Efeméride é uma rubrica que pretende fazer uma viagem no tempo por episódios marcantes ou curiosos da história do desporto, tenham acontecido há muito ou pouco tempo. Para acompanhar com regularidade, no Maisfutebol.

23 de setembro de 1919. Há 95 anos, o sonho de uma noite de Verão tornava-se realidade. Apadrinhado por Afonso de Albuquerque, e com jogadores de vários clubes como fundadores, nasce um clube que tem como objetivo unir os rapazes de Belém.

O fundador

Nascido em Belém em 1889, um ano depois do futebol ter chegado a Portugal pela primeira vez, Artur José Pereira foi considerado o melhor jogador dos primeiros tempos do futebol nacional. 

 

Filho de uma família humilde, começou a praticar desporto nas ruas do bairro. Além do futebol, adorava o ciclismo. Mas a bola era a grande paixão. Com 14 anos começou a jogar no clube do seu bairro, o Sport União Belenense. Mudou-se depois para o Sport Lisboa, clube também de Belém, mas que um ano depois se fundiu com o Grupo Sport Lisboa e deu origem ao Sport Lisboa e Benfica. Tinha 18 anos.

Esteve sete anos no Benfica, acumulando com o trabalho numa farmácia, e foi com muito do seu talento que nos primeiros anos de vida o clube encarnado arrecadou quatro campeonatos de Lisboa, três consecutivos. Em 1913, representando a seleção de Lisboa, Artur José Pereira esteve numa digressão ao Brasil que lhe valeu vários convites de clubes locais. Não aceitou e quis regressar a casa. Em 1914 entrou em litígio com os dirigentes encarnados e foi suspenso por Cosme Damião durante seis meses. Despediu-se do Benfica e dos dérbis pela águia na época 1913/14, com uma goleada ao Sporting, a 12 de outubro, marcando o segundo de quatro golos sem resposta; e um 3-0, a 8 de março, com um bis do irmão Francisco Pereira.

Protagonizou então a primeira grande transferência da história do futebol português, tornado-se o primeiro jogador pago. Trocou as águias pelo rival Sporting, recebendo 36 escudos por mês e tendo prioridade nos banhos quentes. Tinha 25 anos e começavam os problemas com o álcool, mas Francisco Stromp tratou de colocá-lo na linha.

Ao fim de cinco anos no Sporting, e mais dois títulos de Lisboa, um na primeira época, o outro na última, com uma vitória por 2-1, na segunda mão do desempate para apuramento de campeão, frente ao Benfica, a 20 de Julho de 1919, pediu dispensa. Não queria deixar o futebol sem voltar a Belém e resolveu fundar um novo clube. Um clube de Belém, em Belém.

Do banco de jardim ao Campo do Pau de Fio

Numa noite de fins de agosto de 1919, no embalo da euforia pelo fim da I Guerra Mundial, num banco do jardim da Praça Afonso de Albuquerque, um grupo de amigos, jogadores de Belém ao serviço de outros clubes, sonhava com esse novo clube. «Somos todos de Belém, por que havemos de jogar noutros clubes?», perguntavam. 

 

Artur José Pereira, o irmão Francisco Pereira, Henrique Costa, Carlos Sobral, Joaquim Dias, Júlio Teixeira Gomes, Manuel Veloso, e Romualdo Bogalho encetaram as primeiras conversas para a formação do Belenenses. Foram consultados Virgílio Paula e Reis Gonçalves, figuras proeminentes da altura, que deram caloroso apoio à iniciativa e, novas reuniões e alguns aderentes depois, a ideia ganha corpo definitivo.

A 23 de setembro de 1919 é resolvida em definitivo a fundação do verdadeiro clube de Belém: «Os Belenenses». Apesar de mentor, Artur José Pereira recusou ser o sócio número 1, dando ao mais velho, Henrique Costa, essa honra. Não quis sequer ser presidente, ou assumir cargo de direção. Queria jogar.

O Belenenses começou por treinar nas Terras do Desembargador, onde o extinto Sport Lisboa jogava, e logo depois numa nesga de espaço junto à Praça Afonso de Albuquerque, onde está o banco de jardim da fundação. Depois, devido à súbita e inesperada afluência de curiosos, adeptos e novos jogadores, começaram a ocupar um novo espaço contíguo às Terras do Desembargador, junto ao casario de Belém. Nascia assim o Campo do Pau de Fio, assim chamado porque estava ali «plantado» um poste telegráfico, junto à linha divisória do terreno de jogo.

A curiosidade do povo de Belém pelo novo clube aumentava e as pessoas juntavam-se debaixo das colunas e nas varandas das casas para ver os jogadores. Numa delas, conta a História, até o Presidente da República Manuel Teixeira Gomes assistiu a treinos e jogos do Belenenses.

O primeiro «balneário» era na própria casa da família de Artur José Pereira e os equipamentos, com a Cruz de Cristo ao peito, eram confecionados por familiares dos jogadores.

Para a participação regular no Campeonato de Lisboa, na altura a competição mais importante do país, o Campo do Pau de Fio não reunia as condições necessárias, pelo que o Belenenses passou a realizar os jogos oficiais em campo emprestado: o Stadium do Lumiar.

O arranque

O primeiro grande jogo da equipa do Belenenses realizou-se no dia 8 de novembro de 1919, no Campo Grande, com a formação de Belém a perder com o Vitória de Setúbal por 1-0 na disputa da Taça Associação. 

A equipa azul foi constituída nesse jogo pelos seguintes jogadores: Mário Duarte (guarda-redes), Romualdo Bogalho, Carlos Sobral, Francisco Pereira, Artur José Pereira, Arnaldo Cruz, Aníbal dos Santos, Edmundo Campos, Manuel Veloso, Alberto Rio e Joaquim Rio. 

A prova de fogo do novo clube chegou logo em 1920, com o início do 13º Campeonato de Lisboa (1919/20). E na série de grupos logo calhou o Benfica como adversário. O outro era o CIF. O primeiro encontro (a 11 de Janeiro) trouxe a primeira vitória do Belenenses: frente ao difícil Internacional (o CIF) no campo deste, por 3-2. A 21 de janeiro de 1920, o Belenenses jogou o primeiro grande clássico, contra o Benfica, a quem ganhou por 2-1, no Estádio do Lumiar.

Foi também nesse ano que o clube conquistou o primeiro troféu, a Taça «Mutilados de Guerra», organizada pela Associação de Futebol de Lisboa, vencendo na final o Sporting por 2-1.

Após dois anos com a camisola do tão ansiado clube, e com a rivalidade entre os clubes de Lisboa ao rubro, Artur José Pereira deu por terminada a carreira. Tinha 33 anos e tinha cumprido o sonho. A semente estava lançada em Belém e continuaria a florescer.