Domingo à tarde é uma nova rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.

 

Népia puto, baza daqui, cresce e aparece!

No Bairro dos Navegadores, em Talaíde, a idade era um fator decisivo para a inclusão ou exclusão de um jogador nas habituais peladinhas de rua.

Os mais velhos eram os donos da bola. Se não fossem passavam a ser, ninguém se atrevia a pôr em causa tal autoridade. Era assim e pronto.

Marco Aurélio cresceu e foi-se moldando desse jeito. Miúdo traquina, algo problemático até, fazia das ruas o palco de muitas aventuras, algumas das quais ainda hoje se arrepende.

Na leis do bairro, uma era sagrada, jogar à bola só a partir dos 16 anos, como se houvesse uma espécie de tratado assinado pelos reis do pedaço.

Mas a teimosia dos outros não travou a paixão que sentia pelo futebol, até porque em casa tinha alguém que o incentivava a perseguir os sonhos.

«O gosto pelo futebol nasceu comigo, mas foi a minha mãe que me indicou o caminho. Como cresci sem pai, ela tinha as duas funções, sempre foi rígida com os filhos mas levava-me sempre para o campo e até ela jogava. Os meus colegas diziam que queriam ter uma mãe como a minha»

Foi assim que Marco, agora no Pedras Salgadas, começou por contar ao Maisfutebol a infância complicada mas feliz nas ruas daquele bairro do concelho de Oeiras.

Os pais deram-lhe um nome de Imperador, mas desde cedo sentiu dificuldades em tomar pulso à própria vida.

Na escola as coisas não eram fáceis e mesmo no futebol havia muitas intermitências.

Tinha ido treinar no Abóboda, que era então treinado pelo Hélder Cristóvão. Queriam inscrever-me, até já me tinham dado o equipamento de jogo, mas nunca mais apareci lá»

Tentou a sorte no futsal, nos clubes concelhios, mas nada resultou. Era demasiado indisciplinado e a mãe meteu-o na ordem. Nada de futebol.

Acabaria por ingressar no Abóboda novamente, uma vez que Hélder Cristóvão (atual treinador do Benfica B) voltou a bater-lhe à porta.

«Ele foi ao meu bairro à procura de jogadores. O meu padrasto disse que o futebol 11 era melhor para mim e que o 'mister' Hélder podia ajudar-me. Assinei pelo Abóboda mas desta vez não me deram o equipamento logo, porque pensavam que ia fazer a mesma coisa (risos)», contou.

Reconciliou-se então com o futebol e com ele próprio. Mais tarde, em 2012, havia de colher os frutos dessa decisão.

Parece que, afinal de contas, até nem era mau jogador.

Um sonho no Sporting, com Gelson e diamantes

«Um olheiro do Sporting foi ver um jogo meu contra o Estoril e gostou de mim. Estive três semanas na academia de Alcochete a fazer captações e ficaram comigo. Quando soube da notícia só quis ir a correr para casa e contar tudo à minha família», lembrou Marco.

Os primeiros treinos foram surreais. Tudo parecia um sonho. Ao seu lado cresciam supostamente grandes promessas do futebol português, como João Palhinha ou Matheus Pereira.

Depois de um período por empréstimo no Real Massamá regressou a Alcochete e conheceu outro colega, Gelson Martins, que agora brilha na equipa principal do Sporting e na seleção portuguesa.

Partilhei balneário com ele nuns torneios. Sabia que ia chegar longe, devido ao estilo de jogo tipo de rua que tinha, mas nunca pensei que iria explodir como explodiu. Vê-lo chegar tão longe é uma motivação para nós que viemos dos bairros sociais. Prova que os rótulos maus que nos põem são injustos»

Elogios partilhados com Matheus Pereira, jovem lançado por Jorge Jesus na época passada, mas que tem sido preterido para a equipa B na presente temporada.

Iniesta na Academia do Sporting com Matheus Pereira (à esquerda)

«O Matheus é craque mesmo e vai ter mais oportunidades para mostrar o valor. É um diamante que está a ser lapidado aos poucos, mas quando chegar a hora dele mais ninguém o vai parar», apontou.

Ao contrário dele.

O jovem voltou a despistar-se e o Sporting mostrou-lhe o fim da linha.

Marco para as meninas, Iniesta para os amigos

Depois de um desentendimento com o treinador dos juniores, o extremo disse adeus ao sonho do leão.

Sem alternativas de pronto, aos 18 anos mudou-se de armas e bagagens para Chaves, onde estava um antigo colega. Uma mudança repentina para o menino do bairro, obrigado a deixar tudo na capital, incluindo a filha bebé.

«Marquei 14 golos no último ano de júnior, no Desp. Chaves, e fiz a pré-época com os seniores, na II Liga. Depois fui emprestado ao Mirandela e agora estou no Pedras Salgadas», explicou.

Em suma, seis clubes diferentes em seis anos.

Mesmo hoje, aos 20 anos, Marco continua com o futuro incerto, ainda que apresente um rendimento interessante no Campeonato de Portugal.

Quatro golos em onze jogos disputados esta época, são estes os números que fazem o extremo sonhar com a tão esperada afirmação e com um contrato profissional.

Diz que é mais fácil ter sucesso quando o nome aparece na lista dos marcadores e, por isso, decidiu chegar-se mais perto da baliza.

Sou muito rápido, tenho alguma técnica e boa visão de jogo, embora não seja muito bom taticamente, mas isso vou aprendendo aos poucos. Agora jogo como ponta-de-lança ou segundo avançado, porque o 'mister' quer tirar-me desta divisão e tenho de marcar mais golos»

O Pedras Salgadas, sexto classificado da Serie A, assistiu a um verdadeiro renascimento. O jovem Marco parece agora longe do miúdo problemático que deixou o bairro dois anos antes.

Iniesta nos tempos em que representou o Desportivo de Chaves

Na camisola «usa e sempre usará» o nrº 38, como «ato de gratidão» para com o tio Tamboro, alguém muito importante na sua vida. Mas essa foi a única coisa que levou para Trás-os-Montes.

Fora do campo levou a cabo uma mudança radical. Nem o nome resistiu.

O Marco Aurélio de Talaide virou Marco Iniesta, ou Iniesta apenas.

Sim, o médio espanhol é de facto o jogador preferido, «o melhor que já viu naquela posição», porém há uma outra explicação por detrás do novo nome.

O meu nome no 'face' já era um pouco conhecido a nível de miúdas. Não foi para me livrar delas (risos) mas já tinha alguma fama negativa como Marco Aurélio então decidi mudar para Marco Iniesta. Assim era como se fosse uma pessoa nova que ninguém conhecia»

É de cara lavada, portanto, que o Iniesta de Pedras Salgadas quer escrever uma nova página na carreira, ajudando o clube a alcançar os objetivos, para começar.

O menino que teimou em não crescer vê-se agora forçado a tal.

«Gostava de dar uma vida melhor à minha filha, porque não tenho casa própria nem ganho o suficiente para pagar várias deslocações a Lisboa, onde está com a mãe», admitiu.

Uma casa nova para a filha, porque a dele, aconteça o que acontecer, será sempre a mesma.

«Aquilo que sou hoje devo ao meu bairro. O bom e o mau. Se aqueles miúdos mais velhos me tivessem deixado jogar com eles, aprender, quem sabe o que podia ter sido…»

 

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