Isto apesar de as lesões o terem começado a perseguir nessa altura: «Tudo é um processo de aprendizagem. Nunca me agarrei às lesões. Sempre me reforçaram o caráter, a personalidade, o querer. Fizeram parte do meu crescimento. Foram três anos muito positivos.»

Delfim era o camisola 7, um número que, depois ter sido envergado por Figo, ficou ligado ao azar – Sá Pinto, Iordanov, Delfim, Niculae, Izmailov, Jeffren e, recentemente, Shikabala foram atingidos por lesões. «Não acredito na maldição da camisola 7, é mera coincidência», diz Delfim ao Maisfutebol, desvalorizando a questão. «Se voltasse a jogar no Sporting, não teria problemas em voltar a pegar na mesma camisola», aponta.

A 15 de novembro de 2000 garantiu a sua única internacionalização A. Jogou os 90 minutos na vitória de Portugal frente a Israel (2-1). «Gostava de ter participado num Europeu, num Mundial…», de «ter ido mais além», aponta, mas «a vida é assim mesmo».

Curiosamente, o atual selecionador nacional é alguém com quem partilhou balneário no Sporting: «O percurso do Paulo Bento não foi uma surpresa para mim. Ao contrário do que perspetivava para mim - não me via como treinador, nunca invejei a classe, nunca tirei formação – no caso do Paulo já se percebia que dali sairia um bom líder e treinador porque ele discutia futebol, táticas, lia os jornais todos os dias, preocupava-se em estar atento e em atualizar-se. Percebia-se que o futuro dele passaria por aí. O que alcançou não me surpreende porque, no ano em que partilhei o balneário com ele, percebi que teria essa orientação.»

Depois de dar nas vistas em Alvalade, seguiu para França. Uma etapa da carreira que lhe «provocou muito sofrimento», mas que foi também «uma experiência de vida extraordinária». Em terras gaulesas, passou pelo pior momento da carreira devido à «lesão contraída no início da segunda época no Marselha e aos três anos de inatividade, que se seguiram» e que lhe «provocaram limitações», impedindo-o de ser o que tinha sido até então.

Uma viagem que o obrigou a parar 30 meses

Para quem não se recorda, a 2 de agosto de 2002 Delfim fez 380 quilómetros que lhe marcariam a carreira (e a vida). Um sono mal dormido, no autocarro da equipa, originou queixas, depois vieram os diagnósticos contraditórios, as operações que não lhe retiraram as dores e a cirurgia à coluna, que o obrigou a parar durante 30 meses.

A batalha foi longa e difícil, mas a Delfim acabaria por vencer: «Lutei contra grandes adversidades. A entidade patronal tudo fazia para que eu não voltasse a jogar futebol, a medicina não me dava esperanças quanto à minha continuidade no futebol ao mais alto nível. Não havia dados nem estatísticas que me valessem. Fixei artificialmente duas vértebras da coluna e não havia outro caso idêntico. Era um desafio para mim, mas também para a medicina do desporto. As pessoas que trabalharam comigo e que me ajudaram imenso, quer o neurocirurgião que me operou em Marselha quer o fisioterapeuta António Gaspar, fizeram um trabalho extraordinário. Com a minha força de vontade e espírito de sacrifício consegui voltar e demonstrar que continuava a ser um ativo para o desporto e para o futebol. Não tinha um problema congénito, como o clube queria fazer passar. Fui vítima de negligência e de uma gestão danosa.»

A sua «grande vitória», que «foi voltar a jogar ao mais alto nível», «foi alcançada». Mas isso não faz com que deixe de continuar a lutar pelos seus «direitos até às últimas consequências»: «Decorre, neste momento, um processo em tribunal contra o Marselha. Vai fazer dois anos que o processo entrou em tribunal. Ainda em janeiro estive lá. Quero provar o que me fizeram, que um gesto brusco me provocou a entorse na coluna e que as consequências disso me levaram a um sofrimento enorme e uma ausência de quase três anos da competição.»

As perspetivas não eram boas. Não havia garantias. Mas Delfim manteve-se sempre «positivo». «Naquele momento, foquei-me na procura da cura e procurei não me perder na busca pelas razões que me levaram a ficar como estava», aponta Delfim, que voltou a jogar a 13 de fevereiro de 2005, ao serviço do Moreirense, onde esteve por empréstimo do Marselha.

Depois seguiu-se mais uma curta aventura pelo estrangeiro, pelo Young Boys: «Problemas ao nível do pagamento levaram-me a ter de rescindir unilateralmente e a recorrer à FIFA. Ao fim de quatro anos e meio deram-me razão e acabei por ser ressarcido, mas não era isso que eu queria. O que queria era ter cumprido os quatro anos de contrato que assinei. O Young Boys é um clube mítico na Suíça, com um historial fantástico - independentemente da competitividade. Em 2006, a Suíça estava a apostar no futebol, porque ia organizar o Europeu de 2008 com a Áustria. A minha relação com o clube não durou mais de quatro meses e meio.»

Regressou a Portugal. Esteve duas épocas na Naval e representou o Trofense. Terminou a carreira aos 32 anos, exactamente como queria: «bem fisicamente».