Lado B é uma rubrica que apresenta a história de jogadores de futebol desde a infância até ao profissionalismo, com especial foco em episódios de superação, de desafio de probabilidades. Descubra esses percursos árduos, com regularidade, no Maisfutebol:

Nascido nos subúrbios de Toulouse, a 26 de julho de 1985, o jovem Clichy começou a jogar com apenas cinco anos no AS Hersoise, bem perto de casa. A mãe era enfermeira e o pai, jardineiro com raízes na ilha de Martinica no Caribe, dedicava-se ao futebol local como treinador e árbitro.

Joel, homem de ideias fixas, teve um papel fundamental no desenvolvimento de Gael como jogador. «Como todos os outros jovens, o Gael só tinha interesse em utilizar o seu pé mais forte, que na altura era o direito. Mas eu insisti que ele jogasse com o esquerdo», explicou o pai, anos mais tarde.

«Lembro-me de ter apitado um jogo em que ele estava envolvido e em que lhe quis ensinar uma ligação. Disse-lhe que, se marcasse um golo com o pé direito, eu iria anulá-lo. Ele marcou mesmo e eu cumpri a palavra, mesmo estando a equipa dele a perder. Ninguém percebeu o que tinha acontecido mas o Gael começou a jogar com o pé esquerdo desde então. A certa altura, esqueceu-se do pé direito e hoje em dia está grato por isso», resumiu Joel Clichy.

O lateral confirma a história. «É tudo verdade. Agora, parece que sou um jogador esquerdino desde a nascença mas a verdade é que nem sempre foi assim. É como se ensinares uma segunda língua a um miúdo. Ele aprende rapidamente e foi isso que aconteceu comigo, em relação ao pé esquerdo. Onde é que eu estaria hoje se fosse destro?»

Gael Clichy aprendeu a jogar com o pé esquerdo desde os cinco anos mas de nada adiantaria se não tivesse sobrevivido por milagre uma década mais tarde. A carreira prosseguiu no JS Cugnaux, no AS Muret e no AS Tournefeuille. Entretanto, foi convidado para desenvolver o seu potencial na Pôle Espoirs de Castelmaurou, uma academia de futebol regional.

Em 2000, confrontado com o assédio de vários clubes franceses de topo, o jovem escolheu o Cannes. Os primeiros meses na Côte d'Azur ficaram marcados por um incidente que podia ter levado à morte de Gael.

«Eu tinha 15 anos e estava na jogar pelo Cannes», recorda. Para cortar caminho, ele e outro jogador da academia decidiram subir uma vedação de metal em torno das instalações do clube. Correu mal.

«Fiquei com um anel preso na vedação e perdi a pele e o tecido de um dedo. Magoei-me bastante e tive de ser operado de imediato. A operação durou perto de oito horas e, nessa altura, o meu coração parou durante 15 segundos. Não me lembro de muito, mas sei que, quando regressei, percebi que a vida é curta. Os médicos disseram que foi um milagre», sintetiza Gael Clichy.

Esse episódio justifica a sua postura perante a vida. «Antes disso, se eu tivesse um jogo passadas duas semanas, não me preocupava muito até lá chegar. A partir daí, percebi que cada dia é importante, porque amanhã posso não cá estar, ou pode não estar alguém muito próximo de mim.»

«Sendo profissional de futebol, tem de dar o máximo até me retirar, até ter 40 anos e não conseguir mais correr», conclui Clichy.

O esquerdino – convertido – evoluiu rapidamente no Cannes e despertou a atenção de Arsène Wenger. No verão de 2003, o treinador do Arsenal deslocou-se a Tournefeuille para visitar a família do jogador, então perto de celebrar o seu 18º aniversário.

Gael Clichy assinaria contrato profissional com o Arsenal, assumindo-se como o sucessor natural de Ashley Cole.

«Quando cheguei a Inglaterra, perguntaram-me se queria viver com alguém que pudesse tomar conta de mim. Mas em Cannes eu já estava a viver com amigos e pensei que, com 17 anos (a caminho dos 18) estava preparado para morar sozinho. Os primeiros meses foram difíceis, mas depois o meu pai visitou-me, ensinou-me a cozinhar e a partir daí tudo correu melhor», revela o jogador.

O internacional francês conquistou o seu espaço no Arsenal e na seleção de França. Em 2011, assinou pelo Manchester City. Foi campeão de Inglaterra pelos dois clubes.