Depois do Adeus é uma rubrica do Maisfutebol dedicada à vida de ex-jogadores após o final das suas carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como passam os seus dias? O dinheiro ganho ao longo dos anos chega para subsistir? Confira os testemunhos, de forma regular, no Maisfutebol.

«Há pessoas que nunca têm uma oportunidade na vida, sei que sim. A minha chegou, não a aproveitei e lá se foi. Agora é olhar em frente, que a vida continua.»



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«Agora sou barman, bailarino de música latina, animador noturno. Aprendi tudo, fui sempre assim. As pessoas ainda me conhecem, vêm-me perguntar se era o jogador e ainda me pedem autógrafos e fotos. Enfim, vivo do meu trabalho e isso deixa-me de consciência tranquila.»
 





«No fim do jogo em que fomos campeões de juniores, João Loureiro chamou-me, disse-me que ia assinar por cinco anos e que seguiria com o plantel para estágio na semana seguinte. Começou tudo a falar de mim, surgiram patrocínios de marcas de roupa. Depois vieram uns jogos e a seleção nacional. Saí de casa dos meus pais, de quem dependia até ali, e a minha vida mudou completamente.»

«O que falhou foi entre direções»

«Quando uma pessoa ganha bom dinheiro aparecem empresários, aparecem amigos a pedir isto e aquilo. Eu não dizia que não a nada e apareceram pessoas que me levaram por maus caminhos. Drogas não, que nunca me meti nisso, mas ir para a noite, jantares até tarde, etc. Isso começou a prejudicar-me.»



«Aos poucos a situação começou a mudar. Não era por falta de qualidade mas comecei a criar a fama de ser da noite, embora não fosse tanto assim. Fui então para o FC Marco, também na II Liga, e fiz uma boa época. Por outro lado, voltei a ficar com salários em atraso.»



«Fiquei com cinco meses de ordenado em atraso no Marco. No Boavista tinham sido nove. No Estoril pagaram-me direito, mas depois foram mais três no Lousada, outros três no Lourosa. Enfim, comecei a ver a minha vida a andar para trás e a perder o gosto. Só no Boavista foram, e são, 67 mil euros de dívida. Com esse dinheiro estaria bem melhor agora.»



«Enfim, mas sei que estou nesta situação porque sou culpado. Fui culpado de ouvir amigos falsos, ir por outros caminhos, mas acho que ainda assim tive uma história bonita. Fui internacional sub-20, fui campeão júnior no Boavista, joguei na Liga, fui campeão na II Liga, ainda na III pelo Cinfães. Sei que podia ter ido mais longe, mas é a vida.»

Calvino: «Há muitos jogadores que vivem à custa dos pais»



«No Sp. Espinho tinha treinos de manhã e já trabalhava como segurança neste condomínio. Estive meio ano a trabalhar da meia-noite às oito e depois ia para os treinos às nove. Cheguei a um ponto que não aguentei mais. Já não rendia, ou no trabalho ou no futebol, e como estava desiludido com o futebol, decidi abandonar no final dessa temporada, 2012/13. Ainda estive uns meses no Oliveira do Douro, gostei bastante, mas a decisão estava tomada.»



«Estava farto de promessas de pagamento, uma pessoa não pode viver disso. Se devermos dinheiro ao banco, eles vêm logo buscar. Fartei-me e abandonei, tive de procurar soluções. Nunca pensei trabalhar na noite mas percebi que era bom dinheiro e decidi arriscar, sabendo que não é uma vida a médio prazo. É apenas um extra, um complemento, e ao menos ali ganho ao final de cada noite, não falha.»



«Até deixar o futebol, aos 28 anos, detestava ginásios. Entretanto, percebi que os meus colegas que trabalhavam na noite eram todos entroncados e pensei ficar assim. Agora o ginásio é um vício, pelo menos uma hora por dia. Os meus pais não gostam muito, também não gostam das tatuagens e dos piercings, mas sabem que é para um trabalho digno, se bem que se vê muita coisa má na noite, muita podridão.»



«Está difícil encontrar trabalho, até para pessoas que conheço com cursos superiores»

«Só consigo descansar ao domingo, se estiver de folga no condomínio. Valem-me a patroa e os colegas, que me trocaram os horários para eu poder trabalhar à noite. Por outro lado, de quinta à sábado são os dias para ficar com a minha filha e não consigo. Enfim, faço-o a pensar no dinheiro que precisamos para o futuro.»



«Sabe uma coisa? Dou mais valor à vida agora. Ando de cabeça erguida e orgulhoso, porque vivo do trabalho, de um trabalho honesto.»