A época do Merelinense esteve muito perto de ser um sonho, mas ainda pode chegar a esse patamar.

O conjunto de Braga subiu dos distritais na última temporada e logo na primeira época no Campeonato de Portugal esteve a 15 minutos de subir de divisão. O golo do empate sofrido aos 75’ com o Lusitanos de Vildemoinhos impediu a subida direta à II Liga e «empurrou» o Merelinense para o playoff de subida com o Ac. Viseu.

O «sonho» continua vivo, garante Luiz Alberto, central do Merelinense que foi pedra basilar no eixo defensivo.

«Foi momento de tristeza porque ficamos a saber que a Oliveirense tinha perdido o jogo e nós deixamos escapar a subida. Agora é a velha história de levantar a cabeça e continuar. É sempre difícil. O Ac. Viseu tem jogadores com outra experiência, mas estamos a trabalhar para isso e vamos tentar. Só depende de nós», disse.

Aos 34 anos, Luiz Alberto deixou a II Liga para voltar ao Campeonato de Portugal porque acreditou muito neste projeto, que está quase a dar frutos.

«O meu vínculo com o Famalicão acabou e como já conhecia o diretor desportivo do Merelinense, o Eduardo Oliveira, jogamos juntos no Estoril, ele convidou-me e apresentou-me o projeto, que é sério e de pessoas sérias. Foi por isso que acabei por aceitar.»

O «clube é pequeno», o defesa sabe, mas destaca a ambição e tranquilidade que todos passam para os jogadores: «O presidente assumiu a subida, passou essa ideia quando apresentou o projeto. Estávamos cientes e desde o início que procurámos a subida. O nosso trunfo era o bom trabalho durante a semana, entrávamos sossegados em campo, mas conscientes daquilo que tínhamos de fazer. A equipa técnica e a direção passaram sempre tranquilidade, foi esse conjunto que deu neste resultado.»

Os números demonstram essa procura pelo objetivo.

O Merelinense venceu a série A da fase regular do Campeonato de Portugal, com apenas uma derrota e três empates em 18 jogos, tendo sido a melhor defesa com apenas 10 golos sofridos.

«O eixo defensivo funcionou e tínhamos uma equipa que acabava sempre por marcar. O grupo está de parabéns pelo trabalho feito, fizemos uma excelente época.»

Esse registo quase intocável valeu um lugar na fase de subida e a 15 minutos do fim eram primeiros e estavam com um pé e meio da II Liga. Um golo sofrido impediu esse «sonho», que agora poderá ser realidade se vencerem o Ac. Viseu.

«Se conseguirmos fazer bom resultado no primeiro jogo, em Viseu, depois com os nossos adeptos fica mais fácil. Subir será um feito maior, esse é o grande objetivo. É um clube pequeno, mas muito bem estruturado, em que as pessoas lutam em prol do clube. Seria feito maravilhoso.»

Uma chegada prejudicada por empresários e a parceria com Marco Silva e Jardel

Luiz Alberto está a um playoff de conseguir mais uma subida, já que tinha conseguido o feito com o Famalicão e esteve perto de o obter quando representou o Ribeirão e o Desp. Chaves.

Tem sido um percurso regular que começou há 12 anos em Portugal.

Luiz Alberto chegou a território nacional em 2005, mas sempre se sentiu português, até porque as suas raízes são lusitanas: «Tenho família portuguesa. O meu pai é português, sempre me senti como tal, ainda para mais há tantos anos aqui.»

A chegada a Portugal para jogar futebol aconteceu quando tinha 23 anos, mas não foi a vinda desejada.

«Foi tudo coisas de empresários que não correram bem. Eu não sou de desistir fácil, tinha de começar por algum lado e comecei no Carregosense (Distrital de Aveiro). Graças a deus correu bem e consegui evoluir.»

Desde aí que abdicou de qualquer empresário. «Depois do que aconteceu quando cheguei a Portugal nunca mais tive nenhum. Costumo dizer que o pouco ou o muito que consegui foi sozinho, através de treinadores que gostaram do meu trabalho e que me ajudaram.»

Por isso a porta da I Liga foi sempre complicada de abrir.

«Jogar futebol nao é difícil, difícil é encontrar as pessoas certas. Fiz tudo o que pude e isso é que importa.»

Apesar de nunca ter jogado na I Liga fez um percurso assinalável e representou vários clubes que agora estão na I Liga: Estoril, Belenenses e Desp. Chaves.

Antes deu nas vistas no Ribeirão, depois desse ano no Carregosense, onde foi treinador por Tulipa e Lito Vidigal.

«Fizemos no primeiro ano uma boa campanha, fomos quartos com o Tulipa. No ano seguinte, co o Lito, chegamos a disputar a subida com a Oliveirense, mas perdemos em casa e não conseguimos subir. Dali fui para o Estoril.»

Nesse segundo ano encontrou Lito Vidigal: «Já tinha sido falado pelo trabalho no Pontassolense e chegou ali com métodos mais fortes, a malta ficou muito melhor fisicamente e foi o que sobressaiu naquele campeonato.»

O Ribeirão bateu à porta da II Liga, mas não entrou. Já Luiz Alberto assinou para o Estoril e deu o salto.

Na primeira época fez apenas 15 partidas e o segundo ano foi de afirmação plena ao lado de...Jardel.

«Já estava no Estoril quando foi a mudança para a Traffic. Lembro-me que veio o Jardel, o Ismaily, o Lulinha. Fiz dupla com o Jardel a época toda, já se notava que era um jogador de alta qualidade e que vinha de boas escolas no Brasil.»

O crescimento do parceiro não parceiro não o surpreendeu e fica feliz por vê-lo triunfar no Benfica. Naquela defesa, para além de Jardel, Ismaily ou os guarda-redes Vágner e Paulo Santos estava Marco Silva, que em 2009/10 foi o lateral-direito titular do Estoril.

Luiz Alberto recorda a liderança e o peso que já tinha no clube: «Era o defesa-direito. Até pela experiência era o capitão. Ele ainda jogava e muitos jogos, depois foi dando a entender que ia ficar na estrutura.»

E ficou mesmo. Ainda iniciou a época seguinte, contudo entrou para a estrutura até chegar ao banco de suplentes.

Já o central seguiu caminho no Belenenses e em 2012 deixou a II Liga novamente para rumar a Chaves.

«O Desp. Chaves já vinha apostando tudo para subir e não estava a correr bem. Já tinha uma estrutura forte para atacar a subida, não me surpreende este sucesso.»

Depois desse ano em Trás-os-Montes fez duas épocas como titular na Trofa e mais duas em Famalicão, antes de chegar a Merelim.

O objetivo é voltar aos campeonatos profissionais: «Sem dúvida que quero regressar, mas primeiro quero alcançar objetivos do clube e depois vejo com a direção.»

Aos 34 anos não pensa sequer em pendurar as botas: «Ainda me sinto bem, quero jogar, claro que penso no futuro, mas para já ainda me estou a sentir muito bem.»

O objetivo é continuar o percurso que tem trilhado «sozinho», sem mágoa de não se ter estreado na I Liga. Na memória ficam jogos da Taça.

«Fica sempre na lembraça os jogos das Taças, frente a equipas de I Liga. Os avançados dão mais trabalho, porque tem mais nível e mais técnica nesses encontros.»

Para já, o foco é subir o Merelinense e conseguir algo inédito na história deste clube de Braga, que em dois anos pode saltar dos Distritais para o futebol profissional.

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