O futebol português juntou-se no Parque dos Poetas, em Oeiras, para debater o impacto que a pandemia covid-19 teve nas finanças do futebol profissional, tendo acabado a gritar que não é possível continuar a crescer de uma forma sustentada sem a centralização dos direitos televisivos.

No fundo, e muito pertinentemente, há uma consciência global de que este é um tema imperativo.

Começando pelo início, é preciso dizer que a covid-19 significou perdas de receitas de 135 milhões de euros, o que, avisou Pedro Proença, pode trazer ao setor do futebol balanços de final de ano negativos. A suspensão da II Liga e a ausência de público foram determinantes nesse aspeto.

Ora na época anterior, o futebol profissional gerou um volume de negócios de 851 milhões de euros, pelo que facilmente se percebe que as perdas provocadas pela pandemia se situam na ordem de 16 por cento: e o ano ainda não acabou, nem se sabe quando o público volta aos estádios.

Perante este cenário, houve um ponto em que os oradores foram unânimes: a pandemia mostrou como a inexistência de direitos centralizados é um dos pontos mais débeis do futebol português, tendo a resposta à pandemia sido dificultada pela incapacidade de se ter uma atuação concertada.

Mas há mais, claro.

Pedro Proença, por exemplo, sublinhou que «é necessário cortar a dependência que os clubes têm das receitas extraordinárias», sendo que em Portugal as transferências ainda são, ao contrário que acontece noutros países, a maior fonte de receita dos clubes: e é uma fonte de receita imprevisível.

«É urgente reestruturar o modelo de venda dos direitos televisivos, temos de encontrar um novo modelo de equilíbrio competitivo», adiantou Pedro Proença, recordando que a centralização dos direitos vai permitir uma melhor distribuição do dinheiro, e um campeonato mais equilibrado.

Nesse aspeto, vale a pena lembrar que em nenhum país europeu a desigualdade entre os valores distribuídos aos clubes do topo e aos clubes do meio da tabela é tão grande: em Portugal o rácio é de 15 para 1, enquanto nos outros países o rácio é em média inferior a 3 para 1: cinco vezes inferior.

Sabe-se também, pela experiência recolhida no estrangeiro, que a centralização dos direitos permitiria o crescimento dos clubes mais pequenos, o que aumentaria a competitividade destes e, por arrasto, a competitividade do próprio campeonato: o que faria crescer o interesse na Liga.

Pedro Proença lembra, nesse sentido, que «a sustentabilidade financeira dos clubes e a valorização do espetáculo são desafios que a pandemia mostrou ser urgente resolver», pelo que ter um campeonato mais forte é fundamental para «internacionalizar a marca como objetivo estratégico».

Ora vale a pena olhar para outro gráfico mostrado por Miguel Farinha, responsável pelo anuário do futebol, o qual apresenta a diferença entre o que os cinco maiores campeonatos recebem da venda de direitos para o estrangeiro e o que recebem os clubes portugueses.

Excluindo desta análise campeonatos muito superiores, como são o inglês e o espanhol, vale a pena ainda assim dizer que Portugal recebe 20 por cento do que recebe Itália do mercado interno, mas esse valor desce para 2 por cento quando se fala das receitas do mercado internacional.

Já quando o termo de comparação é o mercado francês, Portugal recebe do mercado doméstico 25 por cento da receita que o futebol francês faz com a venda dos direitos em França, mas este valor desce para 10 por cento quando se olhar para as receitas do mercado internacional.

Posto isto, parece não haver muitas dúvidas: a venda centralizada dos direitos televisivos permite uma melhor distribuição das receitas por todos os clubes, por arrasto traz melhores clubes pequenos, mais competitividade dentro do campeonato e um melhor campeonato para o público.

Porque ainda não avançou então em Portugal? Basicamente porque os clubes grandes, sobretudo o Benfica, não o permitiram. A SAD encarnada vendeu individualmente os direitos à NOS quando todos discutiam a hipótese de fazer essa venda centralizada, e inviabilizou a negociação coletiva.

A verdade, porém, é que mesmo Sporting e FC Porto nunca deram o passo para a venda centralizada. O que nos permite concluir que os grandes não querem uma Liga melhor: querem a Liga como ela está: mantendo o fosso para os clubes pequenos e assim ganhando mais vezes e mais facilmente.

Farto de esperar que os clubes se entendessem entre eles, e se entendem com a Liga, o governo vai impor mesmo a centralização da venda dos direitos. Pelo menos foi o que garantiu o secretário de Estado do Desporto, João Paulo Rebelo, o qual falou da possibilidade de legislar nesse sentido.

«Constituímos um grupo de trabalho que fez o seu trabalho e o seu trabalho traduziu-se num grande consenso de que essa é uma necessidade. Por isso temos de criar a legislação para que a centralização dos direitos televisivos seja uma realidade», referiu João Paulo Rebelo.

«O objetivo, não tivesse sido esta pandemia e a urgência em tratar de outras questões, era já ter esse trabalho feito. Mas seguramente que na próxima sessão legislativa encontraremos o momento para isso: o plano é criarmos as condições já para que em 2027 a centralização seja uma realidade.»

Não vai a bem, portanto, vai à força: com a força da lei. O governo entra assim no campo do futebol para garantir as bases para que o campeonato nacional seja mais equilibrado e competitivo.

O que faz sentido em vários aspetos: até no financeiro. Afinal de contas a indústria do futebol profissional em Portugal gerou 851 milhões de euros na época anterior e contribuiu com 549 milhões de euros para o Produto Interno Bruto (representa 0,27 por cento do PIB).