FOTOS: Ricardo Jorge Castro

Domingos Paciência em grande entrevista ao Maisfutebol. Poucos dias depois de completar 50 anos, o antigo ponta-de-lança abre o coração e o baú de memórias. Ele é o sexto melhor marcador de sempre do FC Porto e o último português a ganhar a Bola de Prata.

A carreira de treinador está suspensa há um ano, a aguardar um desafio que dê «prazer e entusiasmo». Há sete anos e meio, Domingos era o treinador que quase todos queriam. Do Sp. Braga na final de Dublin ao Sporting, de Alvalade às escolhas seguintes e à recente separação com o Belenenses. 

Tudo numa conversa em frente ao rio Douro, num banco do jardim do Passeio Alegre.   

PARTE 1: «Não tinha medo de errar e resolvi três Sporting-Porto»

PARTE 3: «Madjer já era jogador de playstation há 30 anos»

PARTE 4: «Falhei a foto do plantel 87/88 por estar a tirar a carta»

Maisfutebol – Aos 50 anos, o Domingos continua apaixonado pelo futebol?

Domingos Paciência – A paixão é a mesma de sempre, mas admito que a minha perspetiva sobre o jogo, agora como treinador, tem mudado ao longo dos anos. Vejo o futebol de outra maneira. Quando comecei no Leiria havia nervosismo, irreverência… a forma como reagia às injustiças, por exemplo. Estou muito diferente agora. Já passei por muito e o Domingos de 2007, treinador do Leiria, pouco tem a ver com o atual.

MF – Em 2011 leva o Sp. Braga a uma final europeia e o Domingos era o treinador da moda. Sete anos e meio depois, o que resta desse treinador?

DP – Concordo com essa ideia. Acho que era um pouco o treinador da moda. Cheguei ao Sp. Braga e as coisas correram-me bem. Se tivesse ganho a Liga Europa em 2011 pelo Sp. Braga podia ter dado o salto para um patamar ainda melhor. Para mim, um treinador português só consegue entrar diretamente nos grandes campeonatos se ganhar uma competição europeia. Ser campeão português não abre as portas que queremos. Assim tive duas hipóteses: ou ficava em Braga ou aceitava o convite do Sporting, o único dos três grandes que estava sem treinador.

MF – E decidiu aceitar o desafio-Sporting.

DP – Meti na cabeça que seria eu a tornar o Sporting campeão e a colocar o clube num ciclo vitorioso. Seria essa a luta. Infelizmente, o futebol português mostrou-me que vive de instabilidade, da urgência de resultados, e essa passagem pelo Sporting marcou-me a carreira. Tive em Alvalade o mesmo problema de outros treinadores. Não aproveitei esse trampolim e depois optei por projetos muito idênticos aos do Leiria e da Académica. Ou seja, clubes que estavam em situações delicadas, a lutar pela manutenção. Refiro-me ao Deportivo e ao Kayserispor. Em vez de voltar ao patamar do Sp. Braga, voltei a um patamar abaixo: Vitória de Setúbal e Belenenses.

MF – Por que tomou essas opções?

DP – Essas decisões pós-Sporting foram quase todas tomadas a pensar em mim e na minha família. Fui para Setúbal e para o Restelo porque queria estar perto do Gonçalo e do Vasco, os meus filhos, pois nessas fases precisavam da minha presença. Prejudiquei a minha carreira com essas opções, mas salvaguardei a família.

MF – Saiu há um ano do Belenenses. Que ambição tem para o próximo passo na carreira?DP – Não estou a trabalhar por opção. O telefone tem tocado muito. Empresários, clubes… Decidi que o próximo projeto tem de me dar prazer e motivação. O dinheiro é importante, mas está longe de ser tudo. Quero um grupo focado num objetivo importante. Não quero trabalhar só para receber no fim do mês. Quero acordar e sentir entusiasmo em estar com os meus jogadores. Se aparecer, ótimo. Se não aparecer, continuarei a ver jogos, a acompanhar os meus filhos, enfim, a viver.

MF – Esta é uma fase importante. De reflexão?

DP – Sim, também por ter chegado aos 50 anos. Como futebolista vivi coisas incríveis, ganhei 17 títulos no FC Porto, fui o melhor marcador nacional, estive em meias-finais europeias, fui a um Europeu, mas nunca cheguei a uma final europeia. E como treinador já consegui isso. Acho que já vivi quase tudo o que um profissional do futebol pode viver e isso engrandece-me.

MF – No Sporting há um momento marcante. Em Paços Ferreira está a perder 2-0 e marca três golos nos últimos 15 minutos. Inicia aí um ciclo de dez vitórias seguidas. Nem nessa fase sentiu a desconfiança a abrandar?

DP – Nem aí. Fui contratado e o Godinho Lopes e o Carlos Freitas disseram-me que queriam iniciar um projeto de dois anos, para ser campeão no segundo. Contratámos 16 jogadores e construímos uma equipa que dava gosto de ver jogar. Sempre em pressão alta, com o Elias e o Schaars a dar um dinamismo forte ao meio-campo. O Van Wolswinkel na frente, muito móvel. Qualificámo-nos logo na Liga Europa e em fevereiro chegámos à final da Taça de Portugal.

MF – Sai do Sporting depois de uma derrota no Funchal. E deixa a equipa no quarto lugar. Foi esse o problema?

DP – Não, o problema não foi esse. Perdemos 1-0 na Luz umas semanas antes e o presidente veio a público dizer que íamos ser campeões. Quebrou aí aquilo que tínhamos definido e, claro, mexeu com os sportinguistas. Nessa época estávamos a preparar um plantel para atacar o título no ano seguinte. Foi uma precipitação, o compromisso não era esse. As pessoas não tiveram paciência comigo no Sporting, como é normal no futebol português. O Santiago Arias, agora no Atlético Madrid, estava a aparecer, o Ínsua estava a render muito bem… Em Portugal não há projetos a dois/três anos, só de semana a semana. O Keizer, se calhar, vai ter os mesmos problemas que eu tive. O futebol é bipolar e tem pessoas bipolares.

MF – O que lhe disse o presidente Godinho Lopes na altura da rotura?

DP – Reunimos num hotel em Lisboa e devo dizer que esse senhor portou-se muito bem comigo, foi cinco estrelas. Senti algum nervosismo da parte dele, mas disse-me olhos nos olhos que não era para continuar. Foi honesto. Não sei se foi uma decisão dele ou tomada sob pressão. É uma pessoa de bem, com bom coração e que neste mundo do futebol teria sempre dificuldades. Continuo a ter boa relação com ele.

MF – O FC Porto nunca o convidou para treinador principal?

DP – Abordagem direta… nunca houve. Uma vez encontrei o Antero Henrique [ex-responsável pelo futebol do FC Porto] e perguntei-lhe diretamente se as notícias eram verdadeiras e se o clube estava interessado em mim. Ele disse-me que não, que estava à procura de alguém com experiência no futebol europeu. Isto foi na altura em que estive com o Sp. Braga na Liga dos Campeões e na Liga Europa, e fiz 18 jogos na UEFA. Em 2010/11. Se isto não era ter experiência [risos]. Mas aceitei o que me disse, claro. Optaram pelo André Villas-Boas, que vinha da Académica.

MF – Sente que a sua ligação histórica ao FC Porto prejudicou-o enquanto treinador?

DP – Eu vejo em Portugal coisas que não vejo em mais lado nenhum. As pessoas não percebem que deixei de ser futebolista, saí do FC Porto e iniciei uma carreira de treinador, com ambição. Ora, eu entrava em estádios e ouvia insultos e mais insultos. As pessoas sugeriam que estava lá por culpa do Pinto da Costa. Nunca distinguiram uma coisa da outra. Eu saí do FC Porto por minha vontade, no momento em que defini. Ainda hoje me relacionam com o FC Porto. Sou portista? Caramba, fui para lá com 13 anos, fui ajudado por toda a gente, é impossível não ser portista até ao fim da vida. Mas quando estou noutro clube… só quero vencer, seja contra o FC Porto ou o Benfica.

MF – O Domingos joga, aliás, uma final europeia contra o FC Porto.

DP – E fiquei muito chateado. Custou-me perder esse jogo. Preparei essa final para ser um jogo fechado. O Porto tinha uma super-equipa. Hulk, James, Falcao, Guarín… O Jesualdo construiu um grande plantel e o Villas-Boas fez um trabalho fantástico com ele. Se eu tivesse um Hulk numa equipa minha… meus amigos, com todo o respeito. Ter o Hulk e o Falcao, isso faz um treinador. E por isso optei por uma abordagem calculista, arrastar o nulo o mais possível e arriscar mais tarde. O Falcao marcou perto do intervalo e depois a primeira grande oportunidade de golo é nossa, pelo Mossoró. A bola ficou presa no pé do Helton e não entrou. Ao intervalo fiz duas mexidas para ir atrás da vitória. Entre o coração, o ser portista, e a ligação aos meus jogadores… vou sempre pela segunda.

O resumo da final de 2011 da Liga Europa:

MF – Como é que a sua família viveu essa final?DP – Dividida. Os meus filhos levavam a camisola do FC Porto e do Sp. Braga vestidas [risos]. Elejá jogavam no FC Porto, mas tinham o pai do outro lado. Também não foi fácil para ele.

MF – Falta falar da sua saída do Belenenses. O clube já viva este problema entre clube e SAD?DP – Acima de tudo havia necessidades urgentes no plantel. Quando saí foram buscar os jogadores que eu tinha exigido para subir de patamar. Senti que as coisas estavam a ser tratadas por trás. Não gostei que tivessem contratado o Silas para treinador quando nem sequer havia ainda uma equipa B. Ele era presença assídua nos nossos jogos. E começaram a contratar jogadores à minha revelia. Perdi a confiança. Ligavam-me empresários a dizer que aquele jogador ia para lá e eu não sabia de nada.

MF – Houve quebra de confiança em relação à SAD?

DP – Sim. Percebi que os jogadores que eu pedi não viriam. A equipa jogava bem, tinha prazer, mas havia sempre alguma coisa. Um livre no último minuto, um autogolo… a lesão do Tandjigora obrigou-me a mudar a forma de estar no meio-campo. E eu numa conferência de imprensa disse aquilo que sentia. Vieram o Licá e o Yazalde quando eu já não estava. As pessoas não aguentam a pressão e tomam decisões debaixo dessa pressão. Mas tive muito prazer em estar no Belenenses, um enorme clube. Como o Vitória de Setúbal, aliás.

[entrevista originalmente publicada às 23h55, 10-01-2019]