O Bolonha perdia no mítico Estádio Giuseppe Meazza. Sinisa Mihajlovic analisou as opções que tinha no banco de suplentes e decidiu-se pela mais improvável. Musa Juwara, de 18 anos, tinha quatro presenças e 31 minutos na Serie A. Um menino avançado que poucos ainda levavam a sério. 

Sinisa sentiu que a tarde era de Juwara e o adolescente gambiano não o deixou ficar mal. Nove minutos depois de entrar, Musa Juwara empatou o jogo e deixou Antonio Conte de mãos na cabeça. Pouco depois, outro Musa [Barrow], fez o segundo do Bolonha. Vitória no San Siro e um salto para longe da zona de descida

O que nos traz aqui não é esse vitória do Bolonha, mas sim a história de vida de um dos heróis do jogo. Há quatro anos, Musa Juwara entrou num bote de borracha e aceitou enfrentar a fúria do Mediterrâneo para fugir a uma existência penosa na Gâmbia, sem sentido. 

Gâmbia, depois Senegal, Mali, Burkina Faso, Níger e Líbia. Neste país entregou tudo o que tinha e entrou na pequena embarcação. Sobreviveu à tormenta e foi acolhido pela Marinha italiana perto da Sicília. 

«Ele é de Tujereng e perdeu os pais», diz o jornalista Momodouh Bah, compatriota de Musa, ao The Guardian. Só em 2016, 25 mil menores africanos procuraram asilo em solo italiano. Musa Juwara foi um dos que conseguiu ultrapassar a cerca burocrática e agarrar o caminho que lhe foi indicado. 

VÍDEO: o golo de Musa Juwara em San Siro (aos 2m36s)

   

Da Sicília, conta ainda Bah, Musa foi transferido para a região de Basilicata, no sul da Itália Continental. Durante um jogo de futebol na rua, o agora avançado do Bolonha acabou por ser descoberto por um treinador do Virtus Avigliano, Vitantonio Summa. 

Vitantonio passou a ser treinador, amigo e tutor legal de Musa Juwara. «Rapidamente, o Musa chamou a atenção do Chievo e no verão de 2019 o Bolonha pagou 500 mil euros por ele. Foi integrado na equipa de sub19 e o treinador Mihajlovic chamou-o ao plantel principal poucos meses depois.»

Há cerca de 30 mil refugiados gambianos a viver em Itália atualmente. Musa Juwara não é o único futebolista, mas é o mais famoso e mais bem sucedido. Kalifa Manneh está no Catania, Ebrima Darboe trabalha na AS Roma e Omar Colley na Sampdoria. 

Yahya Jammeh, o ditador que governou a Gâmbia com punho de ferro entre 1994 e 2017, foi deposto há mais de três anos. O país ainda sara as cicatrizes de convulsões internas profundas e, paradoxalmente, o futebol do pequeno país nunca esteve tão bem. 

A fuga para a liberdade e a civilização de vários talentos, como Musa Juwara, elevam o nível da seleção a um patamar nunca antes visto. O menino que fugiu num bote de borracha marcou um golo em San Siro. Há boas razões para a Gâmbia estar otimista.