Denúncias recentes por parte de cheerleaders associadas a equipas profissionais de futebol, da NFL, trouxeram nova luz ao fenómeno, revelando que estas senhoras não passam de trabalhadoras precárias e geralmente muito mal pagas. A situação está a ser considerada escandalosa considerando a diferença de honorários para os jogadores naquele que é o deporto que gera mais receitas no país.

Claro que poderá dizer-se que as cheerleaders são apenas uma das partes do espetáculo que tem como principais protagonistas as equipas, mas num desporto capaz de gerar receitas multimilionárias e que inclui estas mulheres como parte importante do produto não deixa de ser estranha a abissal diferença de tratamento.

As primeiras a falar disto foram as «Raiderettes», cheerleaders dos Oakland Raiders, uma equipa de futebol americano sediada na Califórnia. Um dos elementos do grupo decidiu levar o clube a tribunal, acusando a administração de roubo e práticas laborais injustas, motivando o Departamento de Estado do Trabalho a abrir uma investigação.

Segundo o caso, as «Raiderettes» ganham cerca de 1250 dólares por época (cerca de 910 euros), o que dá cerca de cinco dólares por hora (3,6€). O salário mínimo na Califórnia é de oito dólares por hora (5,8€). Os pagamentos só são feitos no final da época e não cobrem despesas como viagens e até são multadas as cheerleaders que usam os pom-pons errados.

Como forma de comparação, o jogador mais bem pago dos Raiders, o running back Darren McFadden, ganha perto de 6 milhões de dólares por ano (4,3 milhões de euros).

CONHEÇA AS RAIDERETTES DE 2013

Mas este foi só o início do processo, porque entretanto soube-se que este tipo de práticas existem noutras equipas. Os San Diego Chargers, por exemplo, pagam 75 dólares por jogo (55 euros), enquanto os Baltimore Ravens cerca de 100 (73) e os Dallas Cowboys chegam aos 150 (109).

Inspirada pelas «Raiderettes», uma cheerleader dos Cincinnati Bengals recorreu à justiça com as mesmas acusações, mas acrescentando que ganha metade. Diz que no seu grupo são obrigadas a trabalhar 300 horas por ano e ganham «no máximo 90 dólares por cada jogo em que apoiam a equipa». Isso significa que ganham cerca de 2,85 dólares por hora (2 euros), num estado em que o salário mínimo é de 7.85 (5,7).

Apesar de o processo seguir agora o seu trajeto legal, algumas cheerleaders já aproveitaram o momento para afirmar que o emprego não serve para ganhar dinheiro, mas é mais uma espécie de hobby, pois permite uma grande exposição e isso pode abrir portas. «Digo sempre que o cheerleading não paga as contas, mas paga a alma», explicou a propósito uma das cheerleaders dos Seattle Seahawks, os mais recentes campeões da NFL.

Mas o glamour que a tarefa poderá transportar está também cheia de regras, como o relacionamento com os jogadores. No caso das Raiderettes chegavam a ser aconselhadas a não frequentar festas organizadas pelos atletas devido ao alto grau de risco de virem a ser violadas. Isso e muito mais, como indicações sobre mascar chiclete, fumar, beber e até comer. Tudo em prol da equipa…

Grande parte das cheerleaders da NFL ensina dança ou são coreógrafas profissionais, enquanto outras ainda são estudantes ou têm outras carreiras profissionais. Muitas vezes são requisitadas para ações de beneficência ou até para visitarem as tropas no estrangeiro.

«Muitas destas mulheres estão demasiado contentes por poderem assinar contrato com uma equipa da NFL. Grande parte delas nem sequer sabe que se tratam de contratos ilegais. O que eu questiono é porque é que reputadas organizações elaboram contratos deste género», refere o advogado Leslie F. Levy, que está a defender as «Raiderettes» em tribunal.

No desporto que fatura mais na América as mascotes ganham bem mais dos que as cheerleaders. Embora os números não sejam públicos, os advogados das «Raiderettes» descobriram que as mascotes das equipas profissionais podem ganhar entre 30 mil a 60 mil dólares por época (22 a 44 mil euros). Raramente alguém os conhece e poderão ficar conhecidos por simplesmente aguentarem o calor dentro do fato e fazerem palhaçadas.

«Um domingo qualquer» é uma série de textos sobre tendências do desporto americano assinada pelo jornalista Filipe Caetano