O treino está marcado para as 10 horas, mas meia-hora antes já o plantel do Sacavenense tem de estar no Complexo Desportivo Elias Pereira. A temperatura é medida logo à entrada do portão por António Antunes (mais conhecido como Tonecas) ou Francisco Saque, diretores de longa data do clube, que apontam tudo numa folha. Até os números de telemóvel dos jornalistas que visitam o adversário do Sporting na terceira eliminatória da Taça de Portugal, caso apareça algum caso de covid-19 e seja preciso rastrear um contacto de risco.

O Sacavenense não facilita na prevenção, e junto a esse portão está fixado o plano de contingência para a covid-19 e um dispensador de álcool gel com o símbolo do clube. O plantel distribui-se por três balneários, para que estejam apenas sete ou oito jogadores em cada um deles. Até o pequeno-almoço que o clube arranja diariamente é agora disponibilizado na rua, para evitar ajuntamentos.

A mesa foi colocada nas arcadas do edifício principal, junto à entrada de uma das salas da rouparia. É por ali que a Dona Otávia ocupa uma cadeira de plástico para acompanhar o início do treino. Não está propriamente atenta à estratégia para tentar enganar o leão, mas é normal vigiar serenamente os «netos». Conhece alguns dos jogadores desde pequenos, tal como tantos outros que equipou ao longo de três décadas. A idade já não permite muitos esforços, pelo que há sete anos passou a ter a ajuda do Sr. Vítor, que entretanto tornou-se também companheiro.

«Ele agora é que toma mais conta das máquinas, entre outras coisas, e vai buscar a roupa para os jogadores, que eu não posso andar a subir e descer escadas», explica a Dona Otávia, de 84 anos.

Dona Otávia, 84 anos de idade e responsável pela rouparia do Sacavenense há três décadas

Essa é também a idade de Hermínio Lúzio, que mostra uma genica assinalável ao chegar ao complexo desportivo, tendo em conta que foi operado recentemente. Já fez de tudo um pouco no Sacavenense, mas tinha 20 e poucos anos quando foi «speaker» pela primeira vez, e seis décadas depois ainda assume essa exigente tarefa. Mesmo com as bancadas vazias por força da pandemia de covid-19.

A direção do Sacavenense faz questão que Hermínio esteja no Estádio Nacional, a assumir as funções habituais. E foi isso que o levou ao complexo, para saber detalhes da organização do jogo com o Sporting, até porque o equipamento que encontrará no Jamor nada tem a ver com a modesta aparelhagem de que dispõe na pequena cabine de som de Sacavém.

«Quem nasce Sacavenense, é sempre Sacavenense. Sou sócio desde 1952. Vim à inauguração deste campo quando era pequeno, já vi o clube em vários lados, e vou estar agora no Jamor, com um grande prazer. É uma enorme alegria, aos 84 anos, fazer essa reportagem. Agradeço ao clube por ter feito todo o esforço para eu estar presente», afirma Hermínio, sentado no posto que lhe dá vitalidade.

Hermínio Lúzio, 84 anos de idade, foi «speaker» do Sacavenense pela primeira vez com vinte e poucos anos de idade, e na segunda-feira desempenhará essa função no Jamor

Memória futura

Fundado em 1910, o Sacavenense é um clube com memória. «A lealdade é o brasão», é o lema extraído do velho hino do clube e pintado nas paredes do Complexo Desportivo Elias Pereira.

A sala de troféus até está em obras, por estes dias, mas com o intuito de apresentar melhor o legado de um clube fiel às raízes operárias, orgulho de uma cidade que durante muito tempo foi conhecido pela saudosa Fábrica da Loiça.

O Sacavenense foi campeão da III Divisão em 1978 e andou vários anos pela antiga II Divisão. Os sócios mais antigos recordam os internacionais João Cardoso e Vítor Godinho, por exemplo, ou mesmo António Carraça. Mas o clube nunca se deixou ficar velho, e é com orgulho também que lembra os campeões europeus Bebé (futsal) e José Fonte. O irmão deste último, Rui Fonte, também vestiu a camisola, e recentemente até decidiu fazer-se sócio. João Palhinha, adversário na próxima segunda-feira, foi recrutado pelo Sporting precisamente em Sacavém.

Com condições de fazer inveja a muitos emblemas da Liga, o «Saca» é cada vez mais uma referência na formação. Se o presente já passa por aí, o futuro deverá seguir a mesma linha, até porque o clube tem resistido ao fenómeno dos investidores.

«É um clube familiar, com muita humildade, querer, vontade e dedicação», explica o presidente.

Manuel do Carmo, presidente do Sacavenense

No cargo desde 2011, Manuel do Carmo diz que «é um desgosto muito grande» não receber o Sporting em casa. A iluminação do complexo Elias Pereira permite jogar à noite, mas não cumpre os pressupostos para uma transmissão televisiva. Sem receita de bilheteira para compensar, a alternativa ao investimento num reforço da luz foi mudar o jogo para o Jamor, por um preço mais acessível.

«A receita vai ajudar muito para o resto da época, tendo em conta a crise que estamos a atravessar. Felizmente o Sporting cedeu a sua parte. É pena essa receita entrar num bolo em que ainda temos de descontar a parte da Federação e da Associação de Futebol de Lisboa, e depois policiamento, limpezas, aluguer do estádio, etc… Para nós é muito bom, para o Sporting talvez seja uma gota do oceano, e agradecemos essa ajuda que nos deram», explica.

«Não tem sido nada fácil, ainda por cima com isto da pandemia, mas felizmente temos tudo em dia. Temos um orçamento baixo. Arrisco dizer que é o mais baixo do Campeonato de Portugal», acrescenta o líder do Sacavenense.

Manuel do Carmo revela ainda que só estava previsto prémio de jogo a partir da quarta eliminatória, mas acredita que o feito histórico de eliminar um clube como o Sporting permitirá antecipar uma compensação: «Seria com gosto que arranjaríamos esse dinheiro para premiar os nossos jogadores.»

Treinador da equipa sénior há um ano, mas anteriormente ligado à formação, Rui Gomes olha para o Sacavenense como um clube que «é muito dos sócios, muito orgulhoso de si e da terra».

Aos 37 anos cumpre a primeira experiência como treinador principal numa equipa sénior, e ainda que comece por responder que «todos os jogos são uma montra», lá admite depois que «este, até pela cobertura mediática, é um pouco mais do que os outros».

«Não podemos esconder isso, mas espero que a equipa esteja desinibida e consiga ser competitiva, pois a imagem que passará é que ficará do treinador também e da estrutura», acrescenta.

Rui Gomes, treinador do Sacavenense

Apesar da indiscutível diferença na realidade dos dois emblemas, Rui Gomes aceita o desafio de colocar-se do lado oposto para deixar uma sugestão: «Eu não facilitaria. O Sporting só tem o campeonato e a Taça, para já, e depois a Taça da Liga. Não vejo motivos para mudar alguma coisa ou refrescar a equipa só porque sim. Por isso penso que o Sporting vai apresentar-se na máxima força, embora dependa de como chegarem alguns jogadores das seleções.»

Se Ruben Amorim tem de fazer essa gestão, Rui Gomes tem jogadores que terminam o treino mais cedo para chegar a horas ou trabalho, e outros que saem de madrugada e fintam o cansaço para estar no campo.

A Taça de Portugal confronta realidades diferentes, mas alimenta-se de sonhos. Mesmo para quem tem 84 anos. Sentado na pequena cabine de som do Sacavenense, Hermínio Lúzio imagina um golo na baliza do Sporting e grita-o de microfone na mão. As colunas estão desligadas, mas o som chega a toda a cidade. Será que chega ao Jamor?

* Com Cândido Costa, Carlos Rodrigues e Duarte Leocádio (TVI)