Lado B é uma rubrica que apresenta a história de jogadores de futebol desde a infância até ao profissionalismo, com especial foco em episódios de superação, de desafio de probabilidades. Descubra esses percursos árduos, com regularidade, no Maisfutebol:

«Na minha autobiografia vou contar tudo o que vivi, até quando testemunhei o assassinato da minha mãe pelas mãos do meu pai. É algo que nunca vou esquecer, faz parte de mim.»

A história não é nova mas terá desenvolvimentos em forma de testemunho no livro que Jakub Blaszczykowski vai lançar no próximo mês.

O jogador polaco, conhecido como Kuba, ficou marcado por essa tragédia quando tinha apenas 11 anos. Superou o trauma e surge hoje em dia como um elemento influente no Borussia Dortmund.

Numa altura em que Blaszczykowski recupera o seu lugar no onze do Borussia, após longos meses de ausência por lesão, o Maisfutebol recupera os primeiros passos do jogador e uma infância conturbada numa pequena aldeia da Polónia.

«Já enfrentei muitos problemas na minha vida e tudo me fez mais forte. Quando surge um novo problema na minha vida, enfrento-o porque sei que já vi o pior»

Truskolasy, 1985. Kuba Blaszczykowski nasce nesta pequena localidade, com cerca de dois mil habitantes, e demonstra rapidamente a sua qualidade com uma bola nos pés.

Com oito anos, Kuba e o irmão Dawid começam a treinar no Raków de Czestochowa. Os jovens deslocam-se de autocarro para a cidade, num trajeto de uma hora para cada lado. Fazem-no com esforço e prazer.

Os dias felizes durariam pouco, ainda assim.

Em setembro de 1996, Kuba e Dawid assistem a um momento de loucura do pai Sigmund, que esfaqueia várias vezes a esposa, Anna, provocando a sua morte.

A vida daquela família muda para sempre. Kuba perde a mãe e o pai, que é detido e condenado a 15 anos de prisão pelo crime horrendo.

Kuba Błaszczykowski quis desistir, como é natural. Virou as costas ao futebol durante alguns meses mas acabou por voltar por insistência da avó, que passou a tomar conta dos irmãos, e do tio Jerzy Brzeczek.

Jerzy Brzeczek foi internacional polaco e teve grande influência no crescimento do sobrinho.

Demonstrando capacidade de superação, Kuba recuperou a alegria a jogar futebol e evoluiu nas camadas jovens do Raków Czestochowa.

Aos 16 anos, o extremo deu um passo em frente e rumou ao Gornik Zabrze, clube que militava no escalão principal, mas a experiência não correu da melhor forma e a afirmação sofreu um revés.

Kuba Blaszczykowski regressou à cidade de Czestochowa, perto de casa, para representar o Klub Sportowy que estava na quarta divisão nacional. Ainda assim, chegou à seleção nacional de sub-19 e destacou-se no clube com 11 golos em 24 jogos.

O tio Jerzy Brzeczek volta a ter um papel importante. Ajuda o jogador, agora com 18 anos, a conseguir um período de experiência no Wisla Krakow, durante a pausa de inverso de 2004, e Kuba impressiona, chegando finalmente ao mais nível mais alto da Polónia.

Com mais de cinquenta jogos pelo Wisla, o extremo comprova o seu talento e estreia-se na seleção principal do país.

Em fevereiro de 2007, assina contrato com o Borussia Dortmund para reforçar o clube alemão no final dessa temporada. Até aos dias de hoje.

Kuba Błaszczykowski venceu a dura batalha sem esquecer a tragédia da infância. Aliás, nunca mais falou com o pai, que seria libertado depois de cumprir a sua pena.

Sigmund faleceu poucos meses após sair da prisão, antes do Euro2012, e os dois filhos fizeram questão de marcar presença nas cerimónias fúnebres. A despedida de um homem que marcou as suas vidas para sempre.