Nasceu em Leiria há quase 82 anos, mas só a partir dos 14 é que se tornou benfiquista fervoroso. Antes disso, viveu em Coimbra e era da Académica por influência do pai, numa infância em que dos primórdios do Jamor tem a sua primeira memória futebolística.

António-Pedro Vasconcelos viu jogar «Os Cinco Violinos», mas apaixonou-se pelo Benfica de Eusébio e de Coluna, sobre quem tem uma história da PIDE para contar.

Realizador de sucessos como «O Lugar do Morto», «Jaime», «Call Girl» ou «Os Gatos Não Têm Vertigens», o cineasta, que já foi comentador desportivo, encontra semelhanças improváveis entre um filme e um jogo e até já explicou isso mesmo ao seu amigo Jorge Jesus, com quem perdeu contacto desde o seu regresso ao Benfica.

 

Qual a sua primeira memória de futebol?

Vivi em Coimbra entre os 7 e os 14 anos e descobri o futebol com o meu pai, que era adepto da Académica, na altura treinada pelo Cândido de Oliveira. Ele fez-me sócio, eu ia ver os jogos e acabava por ver Sporting, Benfica… Vi jogar «Os Cinco Violinos», mas o primeiro jogo de futebol que me marcou foi um Portugal-Espanha, em 1947, no Estádio do Jamor.

O que se recorda em particular desse jogo?

Foi a primeira vez que fui a Lisboa e fiquei impressionado por estar num estádio com aquela dimensão. Portugal ganhou 4-1, apesar de a Espanha ter marcado primeiro. O Araújo, do FC Porto, e o Travassos, do Sporting, bisaram. Lembro-me também do Azevedo, guarda-redes do Sporting, ter sido muito aplaudido porque no jogo anterior contra o Benfica havia jogado toda a segunda parte com um braço partido. Depois vim para Lisboa com 14 anos e a pouco e pouco a minha paixão foi-se acentuando pelo Benfica.

Viveu na juventude um período de domínio do Sporting e viu jogar «Os Cinco Violinos». O que o levou, então, a ser do Benfica?

Tem que ver com alguns dos meus colegas mais próximos e também pelo facto de o Benfica ser um clube popular. O regime odiava o futebol e o fado, ao contrário do que se faz crer, mas quem tinha mais poder do ponto de vista do apoio político era o Sporting. Com 21 anos, fui viver para Paris quase três anos e nesse período o Benfica sagrou-se bicampeão europeu. A partir daí, tornei-me um benfiquista fervoroso. Quando voltei a Lisboa passei a ir ver os jogos, mais tarde tornei-me sócio e hoje continuo como um adepto crítico.

A sua ligação afetiva à Académica manteve-se de alguma forma?

Quando vivi em Coimbra a Académica tinha uma grande equipa, tinha um jogador fantástico que era o Bento a quem chamavam «O Rato Atómico», por ser pequenino e muito rápido. Mas a Académica não lutava pelo campeonato e depois do 25 de Abril o clube desfez-se por causa de alguns radicais. Aliás, durante um tempo, passou a chamar-se Académico.

Recorda-se certamente daquela final da Taça de Portugal, em 1969, em plena crise estudantil, em que a Académica defrontou o Benfica e protestou contra o regime.

Essa final em que os jogadores entraram de capa e batina e que nem sequer foi transmitida pela televisão.

Tinha consciência na altura da importância e do simbolismo desse momento?

Completamente.

Ainda assim, queria que o Benfica vencesse essa final, não?

A importância política que a Académica conseguia mobilizar no meio estudantil, na cidade e no país era enorme. Provavelmente, nesse dia estava dividido entre os dois.

Apesar da influência do Sporting, como referiu há pouco, o Benfica conseguiu por exemplo desviar o Eusébio no início da década de 1960.

O Benfica ter conquistado o Eusébio deve-se à inépcia do Sporting. O Benfica sempre foi muito popular e abrangente. Portanto, também havia tipos da PIDE que eram benfiquistas. Até tenho uma história curiosa que o Mário Coluna me contou.

Pode partilhar?

Quando o Benfica se deslocava ao estrangeiro, o Coluna às vezes era visitado por moçambicanos que lhe pediam apoio para a FRELIMO para a luta pela independência. O Coluna nunca me disse se apoiou ou não, mas contou-me que por ser suspeito foi chamado à PIDE. Ficou lá sentado à espera de ser ouvido e quando entrou, mal o inspetor levantou a cabeça, ficou espantado: “Você não é o Mário Coluna? O que é que você está aqui a fazer? Mas você não tem jogo amanhã? Vá-se embora. Vá treinar.” Quando a Amália e o Eusébio ganharam projeção internacional o regime tentou aproveitar-se disso. Agora, o mito de que o Benfica era o clube do regime foi um mito criado pelo Pinto da Costa.

Acha que essa convicção nasce daí?

Pinto da Costa sempre foi muito hábil. Gosto muito do Porto, há muitos benfiquistas e ainda mais fanáticos do que os de Lisboa, porque têm de combater «no território do inimigo». Quando eu ia gravar o programa ao Porto [Trio de Ataque] apanhava um táxi e geralmente ouvia uma de duas perguntas. Uns diziam-me «Como é que está o seu clube?», outros era «Como é que está o nosso clube?» Identificavam-se logo ali. [risos] Mas, por exemplo, quando o FC Porto ganhou a Taça dos Campeões Europeus ao Bayern (1987) eu estava em Madrid – estava lá a negociar um apoio da embaixada –, vi o jogo na embaixada e vibrei com aquela vitória.

Como benfiquista considera o FC Porto o grande rival?

Claramente.

Apesar do historial e da vizinhança com o Sporting?

Há muitos anos em que o Sporting não tem capacidade para disputar o campeonato. Por outro lado, os jogadores e os adeptos do FC Porto empenham-se o dobro quando defrontam o Benfica. Há ali uma raiva em ganhar. É mais do que um jogo. O Benfica podia ter alcançado um domínio incontrolável quando o Jorge Jesus foi minado pelo próprio Luís Filipe Vieira durante alguns anos e depois corrido de uma maneira vil.

É por isso que se considera um adepto crítico?

O Vieira é um homem que não tem a paixão pelo Benfica que o Pinto da Costa tem pelo FC Porto. Se lhe perguntarmos como foram certos jogos em 1960, qual era o treinador e a equipa tenho impressão de que ele não sabe. Ele gere a marca Benfica, mas não percebe nada de futebol e do ponto de vista da gestão e das ambições do clube é um desastre.

Em todo o caso, acredita em Jesus?

Não conhecia o Jesus de lado nenhum quando ele veio para o Benfica. Só o tinha visto treinar o Belenenses e o Sp. Braga, mas ficava de boca aberta a ver como ele tinha transformado clubes e jogadores que ninguém valorizava.

Acredita que o Benfica vai com ele regressar a esse passado recente?

Fiquei estupefacto quando ele voltou. Agora, não temos contacto, mas continuo a ser amigo dele e um grande admirador das suas qualidades. Não perdia um jogo do Flamengo, mas fui muito crítico quando ele veio e acho que ele se apercebeu. Não consigo perceber como ele vem salvar o Vieira e se assume como trunfo eleitoral. E como foi proactivo: defendeu-o ao transe, para além do que era a sua obrigação.

Este Benfica, que já gastou mais de 100 milhões de euros em reforços, já o convenceu?

O primeiro jogo em que me convenceu foi este último contra o FC Porto. Fiquei surpreendido. O Jesus teve a ideia brilhante de pôr dois laterais e vi a equipa nas transições defensivas defender com seis. A equipa está melhor em termos defensivos, mas acho que lhe falta um ponta-de-lança. Não percebo como é que o Benfica se desfez do Carlos Vinícius, que é muito superior ao Seferovic. No meio-campo, há ali muitas opções de qualidade. O Weigl, por exemplo, subiu de forma impressionante. Contra o FC Porto foi a primeira vez ao longo desta época em que vi um sinal de que «Jesus is back».

Que jogo do Benfica mais o marcou?

O que mais me emocionou foi o 6-3 ao Sporting, em 1993/94. O do João Vieira Pinto. Fui ao Festival de Cannes, mas acabei por ver esse jogo em Paris. Lembro-me de outros jogos extraordinários, como aquela eliminatória contra o Arsenal ou o 4-4 com o Bayer Leverkusen, em que ora estávamos apurados, ora não.

Mudando de assunto, o futebol e o cinema são dois grandes espetáculos de massas do século XX. Como é que há poucos grandes filmes sobre futebol?

Porque são rivais. O suspense de um jogo é o suspense do cinema. Há poucos filmes sobre futebol que resultaram. Ou se faz algo sobre os bastidores do futebol ou então é muito difícil captar o suspense de um jogo para o cinema. É muito difícil conjugar jogador e ator. Pode fazer-se um filme com o Ronaldo e o Messi, mas ele não pode estar parado durante dois meses para o fazer e nada garante que ele seja bom ator. E vai fazer o papel de quê? Dele próprio? Onde está a ficção? Onde é que se arranja um grande jogador para fazer uma boa ficção? Se ele for muito bom jogador vai para o futebol, não vai para o cinema. Uma das grandes conversas que tive com o Jorge Jesus foi justamente sobre isso.

Sobre o quê em concreto?

Dizia-lhe que o futebol e o cinema tinham tudo em comum. E ele perguntou «Então, mas porquê?» Então, passam-se ambos num retângulo, o que as pessoas veem são os atores e os jogadores, mas há um trabalho de bastidores dos realizadores e dos treinadores que as pessoas não veem. Um jogo são 90 minutos, que é mais ou menos a duração de um filme. Um bom jogo, tal como um bom filme, tem suspense até ao fim. Outra coisa é que o tempo que um jogador tem a bola nos pés são cerca de dois minutos e meio. No cinema, correndo um dia de filmagens, gravamos dois minutos e meio. Tem tudo a ver. São irmãos gémeos. É provavelmente por isso que não há bons filmes sobre futebol.

Se tivesse de escolher um jogador para protagonista escolheria quem: Ronaldo ou Messi?

Provavelmente, escolheria o Messi. O talento do Messi é uma coisa inata. O Ronaldo é provavelmente dos grandes jogadores aquele que melhor geriu a sua carreira e que trabalhou mais. Tinha talento, mas ganhou qualidades físicas e de um equilíbrio emocional incrível. Agora, o Messi é de outro planeta.

Foi do melhor que viu jogar?

O Maradona, o Cruijff…  Vi jogar o Di Stéfano, o Puskás, o Pelé, o Garrincha… O futebol evoluiu em termos de velocidade coletiva, mas a nível individual Pelé ou Maradona jogariam hoje tanto ou mais do que antes.

O António-Pedro viu à sua frente ídolos de há muitas décadas do futebol português. Para si, o Ronaldo é o melhor jogador português de sempre?

O Eusébio ou o Coluna, por exemplo, eram geniais, mas a carreira do Ronaldo é espantosa. Joga com os dois pés, é brutal de cabeça, tem uma velocidade e uma leitura de jogo incríveis. Se virmos um resumo dos melhores momentos do Ronaldo ficamos de boca aberta.

É ingrata essa comparação?

Sim, é ingrato. Não há uma única filmagem do Peyroteo. O único bocadinho em que se vê o Peyroteo a jogar é do «Leão da Estrela» em que as imagens foram feitas de propósito para o filme. Isso também dificulta. Alguns dos melhores jogadores da história este mundo nunca os viu jogar.

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