A 'World Cup Experts Network' reúne órgãos de comunicação social de vários pontos do planeta para lhe apresentar a melhor informação sobre as 32 seleções que vão disputar o Campeonato do Mundo. O Maisfutebol representa Portugal nesta iniciativa do prestigiado jornal Guardian. Leia os perfis completos das seleções que participarão no torneio:

Autores dos textos: Christoph Biermann, Ron Ulrich e Jens Kirschneck

Parceiro oficial na Alemanha: 11 Freunde

Revisão: Berta Rodrigues

Quando o Bayern Munique perdeu por 4-0 com o Real Madrid na meia-final da Liga dos Campeões deste ano, o debate sobre o jogo rapidamente se estendeu também à seleção alemã. Deveria Joachim Löw colocar a equipa a jogar como o Bayern ou talvez, no fim de contas, mais como o Borussia Dortmund? Ou seja, deve ele apostar as fichas definitivamente na posse de bola, ou assentar o jogo da equipa na pressão e nas transições rápidas da defesa para o ataque?

«As ideias dele são excelentes», disse o selecionador depois do primeiro encontro cara a cara com Pep Guardiola. Alguns meses mais tarde até acrescentou: «Em muitos aspetos ele pensa exatamente como eu.» Isso inclui querer dominar o meio-campo, com base num sistema de 4x2x3x1, o preferido pela maioria dos clubes da Bundesliga.

Sobre este tema o selecionador explicou recentemente as suas ideias: «Não quero um médio de contenção, nem três. Quero três jogadores no meio que estejam constantemente a mudar de posição e a ocupar espaços. A irem onde dói ao adversário quando tem a bola.»

Ao contrário de Guardiola, no entanto, Löw usa apesar disso um médio defensivo robusto, cuja força não assenta na subtileza do seu jogo. Esse homem é Sami Khedira, do Real Madrid. Embora ele tenha estado ausente em grande parte do ano de 2014 com uma rotura num ligamento cruzado, Löw está a apostar nele – incluindo como líder da equipa.

Outro paralelismo com o estilo do Bayern de Guardiola é o crescente desinteresse de Löw por avançados tradicionais. O selecionador só chamou um: Miroslav Klose, agora com 35 anos. Tinha também nos pré-convocados o internacionalmente inexperiente Kevin Volland, ponta de lança de 21 anos do Hoffenheim, mas não os incluiu nos 23. Os golos da Alemanha têm de vir mais de trás.

São sete os jogadores do Bayern no Brasil: Philipp Lahm, Toni Kroos, Bastian Schweinsteiger, Thomas Müller, Jérôme Boateng, Mario Götze e Manuel Neuer. Todos eles vistos como potenciais titulares e, tirando o guarda-redes Neuer, não presos inevitavelmente a uma posição fixa. Terão portanto um papel decisivo em moldar a forma como a Alemanha jogará. Apesar disso terão de se adaptar, porque Löw não quer limitar-se a copiar o futebol baseado em controlo do Bayern Munique.

Ultimamente, o treinador tem falado com entusiasmo sobre o tipo de futebol incisivo e de contra-ataque que destruiu o Bayern frente ao Real Madrid e que o Borussia Dortmund interpretou na perfeição no ano passado. Será portanto uma mistura de ambos, com a ênfase adaptada em função do adversário.

Que jogador pode surpreender no Campeonato do Mundo?

Mario Gotze. Marco Reus era o jogador em melhor forma e tinha sido eleito o melhor da época na Bundesliga, apresentando caraterísticas únicas entre os médios da seleção alemã. Face à sua lesão de última hora,os dados apontam para Podolski no flanco esquerdo, Muller à direita, Kroos e Ozil ao centro. E claro, Klose na frente. Porém, quem pode surpreender é Gotze. Mario Gotze é um fenónemo e as suas qualidades não diferem de Ozil ou Kroos. Não surge como provável titular devido a problemas físicos que o têm acompanhado nos últimos meses. A sua mudança do Borussia Dortmund para o Bayern Munique foi mal vista por alguma opinião pública e Joachim Low demonstra confiança em Ozil. Porém, como a Alemanha tem apenas um avançado puro (Miroslav Klose), chegará a altura em que Gotze entrará em ação como falso número 9. 

E que jogador pode ser uma desilusão?

Muita gente diria Mesut Özil depois do ano difícil que teve, mas Bastian Schweinsteiger também é um candidato provável. Os problemas do médio do Bayern com lesões são notórios nesta fase da época e há fortes probabilidades de não estar suficientemente apto para competir ao mais alto nível.

Qual é a expectativa realista para a seleção no Mundial?

Esta excelente geração de jogadores devia lutar pelo troféu, mas há muitos jogadores importantes em recuperação física a poucos dias do torneio. E depois há o calor. Portanto, chegar às meias-finais talvez seja um resultado mais realista.

Curiosidades e segredos da seleção

Manuel Neuer e Mesut Özil

Os últimos sobreviventes da chamada «maldição Nutella». Durante anos, anúncios televisivos do popular creme de chocolate tinham como protagonistas internacionais alemães, normalmente jovens promessas. O problema e que os jogadores que participavam nesses anúncios acabavam sempre por rapidamente desaparecer de cena a seguir. Neuer e Özil são exceções. No entanto, o produtor do creme de chocolate acabou por acabar com aquela série de anúncios. Talvez não tenha sido alheio o facto de os jovens internacionais terem começado a ter noção da «maldição».

Max Kruse

Desde que se tornou evidente que Mario Gomez ia falhar o Mundial por lesão, pareceu claro que o avançado Max Kruse, do Borussia Mönchengladbach iria ao Mundial – como um não pouco importante papel de alternativa a Miroslav Klose. No entanto, o estreante Kevin Volland foi incluído na lista alargada (acabaria por não entrar nos 23), sem qualquer referência no anúncio ao homem de Gladbach. Supostamente, o motivo foi uma visita feminina que Kruse teve no quarto quando a equipa estava em Londres para o particular com a Inglaterra no final de 2013, que irritou o moralmente rígido selecionador.

Kevin Grosskreutz

O defesa do Dortmund teve outras preocupações. Enfrentou uma acusação legal, acusado de atirar um kebab a um homem num café. Supostamente a parte aborrecida era que, por causa do molho chili extra picante, os olhos do homem teriam ficado a arder durante horas. Grosskreutz foi ilibado por um taxista, que diz ter visto a suposta vítima e disse que ele tinha uma t-shirt estragada, mas não olhos vermelhos. Ao contrário dos tablóides, o selecionador não mostrou interesse neste incidente.

Ilkay Gündogan

O homem do Dortmund seria um candidato certo à seleção, mas devido a uma misteriosa lesão nas costas não vai poder jogar futebol durante meses. Em desespero, Gündogan submeteve-se recentemente a tratamento num hospital pediátrico na Crimeia, mesmo no meio da crise ucraniana. Foi uma prima, jogadora da seleção de voleibol turca, que lhe deu a dica. A terapia parece ter sido bem sucedida e o jogador está otimista sobre o regresso na próxima época. Mas não, infelizmente, a tempo do Mundial.

A camisola

A camisola da Alemanha para o Mundial pode ser vista como uma jogada inteligente de marketing, jogando com as cores e a forma do símbolo do mais popular clube brasileiro, o Flamengo. Na Alemanha, no entanto, a camisola, que levou dois anos a desenvolver, não foi muito bem recebida – como se pode perceber pelo facto de haver um grupo no Facebook que lhe é especialmente dedicado e se chama «Vergonha da Camisola»

Perfil de uma figura da seleção: Sami Khedira

É estranho que algo assim lhe tenha acontecido a ele. «Foi uma perda momentânea de controlo, eu a fazer uma entrada com uma atitude demasiado emotiva», diz Sami Khedira quando recorda a noite de 15 de novembro de 2013. Aquele jogo com a Itália foi muito físico, marcado por pequenas quezílias, que acabaram por contagiar o normalmente muito sóbrio médio alemão. Os pitons ficaram presos na relva, torceu o joelho direito e rompeu os ligamentos. 

Não há nada de muito pior que possa acontecer à perna de um jogador, razão pela qual o diganóstico num caso destes seria, em circunstâncias normais: a época de Sami Khedira acabou. No entanto, estas não eram circunstâncias normais. Nunca são em anos com um Mundial à vista. E sobretudo para quem tem 27 anos, altura em que os futebolistas estarão a atingir o seu pico. Não há assim tantas oportunidades de ir a um Mundial na carreira de um jogador. 

 

Por isso, minutos depois desse dramático momento, Khedira estava imediatamente de volta ao seu estado normal. Controlado. A planear. Quase frio como gelo. Mesmo antes de chegar ao hospital, fez um telefonema da ambulância para o médico que o tinha operado ao joelho quando estava nos escalões jovens e marcou consulta para uma operação logo no dia seguinte. Também telefonou aos responsáveis do seu clube, o Real Madrid, pedindo-lhes que mandassem o médico do clube à Alemanha na manhã seguinte.

Quando voltou do hospital para o hotel da equipa no final dessa noite numa cadeira de rodas, passou por uma pequena festa que assinalava o 150º jogo internacional do selecionador Joachim Löw. Por volta do meio-dia no dia seguinte, menos de 16 horas depois da lesão, foi operado na Alemanha.

Desde esse dia Sami Khedira condicionou toda a sua vida ao objetivo de chegar ao Mundial. O seu apoiante mais entusiasta ao longo do processo foi ninguém menos que o próprio selecionador. «A sua personalidade e experiência são indispensáveis para a equipa», disse Löw, sublinhando que esperaria o tempo que fosse preciso pela recuperação de Khedira e declarou que chamaria um jogador como Khedira mesmo que ele tivesse poucos jogos disputados. E no entanto noutros casos Löw sempre disse que apenas teria em conta jogadores em boa condição física para o Mundial.

Enquanto Mario Gómez foi pouco cerimoniosamente deixado de fora depois da lesão («Dadas as condições no Brasil a minha opinião é que ele não teria condições físicas para aguentar»), fica-se com a impressão de que Löw teria levado Khedira ao Brasil nem que fosse só numa perna.

Porquê? Bem, embora o seu valor não seja frequentemente apreciado na totalidade por muitos dos adeptos, Khedira é em vários aspetos o jogador chave de Löw. Numa equipa caraterizada por notável qualidade ofensiva, ele segura o meio-campo defensivo e é muito um jogador do tipo «favorito» do treinador: bom leitor de jogo, disciplinado e perfeito a pôr em prática as instruções do treinador. Não admira que os seus treinadores no Real Madrid, José Mourinho e Carlo Ancelotti, tenham valorizado o estilo de jogo de Khedira. No meio de uma série de estrelas ele é o condutor despretensioso. Sem um Pirlo ou um Xavi, a Alemanha precisa pelo menos de Sami Khedira.

Filho de mãe alemã e pai tunisino, Khedira é um profissional-modelo. Tendo crescido numa região trabalhadora, de certa forma pouco sofisticada, do sudeste da Alemanha, a sua personalidade foi moldada na academia do Estugarda, que tem um código de conduta que obriga os jovens jogadores a dizerem «Bom dia» a qualquer membro do staff que encontrem. Com Khedira a capitão os jovens do Estugarda foram campeões em escalões sucessivos. Estreou-se na Bundesliga aos 19 anos e aos 20 já era campeão de novo, agora com a primeira equipa. Quando Michael Ballack se lesionou antes do Mundial 2010, Khedira ocupou o lugar dele e fez um torneio fantástico, jogando ao lado do mais ofensivo Bastian Schweinsteiger.

Mudou-se a seguir para o Real Madrid e desde então era inimaginável uma ficha de jogo alemã sem o seu nome. Até novembro do ano passado.

Khedira abordou a recuperação como abordou toda a carreira: com profunda dedicação e disciplina. Esteve durante semanas numa clínica isolada na floresta bávara, longe de qualquer tipo de distração. «Desviar a atenção do que precisava de fazer provavelmente teria piorado as coisas», disse: «Muitos amigos queriam vir visitar-me, mas nem isso permiti.»

Era só trabalho, trabalho, trabalho. E enquanto o selecionador esperava ansioso e os adeptos alemães viam com ceticismo as suas hipóteses de recuperação, Khedira lutou a sua batalha solitária. «Numa altura destas passamos a conhecer-nos a nós próprios melhor», disse. «Identificamos forças, tais como a resistência mental e a capacidade para lutar. Mas as fraquezas também se tornam mais claras.» Que fraquezas, podíamos perguntar.

A 11 de maio, Khedira voltou a jogar pelo Real Madrid, menos de seis meses depois de se ter lesionado em Milão, o que para uma lesão desta representa um mínimo extremo. Isso, claro, não é garantia de que estará na melhor forma no Mundial, ou que será capaz de aguentar as exigências que representa jogar até sete jogos num torneio como este. No entanto, como já dissemos, Jogi Löw tê-lo-ia provavelmente levado só com uma pernas. E agora, pelo menos, já é uma e meia.