no Maria Pia, mas também nos outros que não fazem desporto e experimentam condições mais a sério». «Estas ações são muito importantes», garante Sérgio Ramos que marca presença nos festivais de encerramentos das épocas, em festas de Natal ou «em algumas atividades, na medida do possível, do basquetebol partilhando «os conhecimentos como treinador, como professor».

Sérgio Ramos foi com 16 anos para os Estrelas da Avenida – a menos de um quilómetro de distância do Maria Pia, na Avenida General Roçadas – e depois foi para o Benfica (onde regressaria e fecharia a carreira de jogador) passando por vários emblemas das ligas italiana e espanhola. O atual treinador ainda se cruzou com Carlos Andrade no Maria Pia antes de sair para o Estrelas. João Santos só chegou um ano mais tarde ao clube da Graça, mas estes três jogadores formados no Maria Pia elevaram alto a formação do clube quando fizeram parte da mesma seleção portuguesa anos mais tarde já quando todos eles eram seniores reconhecidos.

«O clube passou por alguns tempos mais difíceis. Quando me formei tinha grandes treinadores. Se calhar houve momentos em que não funcionou tão bem. Ultimamente tem-se apostado em treinadores para transformar o clube no formador que sempre foi», diz Sérgio Ramos que mantém contacto com os atuais treinadores de quem é amigo. E, apesar de reconhecer já não viver a realidade do clube, garante que a amizade se mantém. «Os miúdos são amigos de toda a gente. Todos são amigos de todos e é a isso que continuo a assistir: aos miúdos muito próximos. Não há grandes diferenças do meu tempo.»

«As diferenças vão mais para o que os clubes pequenos necessitam, de mais apoios para ajudar as crianças. Todas as equipas têm de andar de escolas em escolas, só se pode treinar duas ou três vezes, em vez de quatro ou cinco, porque os alugueres são caros. O Maria Pia vive dos apoios municipais, e há muito trabalho que se pode fazer», analisa Sérgio Ramos.

«Hoje em dia passamos por grandes dificuldades», diz Paulo Quadrado dando como um exemplo a renda da sede que passou de 70 para 500 euros. O presidente da Assembleia Geral refere que «a lei desportiva não protege os clubes de formação», pois um atleta até aos 14 anos pode transferir-se sem qualquer compensação e o «Maria Pia forma jogadores a partir dos 6 anos». «O Maria Pia é um dos últimos resistentes na formação», quando havia mais de 20 clubes formadores na década de 80. Agora, na zona de Lisboa haverá cerca de uma mão cheia.

O Maria Pia tem atletas masculinos e femininos no mini-basquete (sub-8 e sub-10), sub-12, sub-13, sub-14 e sub-16 (neste escalão só masculinos). Os clubes queixam-se dos custos e de que os apoios das instâncias desportivas não existem. A situação financeira é complicada e os apoios são ao nível da autarquia. «É um espírito de missão porque estamos a pagar para trabalhar. O sistema não dá garantias nem proteção», diz Paulo Quadrado referindo que «não há um dirigente de um clube destes que não tenha posto dinheiro do seu bolso para a modalidade não acabar». «A boa vontade e carolice das pessoas vai mantendo isto, mas começa a ser difícil».

Augusto Teixeira, atual membro da direção e antigo presidente do clube, lembra que «em 1996 havia duas dezenas de comerciantes locais como patrocinadores». Agora, a situação mudou para todos. Mas «os clubes não precisam de dinheiro, precisam é de condições para a prática desportiva», como o pagamento das inscrições, dos seguros, frisa o presidente da Assembleia Geral do Maria Pia defendendo que se deveria «deixar de cobrar na formação». Paulo Quadrado refere o exemplo de que, como há menos equipas, as zonas geográficas dos campeonatos aumentam, assim como as despesas. Os sub-14 femininos passaram, por exemplo, a ter de ir jogar a Vila Real de Santo António.

«O clube não tem dinheiro para alugar um autocarro, se não não tem dinheiro para inscrever uma equipa», refere António Silva. O diretor desportivo frisa que sempre foi gratuita a prática da modalidade para os atletas do Maria Pia. E, apesar de haver uma tabela de «contribuição para ajudar a secção» (10 euros por atleta praticante e 15 para dois da mesma família), «metade» fica livre de pagamento por não poder fazê-lo.

O Maria Pia também paga ajudas de custo aos treinadores, mas Paulo Quadrado explica que esse pagamento não cobre os gastos dos técnicos, que «são ex-atletas ou pessoas ligadas ao clube a quem o clube não paga mais nada». São oito os atuais treinadores que o Maria Pia tem. Os atletas atualmente inscritos são 112. O clube tem 600 sócios inscritos. «Chegámos a ter 17 treinadores formados aqui», conta Augusto Teixeira que, como os outros dois dirigentes – também homens do bairro da Graça –, já deram mais de três década da vida ao Maria Pia.

Augusto Teixeira nunca mostra, porém, desânimo em relação ao clube que assume como uma sua «paixão». Os miúdos continuam a dar sentido à formação do Maria Pia e «tirá-los de longe da prostituição, do roubo e da droga é já uma compensação». A ligação à sede já não é como noutros tempos, mas a maioria dos jovens ainda é da freguesia. E os ideais mantêm-se. «Não queremos ser de elite, queremos ser de formação», lembra Paulo Quadrado garantindo que «este clube vai continuar a ser um viveiro do basquetebol».

Orgulhosos da Medalha Municipal de Mérito Grau Ouro concedido pela Câmara Municipal de Lisboa e da Medalha Desportiva da secretaria de Estado do Desporto, os dirigentes do Maria Pia pensam «retomar atividades como o clube já desenvolveu com sócios e não sócios, como passeios de fim de semana, convívios, burripaper, paintball», como já fizeram antes para não ser só o basquetebol no pavilhão, as cartas na sede e o futebol na televisão. «Somos um clube de bairro», diz Paulo Quadrado. «Somos um clube do bairro da Graça», reforça António Silva.