Aos 47 anos e com duas temporadas de muito bom nível no Santa Clara, João Henriques é um dos treinadores do momento em Portugal. Nascido em Tomar, o técnico esteve mais de 20 anos à espera de uma oportunidade no principal escalão português. Agora, confessa em entrevista ao Maisfutebol, sente-se «preparado» para tudo o que a carreira lhe der, incluindo um trabalho num dos maiores emblemas do futebol nacional.

Há mais de um mês com o Santa Clara na Cidade do Futebol, João Henriques reflete sobre o percurso que o levou até ao Leixões e, mais tarde, ao Paços de Ferreira e a Ponta Delgada. Filho de um ex-dirigente do União de Tomar, que chegou a trabalhar com Eusébio, João Henriques fala da infância, dos primeiros anos no mundo do futebol e das histórias mais estranhas vividas no Médio Oriente. Um homem do desporto e que até já foi presidente de um clube.  

PARTE I: «Estou preparado para a pressão de treinar um grande»

PARTE II: «Fomos à Luz como se estivéssemos a jogar em casa»


PARTE III: «Vou comer um peixinho e decidir o meu futuro»

Maisfutebol - Como é que em 2011 se tornou presidente do Sp. Tomar?
João Henriques - Primeiro, aceitei porque o clube não tem futebol. A modalidade mais forte é o hóquei em patins. Isso surgiu porque tive uma lesão grave num joelho, abdiquei de treinar durante oito meses e o clube estava a procurar uma nova direção. Eu tinha sido atleta do Sp. Tomar [futsal], o meu irmão também, então decidimos entre amigos pegar no clube e ajudar. Nunca pensei ser o presidente, mas escolheram-me e fiquei dois anos. Tive alguma sorte. Subimos à I Divisão de hóquei em patins, os Sub17 foram campeões nacionais, as coisas correram bem. Entretanto, surgiu a possibilidade de ir para a Arábia Saudita.

  

Como é que lhe aparece esse convite?O Paulo Leitão era o coordenador técnico da academia do Sporting, estava com os projetos internacionais e o Sporting tinha um acordo com o Al Ahli Jeddah para implementar o modelo-Sporting. Ele convidou algumas pessoas e eu fui um deles. Estive um ano na formação do Al Ahli. Nos Emirados fui integrado na equipa técnica do José Peseiro. Fui para a equipa técnica dos Sub23, fomos vice-campeões. As equipas têm mais de 40 jogadores, há uma grande ligação entre a equipa A e a de Sub23. Foi muito interessante, estive próximo do José Peseiro e aprendi bastante.

Deve ter boas histórias dessas experiências no Médio Oriente.
Gosto muito desta. Há tantas (risos). Uma vez cheguei a um treino e o médico veio dizer-me que o nosso melhor jogador não podia treinar mais até ao fim da época. Ele era muito baixo e eles dão muita relevância ao aspeto físico na Arábia. Ouvi aquilo e perguntei se ele estava lesionado. ‘Não, não. Ele não está a crescer e temos de tirá-lo do treino’. Não percebi. ‘A alimentação serve para duas coisas: dá-te energia para treinar e faz-te crescer. Se ele não treinar, toda a energia dele vai para o crescimento e ele vai crescer muito mais depressa’. Foi uma situação surreal. Fiquei parado a olhar para ele, não queria acreditar, mas a verdade é que a carta médica já tinha seguido para o príncipe herdeiro. Ele era o dono do clube e aceitou a recomendação médica. Tiraram-me o meu melhor jogador até ao fim da época e ele cresceu, claro. Cresceu porque tinha 13 anos e com essa idade todos crescem.

Consegue comparar Jeddah com Abu Dhabi?
Em Jeddah foi mais difícil. Estávamos bem instalados, uma boa moradia, piscina, mas a cidade era muito confusa com o trânsito. Sentimos dificuldade, o choque foi tremendo. Nos Emirados foi muito melhor. Sentimos que estávamos na Europa, lá longe. Mais liberdade, menos restrições, apesar de viver na cultura árabe. Estávamos muito mais à vontade. Podíamos entrar e sair nos EAU quando quiséssemos e na Arábia não era assim.

Como é que foi a infância do menino João em Tomar?
O menino João não era nada sossegado e cresceu rodeado pelo futebol. O meu pai era diretor do União de Tomar na I Divisão, o meu padrinho foi guarda-redes do União de Tomar e jogou na formação do Benfica. Estive sempre muito envolvido com os jogadores, o balneário, os diretores. Tinha em casa um diretor, o meu avô foi enfermeiro do clube, a ligação era muito forte. Pratiquei várias modalidades, fui para Desporto na universidade e nunca deixei de olhar para o sonho de ser futebolista e treinador.

Em que posição jogava nas camadas jovens do União de Tomar?
Sempre fui ponta-de-lança, muito focado no ataque. Sou da geração dos campeões mundiais de Sub20 de Lisboa, em 1991. Joguei contra todos eles nos Campeonatos Nacionais de juvenis e juniores. Quando percebi que ia ser um jogador como muitos outros, apostei na minha formação como treinador.

Chegou a jogar hóquei em patins?
Não, só futsal. No Sp. Tomar e depois mais três anos na universidade. Gostei bastante, mas nada que se compare ao futebol.

O seu pai trabalhou com o Eusébio no União de Tomar?
Sim, sim, trabalharam juntos. Não me recordo muito bem, eu só tinha cinco ou seis anos. Ou seja, não tinha noção da dimensão do Eusébio. Lembro-me também de o Manuel José jogar lá.

Ídolos de infância, teve?
Platini, Rui Jordão, Manuel Fernandes, Chalana, todos por culpa do Euro-84. Mais tarde, o AC Milan do Arrigo Sacchi com o trio de holandeses: Van Basten, Gullit e Rijkaard.

Melhor e pior momento do João no futebol?
O pior foi claramente a descida do Paços de Ferreira. Foi terrível e não quero repetir. Melhor momento? O jogo pelo Leixões no Dragão. Senti que era ali que queria estar. E, mais recentemente, a vitória no Estádio da Luz pela qualidade apresentada.

O João vive 24 horas por dia a pensar no futebol?
Quase 24 horas. Também gosto de viajar, ouvir uma boa música, ver um bom filme e gosto de estar com os amigos nos petiscos a saborear as coisas boas da vida.