Depois do Adeus é uma rubrica do Maisfutebol dedicada à vida de ex-jogadores após o final das suas carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como passam os seus dias? O dinheiro ganho ao longo dos anos chega para subsistir? Confira os testemunhos, de forma regular, no Maisfutebol.

«Há pessoas que nunca têm uma oportunidade na vida, sei que sim. A minha chegou, não a aproveitei e lá se foi. Agora é olhar em frente, que a vida continua.»

Hélder Calvino encolhe os ombros, os ombros largos, no modesto gabinete de um condomínio privado na Boavista. Aos 30 anos, fala do futebol no passado. Terminou a adolescência como uma grande promessa e, uma década mais tarde, percebeu que o sonho se tinha esfumado.

O Maisfutebol descobre uma pessoa diferente. Quando despontou no Boavista, em 2003, era um jovem magrinho, apoiado na qualidade técnica. Agora parece outro, com um corpo densamente musculado, tatuagens e piercings. Reinventou-se.

Esteve a um passo do Sporting, chegou à seleção sub-20 e teve o mundo a seus pés. Seguiram-se as desilusões, os salários em atraso, os empréstimos sucessivos. Depois de rescindir contrato com o emblema do Bessa, habituou-se a jogar na II B e na III. A certa altura, fartou-se.

Calvino desistiu do futebol aos 28 anos e encarou uma nova realidade. Hoje em dia, trabalha como segurança num condomínio privado e complementa o salário fixo em bares e discotecas.

«Agora sou barman, bailarino de música latina, animador noturno. Aprendi tudo, fui sempre assim. As pessoas ainda me conhecem, vêm-me perguntar se era o jogador e ainda me pedem autógrafos e fotos. Enfim, vivo do meu trabalho e isso deixa-me de consciência tranquila.»

 

 

Foi campeão nacional de juniores no início do milénio e viveu o sonho. Ganhava 200 euros, passou a viver com um salário de 5.000. Mais casa e veículo fornecidos pelo Boavista. De repente, estava no topo do mundo.

«No fim do jogo em que fomos campeões de juniores, João Loureiro chamou-me, disse-me que ia assinar por cinco anos e que seguiria com o plantel para estágio na semana seguinte. Começou tudo a falar de mim, surgiram patrocínios de marcas de roupa. Depois vieram uns jogos e a seleção nacional. Saí de casa dos meus pais, de quem dependia até ali, e a minha vida mudou completamente.»

Hélder Calvino fez apenas 6 jogos na Liga portuguesa. Tinha 18 anos e um potencial tremendo. Chegou a ter um pré-acordo com o Sporting mas a transferência caiu por terra à última hora. «O que falhou foi entre direções», explica. Por essa altura era já uma figura conhecida no Porto.

«Quando uma pessoa ganha bom dinheiro aparecem empresários, aparecem amigos a pedir isto e aquilo. Eu não dizia que não a nada e apareceram pessoas que me levaram por maus caminhos. Drogas não, que nunca me meti nisso, mas ir para a noite, jantares até tarde, etc. Isso começou a prejudicar-me.»

No ano seguinte rumou por empréstimo a Paços de Ferreira. Foi campeão na II Liga mas teve de lidar com uma lesão incómoda. Para além disso, a imagem ia sendo beliscada.

«Aos poucos a situação começou a mudar. Não era por falta de qualidade mas comecei a criar a fama de ser da noite, embora não fosse tanto assim. Fui então para o FC Marco, também na II Liga, e fiz uma boa época. Por outro lado, voltei a ficar com salários em atraso.»

Calvino lidou com essa lamentável realidade ao longo da curta carreira.

«Fiquei com cinco meses de ordenado em atraso no Marco. No Boavista tinham sido nove. No Estoril pagaram-me direito, mas depois foram mais três no Lousada, outros três no Lourosa. Enfim, comecei a ver a minha vida a andar para trás e a perder o gosto. Só no Boavista foram, e são, 67 mil euros de dívida. Com esse dinheiro estaria bem melhor agora.»

Ainda assim, o ex-jogador guarda boas recordações dos anos passados no Boavista e revela que foi praticamente «obrigado», ou mal aconselhado, a rescindir contrato com o clube do Bessa.

«Enfim, mas sei que estou nesta situação porque sou culpado. Fui culpado de ouvir amigos falsos, ir por outros caminhos, mas acho que ainda assim tive uma história bonita. Fui internacional sub-20, fui campeão júnior no Boavista, joguei na Liga, fui campeão na II Liga, ainda na III pelo Cinfães. Sei que podia ter ido mais longe, mas é a vida.»

Calvino: «Há muitos jogadores que vivem à custa dos pais»

Em 2012, desiludido com o mundo do futebol, decidiu olhar em frente. Começou a trabalhar como segurança, um emprego que mantém até aos dias de hoje, e escolheu a via mais segura para o seu futuro.

«No Sp. Espinho tinha treinos de manhã e já trabalhava como segurança neste condomínio. Estive meio ano a trabalhar da meia-noite às oito e depois ia para os treinos às nove. Cheguei a um ponto que não aguentei mais. Já não rendia, ou no trabalho ou no futebol, e como estava desiludido com o futebol, decidi abandonar no final dessa temporada, 2012/13. Ainda estive uns meses no Oliveira do Douro, gostei bastante, mas a decisão estava tomada.»

Farto de promessas e com maiores responsabilidades – admite que tudo mudou com o nascimento da filha, a quem pretende dar uma vida estável – Hélder Calvino terminou a carreira aos 28 anos.

«Estava farto de promessas de pagamento, uma pessoa não pode viver disso. Se devermos dinheiro ao banco, eles vêm logo buscar. Fartei-me e abandonei, tive de procurar soluções. Nunca pensei trabalhar na noite mas percebi que era bom dinheiro e decidi arriscar, sabendo que não é uma vida a médio prazo. É apenas um extra, um complemento, e ao menos ali ganho ao final de cada noite, não falha.»

Hoje em dia, cumpre o seu horário como segurança e passa as noites de sexta-feira e sábado em bares e discotecas, para ganhar mais um pouco. O antigo jogador sacrifica-se para ter, ao final do mês, um pouco mais de dois salários mínimos. Entretanto, mudou radicalmente a sua aparência.

«Até deixar o futebol, aos 28 anos, detestava ginásios. Entretanto, percebi que os meus colegas que trabalhavam na noite eram todos entroncados e pensei ficar assim. Agora o ginásio é um vício, pelo menos uma hora por dia. Os meus pais não gostam muito, também não gostam das tatuagens e dos piercings, mas sabem que é para um trabalho digno, se bem que se vê muita coisa má na noite, muita podridão.»

Hélder Calvino tem o 12º ano mas de pouco lhe vale: «Está difícil encontrar trabalho, até para pessoas que conheço com cursos superiores». Descansa pouco ou nada e sacrifica o tempo com a filha para garantir a subsistência.

«Só consigo descansar ao domingo, se estiver de folga no condomínio. Valem-me a patroa e os colegas, que me trocaram os horários para eu poder trabalhar à noite. Por outro lado, de quinta à sábado são os dias para ficar com a minha filha e não consigo. Enfim, faço-o a pensar no dinheiro que precisamos para o futuro.»

No final da conversa, uma conclusão desarmante. 

«Sabe uma coisa? Dou mais valor à vida agora. Ando de cabeça erguida e orgulhoso, porque vivo do trabalho, de um trabalho honesto.»