Depois do Adeus é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como sobrevivem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para spereira@mediacapital.pt

São 17.30 horas quando o Maisfutebol faz o primeiro contacto e Tiago Pires diz que naquela altura não pode falar. «Vim buscar a minha filha», explica. «Daqui a meia hora estou livre.»

Passados trinta minutos consegue-se por fim falar com o jovem de 31 anos e marca-se uma conversa. Do outro lado está um rapaz com uma vida perfeitamente normal, como se percebe.

«Trabalho no Lidl há cerca de um ano. Deixei o futebol há três anos e primeiro trabalhei durante um ano e meio no Continente, mais tarde estive a montar aparelhos de ar condicionado e agora estou há cerca de um ano no Lidl», começa por contar.

«A adaptação foi muito complicada. Primeiro foi difícil encontrar trabalho e, depois, o trabalho em si também foi um processo difícil. Ainda me estou a adaptar, ao fim deste tempo todo ainda não me ambientei totalmente. Fui jogador de futebol muitos anos e há coisas que ainda não encaixaram bem em mim: por exemplo, ter uma pessoa a dar-me ordens, trabalhar todos os dias oito horas, enfim, é totalmente diferente e ainda tenho de me acostumar a estas coisas todas.»

Tiago Pires vive na Margem Sul, no Montijo, e entra todos os dias ao trabalho no Lidl às 6.30 horas. É repositor na secção de frutas e legumes, começa por encher as prateleiras, mais tarde divide-se entre continuar a repor os alimentos e atender na caixa de venda.

«É uma situação que nunca pensei viver. Depois de ter feito onze anos no Sporting, depois de sair para o Génova com um contrato de quatro anos, nunca me passou pela cabeça. Achei que tinha atingido o topo e não me ocorreu que um dia ainda teria de vir a trabalhar.»

A verdade é que a vida dá muitas voltas. A vida de Tiago Pires, aliás, foi uma roda viva.

Jogou onze anos nas camadas jovens do Sporting, desde que entrou como benjamim e até que saiu como sénior. Pelo meio cumpriu toda a formação no clube e tornou-se uma grande promessa.

Tão grande, aliás, que um dia foi chamado a treinar com a Seleção Nacional treinada por Scolari.

«Foi antes do Euro 2004. Foi uma experiência diferente, foi bom. Estava no Sporting, jogava nos juniores, ia à seleção e, entretanto, o diretor do Sporting, o mister Jean Paul, disse-me que no dia a seguir ia treinar com a Seleção A. Fiquei surpreendido, mas contente. O mister Scolari gostou do meu treino e chamou-me para ir também no dia a seguir», conta.

«Fui a primeira vez com o Emídio Rafael, que era lateral esquerdo e meu colega no Sporting, e fui no dia a seguir com o André Marques, que também era lateral esquerdo. Na altura também já treinava com a equipa principal do Sporting, com o mister Peseiro. Foi um ano em cheio.»

A Seleção Nacional encontrava-se a preparar o Euro 2004 na Academia de Alcochete e Scolari precisou de dois jogadores para compor o grupo. Recrutou-os nos juniores do Sporting e Tiago Pires foi um deles. Na altura até foi notícia por isso mesmo.

Diz que se sentiu bem, até porque havia jogadores que já conhecia, como Cristiano Ronaldo, e não se esquece de algumas brincadeiras de que foi alvo.

«Geralmente os jogadores têm sempre um lugar marcado no autocarro. No primeiro dia entrei e perguntei onde me podia sentar. Nisto o Costinha diz-me: Podes ficar aqui, senta-te aqui, que não há problema nenhum. Eu sentei-me, tranquilo», sorri.

«Nisto chega o Figo, que era o capitão, olha para mim: ó miúdo o que estás a fazer no meu lugar? E eu todo atrapalhado a dizer que tinha sido o Costinha a mandar-me sentar ali. Sai já do meu lugar, imediatamente. Levantei-me envergonhado e ele começa a rir-se. Deixa-te estar, estou a brincar. Na altura fiquei em apuros. Mas foi engraçado e agora já me rio com a história.»

Ora portanto, 2004 foi um ano perfeito, 2005 também foi muito bom e, no final dessa época, Tiago Pires ficou livre. Acabou a segunda época de juniores e terminou também o contrato com o Sporting. A SAD leonina até queria renovar, mas entretanto surgiram várias propostas.

«Por influência do meu empresário fui para o Génova no primeiro ano de sénior. Estava em fim de contrato com o Sporting, o meu agente apareceu com a proposta do Génova e nem pensei em mais nada. O contrato que me ofereciam era muito melhor do que ficar no Sporting», recorda.

«Para mim foi um grande erro. Era um jovem, tinha 18 anos, e Itália valorizava muito os centrais trintões: Maldini, Cannavaro, Nesta... Tinham uma mentalidade de jogadores maduros.»

A mudança para Itália significou o início do declínio de uma carreira que até então tinha sido sempre a subir: uma carreira que parecia lançada para altos voos, aliás.

«O primeiro ano no Génova foi muito complicado. Assinei com a equipa principal, mas o treinador Gian Piero Gasperini apostava pouco nos jovens e passei muito tempo no banco ou na bancada. Nessa altura ia à seleção sub-19 e deixei de ir. Pedi para ir jogando na equipa B, para ter alguma atividade, e quando não estava convocado, arrancava e ia jogar com os bês. Se fosse convocado para a equipa principal já não jogava pelos bês», revela.

«Fiquei um ano no Génova, depois fui emprestado ao Lugano, da Suíça. No terceiro ano regressei e fiquei mais um ano no Génova. Depois rescindi de forma amigável, sem saber, porque o meu empresário não ia resolver a minha vida, eu é que assinava os contratos todos e, no meio de um contrato de empréstimo ao Potenza, meteram um contrato de rescisão, que assinei.»

A verdade é que a temporada que passou no Potenza, na Série C italiana, correspondente ao terceiro escalão do futebol local, também não correu bem: nem desportiva, nem financeiramente.

«Não recebi um salário. Deixei lá tudo. A equipa não estava bem e os adeptos não deixavam os jogadores sequer sair de casa. Houve um jogo em Perugia que perdemos 4-0 e, quando regressámos a casa, os adeptos atacaram o autocarro e partiram-nos os vidros dos carros», lembra.

«Nessa altura quis vir embora. Preocupei-me com a saúde e decidir voltar a Portugal. Para poder sair tive, porém, de assinar um papel em que abdicava dos salários. Perdi muito dinheiro em Itália.»

Quatro anos depois de ter saído com todos os sonhos do mundo, e com um excelente contrato com o Génova, Tiago Pires regressava a Portugal com apenas um objetivo: recomeçar do zero. Itália tinha sido uma péssima experiência e era necessário deitar tudo aquilo para trás das costas.

«Vim para Portugal, para estar mais perto da família, e fui para Leiria. Estive lá com o Manuel Fernandes, num ano em que subimos à Liga. Depois fui para o Operário dos Açores, começar tudo de novo, e ainda passei pela Naval, novamente pelo Leiria, pelo Juventude de Évora, pelo Reguengos, voltei a sair para jogar novamente na Suíça e depois decidi regressar em definitivo.»

Quando comprou o bilhete de avião de Milão para Lisboa, no fim da segunda passagem pela Suíça, Tiago Pires ainda pensava que ia ser jogador de futebol. Voltava a Portugal, sim, mas com intenção de encontrar um clube.

A realidade que encontrou no Montijo, porém, foi bem diferente.

«Comecei a ter problemas em casa, porque tinha um filho desde os 18 anos e estava sempre longe dele, e porque os clubes não pagavam. Todos os últimos clubes onde estive, nenhum me pagou: Leiria, Naval, enfim. Não estava a fazer entrar dinheiro em casa e a minha mulher fez-me optar, ou o futebol ou a família. Tive que arranjar um trabalho e deixar o futebol.»

Começou a procurar, a procurar, a procurar, mas nada. Até que apareceu o Continente.

«O primeiro dia foi mau de mais. Muito, muito complicado. Já o regresso a Portugal, depois de ter estado em Itália, tinha sido difícil. Saí de um Génova para um Operário dos Açores, as pessoas perguntavam-me o que estava a fazer ali e isso custava-me. Mas o primeiro dia de trabalho foi ainda pior. Estar a trabalhar para ganhar 400 ou 500 euros... muito duro. Custou-me bastante.»

Entretanto já passaram três anos e Tiago Pires ainda diz que lhe é muito complicado ir trabalhar numa coisa que não tem nada a ver com ele. Talvez por isso não deixou morrer a ideia de voltar.

«Ainda hoje penso que o futebol não acabou por mim. Tenho 31 anos e penso que pode ser que apareça um clube. Sinto falta de jogar e de treinar. Acho que tenho capacidade para jogar num clube bom. A adrenalina de estar no relvado e de tocar na bola faz-me muita falta.»

Ora por isso, porque continua a acreditar nele, Tiago Pires treina com o Banheirense, da Baixa da Banheira, um clube dos distritais. Só treina, não joga, e só o faz para tentar readquirir a forma.

«Pensei em arranjar um trabalho porque no futebol não recebia e precisava de ajudar a família. Só que passado um ano, vieram as saudades. Aí quis regressar ao futebol, mas já tinha ganho muito peso. Era só dormir, trabalho, casa. Ganhei uns 10 ou 15 quilos. Ainda tentei emagrecer e estive a treinar com o Pinhalnovense, mas acabo sempre por não conseguir. Agora estou com o Banheirense.»

Entretanto a vida continua. Amanhã é sexta-feira e Tiago Pires tem de acordar cedo para pegar no trabalho às 6.30 da manhã. É que, no intervalo dos sonhos, é preciso meter dinheiro em casa.

Veja como jogava Tiago Pires:

 

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