«CHUTEIRAS PRETAS» é um espaço de Opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Um olhar assumidamente ingénuo sobre o fenómeno do futebol. Às quartas-feiras, de quinze em quinze dias. Pode seguir o autor no Twitter. Calce as «CHUTEIRAS PRETAS».

Sócrates foi a enterrar no dia em que o Corinthians foi campeão. 2011, há coincidências macabras. Ou uma desconcertante justiça poética. Sócrates, o Doutor, diferente de todos. Corria menos do que todos, chegava à bola antes de todos.

Sócrates via o jogo lá do alto, 190 centímetros a planar sobre o relvado. Costas direitas, elegância de cavalheiro, incapaz de maltratar a bola. Um craque intemporal, um revolucionário de pensamento livre e convicções inabaláveis. Dentro e fora do balneário.

Sócrates, hoje os parágrafos começam assim. Médico, cofundador da «Democracia Corinthiana», um futebolista assumidamente politizado, da Esquerda humanista, um génio que cantava a Liberdade com as palavras de Elis Regina.

«E nuvens lá no mata-borrão do céu

Chupavam manchas torturadas

Que sufoco!

Louco!

O bêbado com chapéu-coco

Fazia irreverências mil

Pra noite do Brasil

Meu Brasil!

(…)

A esperança

Dança na corda bamba de sombrinha

E em cada passo dessa linha

Pode se machucar

Azar!

A esperança equilibrista

Sabe que o show de todo artista

Tem que continuar».

Sócrates ouvia e servia O Bêbedo e o Equilibrista. A composição de João Bosco para Regina recordava os assassinatos do operário Manuel Filho e do jornalista Vladimir Herzog, às mãos da hedionda ditadura militar brasileira (1964-1985). Torturados.

Sócrates tinha memória. É indispensável ter memória. E ideias. Penso, por isso, em Sócrates e no meu querido Rio de Janeiro ao contemplar assustado o Brasil de 2018, outubro.

Sócrates morreu demasiado cedo, a falta que as suas palavras fazem nos dias de hoje. Quase 50 milhões de brasileiros votaram num candidato da extrema direita, certamente entre eles milhares de desportistas, mais famosos ou menos famosos.

Sócrates, falo para ti, até o sorriso de Ronaldinho Gaúcho escolheu Bolsonaro. Difícil de entender, apesar de aceitar e sublinhar a desilusão extrema semeada pelo PT de Lula (e Haddad) na última década.

Sócrates, e agora? Quem toma a palavra, quem se faz ouvir, a quem resta uma centelha de lucidez e responsabilidade no desporto brasileiro? Quem faz de Sócrates e ergue o punho da liberdade? Juninho Pernambucano tentou, gritou o óbvio, apontou o dedo aos ingratos. Foi silenciado por colegas, ex-colegas, atirado para a sarjeta e o lixo nas redes sociais.

Sócrates, Juninho é um dos escassos homens do futebol merecedor da causa/efeito da «Democracia Corinthiana». Mas é preciso mais resistentes, mais Sócrates para entrar em campo e resolver tudo no segundo tempo. Já não basta gritar #EleNão, o Brasil precisa urgentemente de reler a História recente.

Sócrates, e se cantássemos Caetano em Alegria, Alegria?

PS: passei um mês no Rio de Janeiro em 2016, atrás dos Jogos Olímpicos. Apaixonei-me pela cidade, uma paixão difícil de concretizar. Não é a paixão sentida ao ver Maradona jogar para gritar D10S mio!, não é a paixão ao primeiro acorde de Ok Computer dos Radiohead em 1997, não é a paixão que cada episódio de Seinfeld exercia em mim naquelas noites longas dos anos 90. É uma atração perigosa, uma ligação complicada, o desejo de esconder o olhar sabendo que vou perder um momento importante. Que este Rio tão complexo saiba responder à urgência do presente.

«CHUTEIRAS PRETAS» é um espaço de Opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Um olhar assumidamente ingénuo sobre o fenómeno do futebol. Às quartas-feiras, de quinze em quinze dias. Pode seguir o autor no Twitter. Calce as «CHUTEIRAS PRETAS».