Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências.

Na grande metrópole que se estende pelas duas margens do estreito do Bósforo, ali onde a Europa e Ásia se encontram, André Castro encontrou um lugar para ser feliz a jogar futebol.

Na quarta época na Turquia, sempre ao serviço do Kasimpasa, o médio português de 29 anos está a viver o melhor momento da sua carreira. Prova disso é que tem o melhor registo de golos (sete, seis deles na Liga) e de minutos, é um dos capitães de equipa, um dos intocáveis no onze. Não é de estranhar portanto que, em final de contrato, existam várias propostas de clubes da Liga Turca e de fora do país.

«Tenho uma proposta para renovar com o Kasimpasa, mas há outros clubes turcos interessados e clubes estrangeiros também. Até ao final do mês vou decidir o meu futuro», afirma ao Maisfutebol Castro, que, antes de tudo, quer focar-se nos objetivos que a sua equipa tem até ao final da temporada.

Castro celebra um golo do Kasimpasa nesta edição da Liga Turca

O principal é já nesta terça-feira: depois de vencer na primeira mão das meias-finais o Konyaspor, por 3-2, o Kasimpasa vai tentar segurar a vantagem para conseguir uma inédita presença na final da Taça da Turquia.

«É o jogo do ano para nós. O Kasimpasa vai tentar chegar à final da Taça da Turquia pela primeira vez na sua história», afirma Castro, antes de sublinhar a sua satisfação com a boa época que está a fazer pelo atual 7.º classificado da Liga Turca (a três jornadas do final):

«Tenho mais golos e mais assistências porque agora jogo numa posição mais adiantada do terreno, como médio-ofensivo. Fiz todos os jogos, exceto aqueles em que tive de cumprir castigo por amarelos, e ainda no início do mês (6 de maio) bisei pela primeira vez. E logo frente ao Galatasaray. Esse foi talvez o jogo mais especial desde que cá cheguei, pelos dois golos e porque vencemos um dos grandes do futebol turco (1-3, na 30.ª jornada).»

Galatasaray 1-3 Kasımpaşa maç özeti por vidyotaym

O azar de um nariz partido e a máscara da sorte

Apesar da boa forma, em fevereiro Castro teve uma contrariedade que quase lhe pôs a época em risco. O azar, porém, virou um golpe de sorte:

 «Parti o nariz… Decidiram não operar porque iria perder boa parte do que resta da época e passei a usar uma máscara para jogar. Ora, ganhámos os sete jogos que fiz com a máscara e nesse período marquei quatro golos. Depois de recuperar, até me custou a tirá-la. Eu não sou de superstições, mas no primeiro jogo que fiz sem ela… perdemos com o Alanyaspor do Daniel Candeias. “Bem dissemos para não jogares sem a máscara”, lembraram-me os meus colegas de equipa, no balneário, após esse jogo.»

Castro vive do lado europeu de Istambul, onde está sediado o Kasimpasa, e está perfeitamente adaptado à vida numa gigantesca urbe de 14 milhões de habitantes:

«Gosto muito de cá estar. Ando na rua, vou aos centros comerciais, a restaurantes, italianos, japoneses… Apesar de a comida turca ser boa também, talvez um pouco picante demais. Ao contrário da perceção que muitas vezes existe de quem está de fora, aqui nunca me senti em perigo. Vivo com a minha mulher e com o meu filho numa “villa”, numa zona pacata, com muitas árvores, um sítio bonito e relativamente perto do centro da cidade. Há diferenças, claro. Às sextas, todos vão à mesquita. Das coisas mais estranhas que vi foi num restaurante as mulheres tapadas (com um niqab) com uma dificuldade enorme incrível em usarem o garfo para comer porque a roupa atrapalhava. Mas isso é um episódio apenas; a maioria das turcas usa apenas o lenço (hijab). O ambiente é semelhante ao de outras grandes cidades europeias.»

Castro resume com simplicidade a sua adaptação à vida em Istambul: «Sou mais conhecido na Turquia do que em Portugal. Encaro isso como algo natural, até porque já sou o jogador português com mais jogos no campeonato turco.»

Estádio do Kasimpasa, na parte europeia de Istambul

Apesar de sublinhar as boas condições do clube, como «um centro de treinos fantástico, do melhor que há no país», o médio reconhece as diferenças de dimensão entre o seu Kasimpasa e os grandes vizinhos istambulitas:

«É um pouco como em Portugal. A maior parte das pessoas na cidade e no país são adeptas de Galatasaray, Fenerbahçe e Besiktas. Nós não temos muitos adeptos, mas o Istambul BB também não e está nesta época a lutar para ser campeão.»

Aposta de Vítor Pereira, dispensado por Paulo Fonseca

Castro chegou à Turquia em 2013/14, emprestado pelo FC Porto.

No Dragão, o médio gondomarense (formado no Gondomar e no FC Porto) teve algumas oportunidades, mas acabou por não singrar: estreou-se na época 2007/08, esteve nas duas épocas seguintes cedido ao Olhanense e voltou a fazer parte do plantel principal portista na primeira metade da época 2010/11. Depois disso, uma época e meia de cedência ao Sp. Gijón, «uma excelente experiência na Liga Espanhola», e o regresso aos dragões para uma boa prestação em 2012/13, última época em que o FC Porto foi campeão, sob o comando de Vítor Pereira.

«Tenho pena de não ter ficado. O FC Porto estava num momento diferente do de agora. Aliás, fui sempre campeão em todas as épocas que fiz parte do plantel. O meio-campo tinha Fernando, João Moutinho, Lucho González… Não era fácil entrar naquela equipa. No entanto, no ano do Kelvin (2012/13), com o Vítor Pereira, fui o suplente mais utilizado (25 jogos, um golo). Na temporada seguinte, o Paulo Fonseca entendeu que devia de prescindir de mim e dispensou-me. Fui emprestado ao Kasimpasa, que acabou por exercer a opção de compra.»

Castro ao serviço do FC Porto

Ao contrário do FC Porto, para Castro a Seleção Nacional não é passado. Esteve bem perto da primeira internacionalização num particular com o Luxemburgo, em agosto de 2011, e em novembro desse ano fez parte da lista de pré-convocados do play-off de acesso ao Euro, frente à Bósnia.

«Nesse particular, no Estádio do Algarve, estive até a aquecer ao lado do Nuno Gomes, mas no final o Paulo Bento acabou por chamá-lo a ele e eu não entrei. Foi uma oportunidade que se perdeu», recorda.

Não chegou a vestir a camisola da seleção A, ainda assim, não perde a esperança de um dia finalmente estrear-se pela Seleção Nacional:

«Fui internacional nas seleções jovens mais de 60 vezes e gostava de um dia ter a oportunidade de ser chamado à seleção principal. Continuo a trabalhar nesse sentido e tenho aspirações, legítimas, acho: por exemplo, não sei se há algum médio português com mais golos do que eu nesta época.»